Como proteger os meus, os seus, os nossos filhos do abuso dos adultos

Livro de Andrea Viviana Taubman traz à tona o tema do abuso infantil e mostra como a ludicidade e a literatura podem ser grandes aliadas no combate à violência

“Não aceite nada de estranhos, filho”. Mas será mesmo que o perigo mora ao lado? Em mais de 70% dos casos de abuso infantil, os agressores são pessoas de confiança da vítima, conforme revelado pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2021. Ou seja, a violência pode estar dentro do próprio lar. Embora a infância seja uma prioridade absoluta no Brasil assegurada no artigo 227 da Constituição Federal, todo adulto deve ser responsável pela proteção de crianças e adolescentes. E aqui, a ludicidade e a literatura podem ser grandes aliadas. Com informação e sensibilidade na abordagem, a escritora, tradutora, locutora e contadora de histórias Andréa Taubman aborda o tema do abuso infantil no livro lítero-informativo “Não me toca, seu boboca!”.

— Quando me perguntam o que me levou a ser escritora, respondo:  eu escrevo os livros que gostaria de ter lido quando criança! — destaca.

Andrea nasceu em 9 de abril de 1965, em Buenos Aires, na Argentina, no seio de uma família leitora – uma das primas da sua mãe é Alicia Steimberg, romancista argentina – e, por isso, desde os três anos de idade insistiu com a mãe para que a alfabetizasse e assim pudesse ler sem intermediários. Ainda criança, mudou-se com a família para o Brasil, onde viveu entre São Paulo e Rio de Janeiro. Mãe de Gabriel e Thiago, Andrea reside atualmente em Teresópolis (RJ). Foi no município serrano que a escritora conheceu uma instituição de acolhimento de crianças e adolescentes vítimas de maus-tratos em risco social. A primeira visita ao local, que ocorreu há cerca de duas décadas, foi um divisor de águas na sua vida e a despertou para a necessidade de falar sobre o tema. Em 2008, a autora escreveu o seu primeiro livro, “O menino que tinha medo de errar”, e em 2010 iniciou o esboço de “Não me toca, seu boboca!” (ilustrações de Thais Linhares, publicado pela Aletria). A obra, que levou sete anos para ser desenvolvida, recebeu o Prêmio Neide Castanha de Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes, uma iniciativa do Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes.
Atual mestranda em Linguística na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Andrea conta que sua indignação diante de injustiças e violências é algo que acompanha desde a infância e que se tornou ainda mais latente quando iniciou o voluntariado na instituição de acolhimento em Teresópolis. O encontro com as crianças e adolescentes vítimas de violência sexual a angustiava profundamente e, numa tentativa de evitar com que casos como os que conheceu se repetissem, surgiu a ideia de escrever “Não me toca, seu boboca!”.

— O olhar opaco daquelas criaturas, o semblante desesperançado que via me feria a alma. E eu queria fazer algo para evitar esse flagelo, mas não tinha ideia do quê e nem como — recorda Andrea, contando que foi movida pela indignação e pelo desejo de fazer algo para combater essa covardia, associado às suas vivências de mãe e voluntária na casa de acolhimento. — Foi em função dessas necessidades, diria até que foi da necessidade da minha alma.

Quando escreveu as primeiras palavras, a autora não acreditava não ter embasamento técnico para desenvolver uma obra que fosse, ao mesmo tempo, literária e informativa. Por isso, se dedicou ao longo de sete anos ao processo de pesquisas e reescrita, até o lançamento da primeira edição da obra, em outubro de 2017. 

— O voluntariado nos transforma e costumo dizer que a minha literatura nasceu ali. Eu sabia que essa história tinha de ser contada em primeira pessoa, de alma para alma, eu pressentia que era o que daria aderência a essa narrativa, criando um vínculo com o leitor.

Realidade presente e cruel

Segundo dados da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), houve um aumento significativo no número de casos de abusos e maus-tratos a crianças e adolescentes durante o período de isolamento por conta da pandemia de covid-19. Detectar esses crimes muitas vezes é difícil por não haver provas físicas, ou pelo fato de a criança não saber expressar o que ocorreu. Ou, ainda, de não receber a devida atenção às indicações de ter sofrido o abuso. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que o número de violência sexual com vítimas de até 13 anos saltou de 70% para 77%, de 2019 para 2020.
Para Andrea, a pandemia trouxe a sensação de aumento da subnotificação de casos, em decorrência do fechamento das escolas, que, de um modo geral, são ambientes onde se percebe com mais facilidade se a criança está sendo vítima de violência. A maioria dos casos acontece de forma bem diferente do que supõe o senso comum sobre agressores sexuais – alguém estranho, escondido em um beco escuro esperando uma criança desavisada passar para atacá-la. Não que isso não aconteça, acontece também, estima-se que correspondam a 10% do total dos casos que chegam às autoridades. A maioria dos autores de violência sexual contra crianças e adolescentes, porém, é composta por pessoas muito próximos das vítimas. São familiares ou pessoas de convívio regular e que mantêm relações de afeto com elas.

— Essas condições, somadas ao fato de que o crime costuma ocorrer sem testemunhas e que, a depender da fase de desenvolvimento da vítima, ela não tem referenciais comparativos para diferenciar carinho de toque abusivo, formam um conjunto de fatores que favorecem a subnotificação — aponta Andrea. 

Atualmente, dados da Sociedade Brasileira de Psicologia revelam que, a cada hora, três crianças são vítimas de abuso no Brasil. E o mais revoltante, segundo o levantamento, é que 95% dos casos desse tipo de violência são praticados por pessoas conhecidas das crianças, sendo que em 65% dos casos há a participação de pessoas do próprio grupo familiar.
Para Andrea, seguindo uma perspectiva de “mundo ideal”, o papel da escola e dos pais deveria ser instrumentalizar as crianças com informações em linguagem adequada a cada fase do desenvolvimento emocional e cognitivo, abordando nos momentos em família questões sobre consentimento, sexualidade e prevenção de violências – não apenas de violência sexual, mas de qualquer tipo de violência. 

— Educar para o respeito é urgente e não vejo como combater as violências sem passar por esse percurso.

Live

Dentro das ações do Maio Laranja, que alerta para o Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, Andrea participa, na segunda-feira (23), de uma live com a jornalista Fatima Torri no Instagram da revista Fala Feminina. O encontro começa às 19 horas. Andrea falará sobre as formas de abordar o tema abuso infantil dentro de casa e como a literatura pode ajudar no combate à qualquer forma de violência contra crianças e adolescentes.

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