Menopausa

Menopausa não é pausa e muito menos o fim

“Mulher é bicho esquisito. Todo mês sangra”, já dizia Rita Lee em uma de suas canções. E quando para de sangrar todo mês, o que ela se torna? Uma mulher em nova fase da vida, que não precisa ser difícil como a gente imagina. Por isso, dia 18 de outubro é celebrado o Dia Mundial da Menopausa, criado pela Sociedade Internacional de Menopausa (International Menopausa Society, ou IMS), em colaboração com a OMS (Organização Mundial de Saúde). A data foi criada para alertar mulheres sobre as mudanças que acontecem no seu corpo e incentivá-las a procurar um especialista que pode ajudar a passar por essa fase da vida feminina com mais tranquilidade.

Michelle Obama, ex-primeira dama dos EUA (reprodução)

“O que o corpo de uma mulher a faz passar é uma informação importante. É importante ganhar espaço na sociedade, porque metade de nós vive como se não estivesse acontecendo”, comentou Michelle Obama recentemente em seu podcast. No auge dos 56 anos, a ex-primeira dama dos EUA resolveu falar sobre o tema, encorajando outras mulheres a fazerem o mesmo. Ela comenta ter passado por uma experiência difícil durante um compromisso. “Foi como se alguém colocasse uma fornalha dentro de mim e ligasse no máximo. Tudo começou a derreter e pensei: ‘que loucura. Não vai dar. Não vou conseguir”, disse.

Michelle levantou ainda o fato de o passar do tempo influenciar em como a mulher é percebida.” Com certa idade, perdemos nosso valor na sociedade, ao contrário dos homens, que ganham valor à medida que envelhecem”, analisou. Por mais natural que seja, falar sobre envelhecimento e menopausa ainda é tabu.

Patrícia Hermann fala de menopausa. Assunto em que ela não se deu por vencida. Sacudiu a poeira e está dando a volta por cima. Conta sua experiência com humor e sabedoria. O que faz bem? O que buscar para ficar confortável? Ela foi atrás. E nos conta aqui.

Bom humor é fundamental

Fernanda Cony, de 72 anos, acredita que cada fase da vida traz um aprendizado. “Nasci numa casa de mulheres, onde o único homem falava, mas a decisão era da mulher, minha avó. Minha mãe ficou viúva aos 20 anos, grávida de mim. Nunca vi as mulheres da casa sofrerem com a menopausa ou reclamarem dela. Não sei se isso veio com meu DNA ou se, no fundo era o medo de ser como as outras mulheres, chorosas.”

Aos 50, idade em que entrou na menopausa, iniciou a segunda faculdade, de Psicologia. “A menopausa me libertou de várias coisas. Eu sabia, ou melhor, sentia que, com ela, eu era mais mulher, que estava engatinhando para uma velhice real e saudável. Comecei a cuidar de mim mesma, fazendo terapia, resolvendo os conflitos existenciais, ou uma parte deles”.

Fernanda diz não ter tido sintomas típicos, como calorões, depressão ou cansaço. Mesmo assim, reconhece que nem tudo são flores, “Tem a parte chata, que é falta da bendita libido. Ah, a libido, também tabu para a nossa idade, mas afinal os ponteiros se ajustam. Estou casada há 48 anos e, pasmem, com o mesmo cara! Agora na pandemia, nos encontramos mais, aprendemos a rir juntos, o sexo é mais demorado, mas tem aquela parceria e uma admiração um pelo outro. Coisas que vem acompanhando a menopausa”.

Ela acredita ter ficado menos exigente consigo mesma.

“Me cobro menos, sou mais alegre e bem humorada. Minhas amigas são mais jovens, na faixa dos 50, isso faz diferença. Hoje elas falam rindo e contando as peripécias de uma vida na bendita e aflita menopausa. Precisamos rir disso, rir das nossas mazelas e frustrações. Ninguém com 72 anos vai querer ser alguém de 20 anos. Ou será que quer?”

Libertação

“Como a não maternidade é um assunto que resolvi há muito tempo, talvez o final do meu ciclo reprodutivo não tenha tido para mim um peso tão grande. Sofri com cólicas minha vida inteira e não via a hora delas deixarem de existir”, afirma Anne Marks Guarisse, de 50 anos. “O auge da minha menopausa foi durante o confinamento. Então minha irritabilidade ficou disfarçada pela irritabilidade coletiva. Pobre do André (risos)”, compartilha com bom humor, referindo-se ao marido André, 56 anos.

Sobre sua experiência, ela conta que o que mais incomodou foi a perda de sono. “A libido continua funcionando muito bem sim senhor. Perdi cabelo, mas isso eu já tive em várias temporadas em função do Lúpus. Não ganhei peso, mas durante o confinamento voltei a ser vegetariana. Acho que isso ajudou também”.

Anne, que é natural de Porto Alegre, hoje vive na  cidade de Reims, na França. E é de lá uma publicação na revista Marie Claire sobre menopausa, com título “Uma construção patriarcal”, edição junho/julho 2020, de cujo trecho reproduzimos aqui.

Revista Marie Claire francesa, edição de junho/julho 2020 (reprodução)

Embora a menopausa seja um estágio na vida das mulheres, é difícil encontrar uma celebridade francesa que fale sobre isso. “Não existe tal coisa”, lamenta Blandine Grosjean. “As mulheres-propaganda da nossa idade obviamente não estão “ oficialmente” na menopausa (…) Se você falar sobre menopausa, se você disser que está na menopausa, você não é mais realmente uma mulher, e isso, especialmente na França onde a mulher deve ter sucesso em todas as frentes e, principalmente, para se manter atraente”, acusa a jornalista. Uma situação diferente no exterior, explica ela. “Você mora em um país anglo-saxão onde a gente fala mais na imprensa, tem clínicas especializadas, blogs. Na França é o deserto”, explica ela à nossa colega que mora nos Estados Unidos. Mas então quem é o culpado, o quê? A menopausa “não é glamourosa nem sexy”, lembra Blandine Grosjean. A rejeição da menopausa seria, portanto, parte de uma lógica sexista, que poucas feministas defendem, acusa a jornalista.

Do outro lado do Oceano, os dilemas do universo feminino parecem ser os mesmos. Segundo Anne, a menopausa segue sendo tratada como uma questão vergonhosa na França. “Uma socióloga explica que esta visão desvalorizante da mulher vem dos discursos de médicos do século XIX. Como o papel das mulheres na sociedade era biológico, ou seja, eram reduzidas à função de reprodutoras. Com a menopausa, elas perdiam sua função”, comenta.

Anne Marks Guarisse (arquivo pessoal)

Sobre as percepções em relação ao passar do tempo para mulheres e homens, existem dois pesos e duas medidas. “Uma mulher de 50 anos é percebida como mais velha que um homem na mesma idade. Tanto na vida pessoal como profissional”, comenta Anne. “Não por menos a taxa de emprego das mulheres entre 50-64 anos na França é inferior à dos homens. Imagino que no Brasil também tenha essa diferença.” O preconceito também acontece entre mulheres.

“Existe um prejulgamento das de 30 anos que tratam por velhas as de 50-60. Mesmo as feministas, que não se dão conta que este tipo de julgamento também é sexista.”

Menopausa não é o fim da linha

Em outro trecho da Marie Claire, a jornalista relata que a menopausa coincide com um sentimento de liberdade, entre outros fatores, porque os filhos, na maioria, já são maiores e estão voando com as próprias asas. Sem falar na possibilidade de novos amores e uma vida sexual mais liberta.

“Os sites de encontro para pessoas ‘mais velhas’ aqui na França estão bombando. Se chamam Passions e Lúmen. É como se fosse um Tinder para pessoas maduras”, garante Anne. A menopausa é apenas uma nova fase. Não precisa ser uma pausa.

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