Velhice

O tempo que corre no jardim de Lya

Entre um afago nas cachorras e um olhar amoroso para a profusão de fotos dos filhos e netos, o rio do tempo de uma das maiores escritoras brasileiras corre sem pressa.

Diante do pequeno esplendor da natureza que se revela nas plantas que ornam sua casa em Porto Alegre ou no exuberante jardim que cultiva em Gramado, Lya Luft contempla. Sente na alma o vento que faz balançar os ramos das árvores e, assim, compreende. Reflete. Entre um afago nas cachorras Penélope e Melanie e um olhar amoroso para a profusão de fotos dos filhos e netos, o rio do tempo de uma das maiores escritoras brasileiras corre sem pressa.

Na companhia do marido, Vicente, e de uma taça cujo conteúdo pode variar entre guaraná, gim tônica ou vinho branco, ela recebe a velhice com naturalidade. Aos 81 anos, vive o momento exatamente como quer vivê-lo.

“É claro que se eu tivesse a cabeça de hoje quando mais jovem, teria sofrido menos, teria feito sofrer menos. Mas, por outro lado, são coisas da vida por que eu tinha que passar. Na real, quero ter 81 anos com a cabeça de 81. Quem acha que ter 81 anos é ter a cabeça boba tem preconceito.”

Velhice faz parte da vida

“Em vez de curtir as novas formas de liberdade que o passar do tempo nos concede, vamos nos aprisionar no terror?”, questiona Lya em um trecho da obra O Tempo é um rio que corre, publicada em 2014. Com grande lirismo e delicadeza, o livro discute os sentimentos e transformações que chegam com os anos. Lya escolheu curtir a nova liberdade. “Velhice é uma coisa natural pra mim. Faz parte da vida”, diz, saboreando sem qualquer culpa um copo de refrigerante. Segundo ela, o mito da eterna beleza e juventude tem escravizado as mulheres, transformando a velhice em um terror. “Não tenho nada contra plástica, fiz lifting aos 50 anos. Mas as pessoas estão se enfeando, se mutilando. É uma coisa triste, é horrível”, lamenta.

Em sua casa, Lya desfruta da quietude (Foto: Fátima Torri)

Uma vida de trabalho e de busca por autonomia e independência levou Lya ao tranquilo desfrute daquilo que mais prezou: a quietude, o amor, a inteligência. Casada há quase 20 anos com o engenheiro de transporte aposentado Vicente Pereira, vive um amor que se revela uma boa amizade a cada dia. Curte os filhos e os netos com entrega, apesar de sentir falta de nenês, serezinhos insubstituíveis e preciosos para o convívio, de acordo com ela.

Depois de A casa inventada, seu 30º livro, que saiu em 2017, Lya Luft não publicou mais nada. Agora, em meio a tanta incerteza causada pela pandemia, planeja o lançamento de As coisas humanas, dedicado ao filho, André, que morreu em 2017 vítima de um problema cardíaco. Apesar de já ter convivido de perto com a morte – além de perder dois maridos, Lya também perdeu o pai a quem adorava aos 35 anos, e viu a mãe se apagar aos poucos na névoa do mal de Alzheimer –, foi com a partida de André que compreendeu mais profundamente o peso cruel da morte.

“Perder um filho é brutal, não tem cura, é horrível. Com o tempo, é como se ele tivesse nascido pra dentro de mim, eu sinto que ele está comigo. Mas isso tudo é literatura, a realidade é horrível.” Ao mesmo tempo, tem refletido sobre a vida. “Acredito que existe alguma coisa que se perpetua além da morte. A vida não é só nascer, crescer, trabalhar, fazer cocô, transar e cair num buraco.” Se teme a morte? Não. “Tenho medo é do sofrimento.”

“Perder um filho é brutal, não tem cura, é horrível. Com o tempo, é como se ele tivesse nascido pra dentro de mim, eu sinto que ele está comigo. Mas isso tudo é literatura, a realidade é horrível.”

Homens solitários, mulheres magoadas

Estar viva vem tendo significados variados para Lya, conforme a fase. De criança desobediente e imaginativa tornou-se escritora e tradutora profícua, uma das mais importantes das letras brasileiras modernas. Tornou-se esposa, mãe, avó, mãe de cachorro e pintora amadora. Aos 81 anos, ainda enxerga os mesmos dilemas nas relações entre homens e mulheres, com seus conflitos e posições.

Ancestralmente, homens saíam para propagar a espécie, as mulheres cuidavam dos filhos. Mas os papéis se inverteram, as mulheres estão por toda a parte. E agora?, questiona-se Lya. Homens são solitários, não falam sobre si. Mulheres guardam enormes quantidades de mágoa e, quando podem, espetam uma agulha finíssima de vingança no coração dos outros.

“O ser humano não é grande coisa, né? Somos uns pobres diabos, fracos, com medo da morte, medo de perdas. O ser humano é um pobre bicho, por que sofre e sabe que sofre. Mas também fazemos coisas maravilhosas, Mozart, Rembrandt, Leonardo da Vinci, por exemplo. A arte e a sabedoria, em parte, nos salvam.”

Coração partido e recuperação

Dias depois de completar 81 anos, em setembro do ano passado, Lya sentiu uma dor lancinante no peito em uma madrugada. Levada às pressas para o Hospital Moinhos de Vento, foi socorrida depois de ter sofrido um infarto. Dona de uma saúde de ferro, sempre aprovada nos exames de rotina, Lya infartou, segundo os médicos, devido a um broken heart. Isso mesmo, um coração partido. O trauma vivido pela perda do filho desorganizou o organismo da escritora, que colapsou. Depois da colocação de um stent, a vida voltou ao normal.

Hoje os dias são sorvidos em ritmo quieto e contemplativo, bem ao gosto da mulher que já vendeu mais de um milhão de livros no Brasil. Mesmo com o sucesso, Lya jamais abriu mão dos pequenos prazeres que a completam, como ler, sempre e muito, comer salgadinhos, dirigir e assistir a documentários e séries policiais ao lado do marido.

Em Porto Alegre ou no jardim que cultiva em Gramado, Lya contempla. (Foto: Fátima Torri)

O amor desmedido por filhos e netos não faz dela uma vovó de estereótipo: não sabe bordar e tem pavor de cozinhar, o cheiro de cebola lhe causa horror. As lembranças doces de uma infância repleta de natureza e afeto, com o pai que a incentivou a ler Platão aos 11 anos – “Não vais entender nada, mas vais achar bonito”, disse ele – também não a transformam em uma pessoa melancólica. Lya é uma mulher do seu tempo, que sabe o que quer e do que gosta. “Sou péssima em matemática e não quero que se metam na minha vida.”

Sobre a Covid-19 e a nossa corrente situação de isolamento e incerteza, Lya comenta: “Em plena pandemia, a experiência que vem com a idade pode ajudar: nossas amizades então consolidadas, a família encaminhada, podemos nos entregar a um certo ócio positivo como ver os filmes de que gostamos, ler livros interessantes, aprender sempre com documentários e reportagens, conversar mais com os outros pela internet, curtir o tempo. Pessoalmente, eu estou me cansando da falta de convívio, mas sou de alto risco, então obedeço. Precisamos manter a calma e o bom-senso”.

“Em plena pandemia, a experiência que vem com a idade pode ajudar: nossas amizades então consolidadas, a família encaminhada, podemos nos entregar a um certo ócio positivo, curtir o tempo.”

Depois da morte

Para desfrutar do rio de tempo que hoje corre manso, além de ler e escrever, Lya cultiva companhias. A do marido, indispensável. E a de amigos fiéis – presentes ou ausentes. Entre as muitas lembranças e histórias com os amigos, uma chama a atenção. Dias antes de morrer, Caio Fernando Abreu quis conversar com a velha amiga pelo telefone. Do outro lado da linha, Lya Luft falava pela última vez com o escritor:

– Lya, o que tu acha que vai acontecer quando a gente morrer?
– Olha, Caio, espero que aconteça o mesmo que eu acredito que tenha acontecido ao Hélio e ao Celso [Hélio Pellegrino e Celso Luft, os dois primeiros maridos de Lya]. Vai ser tudo um deslumbramento, a gente vai entender tudo, vai ser pura intuição. Vamos entender tudo sobre o que sempre escrevemos.
– E se não for assim?
– Olha, Caio, se não for assim, se depois dessa vida dura percebermos que Deus é um velho chato com fita métrica, vamos virar uns diabos bem malvados e fazer bastante loucura nesse mundo.

Seja qual for a resposta certa para a pergunta de Caio, Lya Luft acertou em cheio.

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