A língua áspera e as unhas afiadas de Roberta Canossa

Criadora do perfil Robs The Cat explica como o humor a salvou de perdas e a jogou com força como voz feminina nas redes

Criadora do perfil Robs The Cat explica como o humor a salvou de perdas e a jogou com força como voz feminina nas redes

Por definição própria e por força do calendário, Roberta Canossa já nasceu bissexta, uma diferentona por natureza que veio ao mundo em 29 de fevereiro de 1976, um sábado de Carnaval. Desde pequena, queria ser adulta e, ironicamente, agora, faz da molequice um sucesso na internet com seu perfil Robs The Cat. Na página do Instagram, ela – ou melhor, a gata mascarada – contempla os seguidores com frases de humor ácido sobre os perrengues da vida, sempre sob um olhar de justiça e reverência às mulheres. Afinal, Roberta tem muito claro o machismo nosso de cada dia, porque cresceu em uma família machista – postura da mãe, inclusive – e sendo a menina entre dois irmãos homens.

Imagem de perfil da Robs The Cat
Imagem de perfil da Robs The Cat

– O sexo masculino nunca foi misterioso para mim, fazia um laboratório diário com meus manos. E por conhecer a espécie pormenorizadamente acho que, de certa forma, os temia.  Desde sempre repito que, “na próxima encarnação quero vir um hominho”. Saquei cedo que era verdade a tese freudiana da inveja do falo, não no sentido do prazer sexual, mas, no sentido, figurado, do pretenso poder que o falo confere aos seus detentores – avalia.

Desde muito cedo, Roberta deixava extrapolar sua veia contestadora, cética e rebelde. Frequentar uma escola católica, com seus ritos e regras, agravou o quadro de insubordinação. Na adolescência, passou longe da figura principesca, de bonequinha. Usava o cabelo curto, o que volta e meia causava confusão, tampouco desfilava com roupas das marcas descoladas entre a juventude da época.

– Eu me chateava por não dispor deste tipo de moeda corrente dos estudantes dos anos 80/90. Sentia-me inferiorizada. Esse discurso, que hoje me parece tão tolo e pueril diante das grandes injustiças do mundo, à época, atingiu em cheio a minha autoestima, fiquei cinza. Não tinha os recursos emocionais de que disponho hoje. O bullying só não tinha nome naquela época, mas já existia fortemente, sofri e pratiquei na mesma medida. Mas, no fundo, só queria poder pertencer àquele grupo de estudantes da classe média burguesa. Saí de lá sem conseguir.

Mato ou não mato aquela mocreia da Branca de Neve

O humor foi uma espécie de válvula de escape e certa agressividade também. A reinvenção veio já no Colegial, o que se chama hoje de Ensino Médio. Nova escola, novos códigos e nova chance de derrubar máscaras pesadas demais. Ser o que de fato era foi a primeira lição. Nesse período, Roberta também frequentou um curso de teatro, onde praticou a autoconfiança e o carisma.

– Comecei a perceber que podia me reinventar incansavelmente e sobretudo, ser a protagonista da minha vida. Assim atuei uma temporada como a rainha má da Branca de Neve, com camadas de carisma, humor e canastrice, o que fazia com que boa parte das crianças espectadoras torcesse pela bruxa má. Numa cena, alterei o texto. Nessa hora, a minha personagem perguntava à plateia: “Mato ou não mato aquela mocreia da Branca de Neve?” As crianças gritavam em uníssono: “MATA!” – diverte-se.

A bronca do diretor por tamanha ousadia marcou o fim de uma “carreira” no teatro. Aos 16 anos, a luta por independência financeira a fez trabalhar como vendedora em loja de shopping, contato publicitário de um jornal decadente e outra meia dúzia de subempregos, até a hora de prestar vestibular.

– Não tinha muito clara a minha vocação e fiz uma análise bem objetiva das minhas habilidades. Só me sentia apta mesmo a escrever, o que sempre foi muito intuitivo para mim e a brigar! Argumentação nunca me faltou e a adrenalina das discussões aciona em mim, até hoje, uma verborragia mordaz. A escolha, diante desse contexto, me parecia óbvia: Direito! Sem nenhum advogado atuante próximo na família, lá fui eu prestar vestibular, sendo que o Jornalismo também chegou a me seduzir, mas o Direito me parecia mais seguro.

 A faculdade transcorreu com muitos sonhos de mudar o mundo e veio juntamente com o casamento. Roberta se casou no final do primeiro ano da faculdade, aos  25 anos, de véu e grinalda e com direito a festão. A relação durou 11 anos e rendeu dois filhos, mas também foi fonte de frustrações e situações tóxicas. A separação foi o desfecho de uma “infelicidade compartilhada”. A isso, somaram-se julgamentos da própria família, que mais acolheu o ex-marido do que a ela própria, e sentimentos controversos. Não havia dúvidas do fim.

Dubletas nas redes

Roberta já estava mais calejada para enfrentar dores. Anos antes, havia perdido um sobrinho de apenas 5 anos em razão de um coma diabético. Foi um trauma com efeitos dilacerantes ainda no tempo de divórcio. No entanto, ela estava decidida a não ceder às investidas de uma nova infelicidade. Afastou-se de familiares tóxicos, batalhou contra os boletos e tomou-se uma coragem sem precedentes. Fez pós-graduação, ampliou conhecimentos e permitiu-se avançar.

 – Essa nova mulher que renasceu em mim teve que se soltar de todas as amarras, que, a propósito, jamais foram minhas por opção. Já o que estava dentro de mim, sob alguma censura, veio à tona com força total. Fui apagando todos os comandos da minha criação conservadora. Peneirei tudo, até sobrar apenas eu.

Robs The Cat e Fátima Torri

Foi aí que, sem querer, tornou-se referência de uma mulher bem resolvida e divorciada. Muitas a procuravam pedindo assessoria. Não eram simples dúvidas de ordem jurídica, mas, sentimental. Nessa época, ela utilizava o Facebook como espaço para uma espécie de prestação de serviços às demais mulheres, mostrando que era possível, ser feliz, independente, mãe solo, profissional dedicada e DIVORCIADA. E que uma categoria não era excludente da outra.  Roberta guarda textos dessa época e recorda da postura de alguns homens próximos que passaram a tratá-la com segundas intenções.

– Pude ver que o conhecido corporativismo masculino comportava exceções e tive surpresas desagradáveis, ao ser assediada, ostensivamente, por amigos que eu jurava que eram, primordialmente, do meu ex-marido!

O tempo passou. A vontade de conhecer outra pessoa cresceu. Inscreveu-se em um aplicativos de relacionamento, o que apelidou jocosamente de “cardápios humanos”. Susto diante de propostas sexuais escancaradas, nudes ousados. Outros tempos.

– Parecia que eu havia sido descongelada depois e 20 longos anos. Muitos homens acreditam que o pênis é a melhor parte deles (e talvez, às vezes seja).

Nas paqueras virtuais, ela adotou truques, já que não tinha a menor paciência de produzir os meus próprios nudes. Baixava fotos de mulheres nuas da internet,recortava o rosto e colocava filtros do Instagram para conferir maior credibilidade às imagens fakes! Apelidou as imagens de de “dubletas” – as dublês de boceta

– Tenho até hoje tenho guardadas nas minhas imagens do celular e caio na risada quando as vejo. Mas esse mundo de aplicativos me causava certa ansiedade, nunca soube seduzir pela sensualidade, aposto mais na alegria e na pimenta da menina travessa. Por outro lado, sempre tive admiração pela inteligência, e não havia muita oferta nesse sentido por lá… Cada erro ortográfico crasso eu tirava um ponto, muitos carinhas ficaram com o saldo devedor!!!

Depois de um ano separada, conheceu, por meio de amigos em comum, o segundo marido, nove anos mais novo, solteiro e sem filhos, mas que abraçou a vida de Roberta e foi fundamental em momentos difíceis, como a morte do pai de seus filhos em um acidente de trânsito. O.novo companheiro assumiu com esmero o papel amoroso e parceiro dela e dos filhos. A morte do ex-marido ocorreu em 2019 e o ano ainda seria marcado por outra tragédia: a advogada perderia uma cunhada, vítima de infarto fulminante com apenas 43 anos.

Roberta, seu marido e dois filhos no aeroporto de Porto Alegre
Roberta, seu marido e dois filhos no aeroporto de Porto Alegre

– Faço questão de registrar as minhas tragédias pessoais, pois tenho convicção de que todas elas foram definitivas para a formação do meu caráter. Sou feliz mesmo, nem que seja só pra contrariar as probabilidades.

Puxão de orelha de Nelson Motta

Apesar de ter um ótimo retorno nas redes sociais, Roberta nunca levou muito a sério a hipótese de se tornar uma digital influencer ou, como ela brinca, genital influencer. Mesmo assim, precaveu-se. Separou o joio do trigo e resolveu desativar o perfil no Face, o de havia muitos contatos profissionais. Neste anos, migrou para o instagram como @robscanossa, perfil com aproximadamente 300 seguidores e uma espécie de templo seguro onde fazia “culto para convertidos”, com risco zero de cancelamentos. Mas eis que ninguém menos do que Nelson Motta, que faz parte do seleto grupo de pessoas que a seguem, sugeriu que ela abrisse perfil e compartilhasse seu talento.

– Quando Nelson Motta fala, é prudente ouvir! Foi aí que surgiu a @robs_the_cat. O “Canossa” saiu de cena e no lugar da minha foto, entrou a figura de uma simpática e desbocada gatinha.

A felina começou a assinar os posts, uma forma de autora humana preservar sua liberdade de expressão de ataques. Funcionou em parte, porque a fúria das redes sempre mostra a cara e Roberta enfrentou algumas investidas. Foi mais um motivo para apostar na preservação, sem perder a ternura.

O  investimento pessoal no perfil da gatinha de língua afiada, coincidiu com um certo desapontamento pela carreira de jurista. Depois de 23 anos atuando, com bons resultados no Direito, a crença na Justiça foi empalidecendo. Aí da assim, em plena pandemia, a advogada levou seus conhecimentos em Direito para as redes. Criou o perfil @pilulaslegais para democratizar informações jurídicas.

Com a @robsthecat, a pegada é dar voz ao feminino, sem sectarismo e lamúrias, ampliando o humor, consciência dos direitos e a sororidade não tóxica. Roberta está com as unhas afiadas.

Robs The Cat e Fátima Torri
Robs The Cat e Fátima Torri

Não romantizo as dificuldades, mas não me paraliso diante de nenhuma delas, pois na vida, sempre que bati no fundo do poço, fui em busca da luz. Mesmo tendo incontáveis justificativas para de lá debaixo nunca mais sair.

Compartilhe este Post

Deixe um comentário

você também pode gostar

O feminismo chegou ao puteiro

“Comecei a pensar o feminismo e a prostituição a partir de um olhar feminista” As qualificações de Monique Prada, trabalhadora sexual, escritora e ativista, não podem ser descritas em um

Leia mais »