Maternidade em 2020 virou sinônimo de solidão

Maternidade em 2020 virou sinônimo de solidão. Leia o relato da Márcia, que se tornou mãe durante a pandemia de Covid-19.

Marido segurando a mão da esposa no momento de dar à luz, rostos iluminados na primeira foto do casal com o novo integrante da família, apresentação do pacotinho com bochechas fofas e rosadas aos familiares em polvorosa atrás do vidro que separa o berçário da sala de espera. Visitas no quarto, amigos que fogem dos compromissos para ver a mãe e o bebê. Vovó explodindo de alegria passando uns dias na casa do neto. É assim que, em geral, imaginamos o momento da chegada do tão esperado filho. Mas não foi essa a experiência da Márcia Christofoli, nem de milhares de outras mães pelo mundo que tiveram seus bebês na pandemia.

Márcia sempre quis ser mãe. Apesar disso e do marido também desejar intensamente a chegada do primogênito, em função do momento profissional intenso, ela achava melhor esperar um pouco mais. “Ter um filho não me assustava, eu apenas não queria naquele momento. Então, foi uma surpresa e tanto”. Aos 35 anos, ela, que é jornalista e publisher do portal Coletiva.net, descobriu a gravidez. 

Entrei em quarentena com 31 semanas, ou seja, todo meu último trimestre foi em isolamento. Chegar na emergência obstétrica e ter que ir pra atendimento sozinha até a confirmação do nascimento do Pedro também não foi fácil

“Sair do hospital três dias depois, com meu primeiro filho no colo e ter que apresentar aos avós pela janela do carro foi de cortar o coração. Passar os primeiros e mais intensos dias com ajuda mínima, foi cruel.”

A experiência do puerpério também foi, no mínimo, surpreendente, assim como a amamentação. “A perda do controle, a privação do sono, medos e dúvidas, tudo isso misturado a uma enxurrada de hormônios foi algo assustador. Nada do que eu lesse ou que me contassem seria suficiente para entender a intensidade daquilo. Pedro teve cólica desde os seus quatro dias de vida e eu nunca imaginei sentir o coração apertar tanto, além de ir da euforia à crise de choro em questão de minutos. E viver tudo isso em meio a uma pandemia foi ainda mais complexo”. Hoje, seu filho tem cinco meses e a batalha foi vencida. “As coisas não estão mais fáceis, mas com certeza mais leves”.

Sobre contar com rede de apoio, a jornalista diz sempre ter ouvido falar, mas só ter dimensão sobre a importância quando Pedro chegou. “Hoje, com uma rede mínima, tive que fazer algumas escolhas. Ah, e o meio virtual nunca foi tão presente e tão fundamental para tornar minha maternidade mais leve”, garante.

A mãe da mãe

Há quem diga que é ao entendermos a maternidade que passamos a dar ainda mais valor para nossas mães. “Minha mãe sempre quis muitos filhos, mas problemas de saúde a impediram. Por isso, acolhia sobrinhos e amigos nossos – ou seja, casa sempre cheia”, diz Márcia. Apesar de alguns problemas de saúde, foi uma criança ativa e que “deu alguns sustos”: “tive muitas crises de asmas que me levavam ao hospital para nebulizar. Tive epilepsia diagnosticada muitos cedo e minhas convulsões eram chamadas de ‘crises de ausência’ (me deixavam fora do ar por alguns minutos). Tive Crupe, um tipo de infecção respiratória que me deixou hospitalizada por alguns dias, além de ter tratado por longos anos o famoso TDH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade). Sem contar os inúmeros acidentes que resultaram em ossos quebrados, ferimentos que precisavam de pontos e assim por diante. Ou seja, uma infância nada tranquila, mas intensamente vivida”.

Com o turbilhão de emoções em meio a um acontecimento inesperado, como a pandemia, Márcia resolveu registrar um pouco dos sentimentos em cartas para a mãe e o filho. Veja a seguir, na íntegra:

Filho

Filho,

Há pouco mais de um ano, eu te descobri. Sozinha, no banheiro da nossa casa, aquele positivo me rendeu longas horas de pânico. Eu não te planejei, não te desejei, mas te aceitei desde o primeiro segundo que soube de ti. Aquela mulher decidida, dona de si, cheia de planos, até aquele momento, só sabia ser filha. 

Deixa eu te contar algumas coisas sobre essa condição, a de ser filha. Desde que me entendo por gente, fui cercada de amor. Caçula e única mulher, cresci sendo a menina dos olhos do teu avô. Ele foi sempre o meu suporte, a minha referência, naquela típica linha de pai-herói. Tua avó, por outro lado, me deu a certeza de sempre estar lá pra mim, e era pra onde eu gostava de voltar a cada passo dado. Fosse para ser cuidada, consolada ou mesmo para comemorar conquistas. Aliás, se tem algo que posso dizer da tua vó, é que ela sabe como ninguém celebrar a vida, a família e os amigos. 

Pedro, eu tive tudo. E essa frase não tem a ver com bens materiais. Refiro-me a tudo que uma filha precisa. Tive carinho, atenção, doação, liberdade, castigos (muitos castigos!), ensinamentos, confiança e uma dose cavalar de paciência (deles, claro!). Dei trabalho, não posso negar. Doenças, acidentes, brigas, personalidade extremamente forte desde muito cedo. Tudo isso deixava  a hiperatividade, que precisou de longo tratamento, ser fichinha. Hospital, exames, cirurgias, consultas e mais consultas. Haja coração! Mas eu cresci e me tornei uma mulher que sempre soube onde quer chegar, mas soube mais ainda de onde veio.

Nunca romanciei a maternidade, mas, filho, não imaginei que pudesse ser tão difícil. Quando estavas ainda dentro de mim, as dúvidas eram tantas, a ansiedade de saber como seria e todas aquelas dificuldades que qualquer gestante conhece, lá no fundo, me amedrontavam. É engraçado como nós, mulheres, nos preparamos durante nove meses para o parto, mas só para ele.

Chegar em casa contigo no colo e não saber por onde começar foi aterrorizante. Teus primeiros dias, então, desesperadores. O sistema bugou, a chave geral caiu. Não bastassem as batalhas iniciais como privação do sono, cólicas, amamentação, recuperação de parto, eu tinha medo. Eu só conseguia sentir medo. Onde estava aquele amor fulminante, que nasceria no instante em que tu saíste de mim? Como que esse sentimento não era maior que tudo?

As pessoas diziam: “Aproveita, pois o tempo voa”. Nossa, filho, como o tempo se arrastava (e ainda se arrasta), parece que vivi 10 anos em míseros 30, 60 dias! Tu tinhas apenas dois meses e meio quando voltei a trabalhar. Afinal, licença maternidade para quem empreende é uma bela fake news. Mais do que isso, eu queria me sentir viva de novo. Afinal, para nascer uma mãe, é preciso que morra uma mulher. Aquela que citei lá no começo dessa carta não existiria mais. E isso dói – mas essa dor ninguém nos conta.

Morreu um pouco da mulher que sempre quis ser a melhor profissional possível, que lutou contra a balança e o espelho a vida toda, que não gostava de rotina, que vivia rodeada de muitos amigos, que falava alto, gargalhava alto, sonhava alto. Morreu uma mulher que queria o mundo. E queria pra ontem. Nasceu uma mãe. Uma mãe que percebe a cada dia o quanto é amada pela sua cria e que se surpreende com o poder do seu corpo ao nutrir outro ser.

Uma nova vida. A nossa vida. A vida contigo. Aquele amor fulminante? Ele existe, sim, mas é construído todos os dias. Teu sorriso banguela me faz esquecer das noites mal dormidas, da dor em te ouvir chorar, do medo e das incertezas a cada fase nova. Te ter como filho é lindo, é incrível, é inexplicável. É tudo isso, sim. Mas fácil não é. E tudo bem. No momento, só quero ser “a melhor mãe que o Pedro pode ter”, pois tenho certeza que sou uma filha melhor, um ser humano melhor.

Um dia nascerá outra mulher. Mais decidida, com menos medos, com outros planos – e dessa vez, te incluindo em todos eles. Junto com ela, virá outra esposa, mais paciente talvez; outra amiga, mais empática; outra profissional, menos ansiosa; outra mulher, mais mãe. Enquanto ela não nasce, nós dois vamos aprendendo juntos que a dor da maternidade é diretamente proporcional ao aprendizado diário de que tudo se ajeita. Do nosso jeito.

Ser filha é muito mais fácil

“Quando tiveres teus filhos, tu vais me entender”. Quantas vezes me disseste isso, mãe? E quantas vezes eu revirei os olhos pra essa afirmação? Desde que, sozinha no banheiro da minha casa, eu vi aquele positivo no teste de gravidez, um turbilhão de emoções, sentimentos, hormônios e dúvidas fazem parte do meu dia a dia. Tu não foste a primeira a saber, apesar de ser sempre o colo que preciso para ser cuidada, consolada e acolhida. Esse momento tinha que ser especial. E foi. De presente de aniversário, tu ganhaste a minha primeira ecografia. A partir daquele dia, não lembro de um dia sequer sem nos falarmos. 

Ah, mãe, como é fácil ser filha! Tive tudo. E isso nada tem a ver com bens materiais, pois, se tem algo que soubeste me ensinar, foi dar valor a tudo que precisamos: amigos, família e fé. Um dia percebi que pai e mãe têm papéis tão diferentes. Com o meu pai, tenho a típica relação de pai-herói, mas contigo é igualmente único. A gente brigou muito, eu dei trabalho, admito, mas rimos muito mais juntas. Minha mãe não é minha melhor amiga, ela é minha mãe. Simples assim.

E há cinco meses, eu me tornei mãe e tu és avó. Terceiro neto, mas o primeiro da tua única filha mulher. Ter um filho no meio da pandemia não foi fácil, sabemos. Chegar no hospital e saber que tu não estarias na sala de espera fez meus medos, dúvidas e emoções aumentarem significativamente. O jeito foi ficar perto do celular. Da sala de pré parto, já embaixo do chuveiro, pude alcançar o aparelho e te mandar a última mensagem (e até uma foto que é só nossa!). Tinha que ser contigo o meu último contato.

Hoje, como mãe, eu não deixo de ser filha nenhum dia. Seja confiando o meu bem mais precioso aos teus cuidados, seja trocando mensagens para contar como foi a noite, a consulta da pediatra ou qualquer novidade, seja pedindo que entres na sala de vacina com o Pedro porque ainda não tenho curado aquele velho medo de agulhas.

Tu querias muitos filhos, mas tiveste que parar na segunda gestação. A propósito, mãe, parabéns por encarar tudo aquilo novamente com tão pouco tempo entre um e outro! E eu, que falava sobre isso como algo engraçado, hoje, acho assustador. Não podendo ter outros herdeiros, acolheste teus sobrinhos, afilhados, filhos dos amigos e amigos dos filhos. Não senti falta de ter família grande, afinal, a nossa casa estava sempre cheia.

Eu cresci vendo uma mulher trabalhar, estudar, cuidar dos filhos, da casa, dos pais doentes, tudo ao mesmo tempo. E vi uma mulher fazer tudo isso sem deixar de visitar a família, receber os amigos, acompanhar as atividades dos filhos e nunca, nem por um segundo, descuidar de si mesma. Sei que a sociedade nos impõe alguns estereótipos, e mais do que nunca o da mulher maravilha está em alta. Mas sabe de uma coisa? Eu fui criada por uma mulher maravilha, que deu conta de tudo, mas do teu jeito. Nunca choraste escondida, o fazia na nossa frente. Cansada, pedia ajuda. Com medo, buscava alternativas, às vezes até fugia, sim.

Fui a segunda filha e ainda mulher. Tinha tudo para ser uma menina meiga, uma princesa, afinal. Doce ilusão. Veio um furacão na tua vida, de saúde inicialmente frágil, exigindo exames, consultas, cirurgias, suturas e etc. Além disso, veio alguém de personalidade forte, que não raro dava alguma dor de cabeça. Mãe, se o Pedro me der 10% do trabalho que eu te dei, eu já estou em pânico desde agora. 

Claro que dei alegrias e muitos orgulhos, sei bem disso, pois sempre fizeste questão de comemorar as coisas boas da nossa vida, me dando certeza de quantas felicidades vivemos juntas. Aliás, muitas novas nos aguardam. A melhor delas é viver a minha maternidade, o meu maternar bem perto de ti. Não, eu não vou te ouvir sempre, mas sempre saberei que queres o melhor para mim. Não, eu não vou parar de brigar contigo, mas hoje talvez eu me coloque no teu lugar de uma forma mais genuína. Não, eu não entendo tudo só porque virei mãe, mas posso sentir e viver esse amor que só tu soube me dar.

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