Comportamento

Como é ser mulher em 2021? Depende.

Ser mulher hoje é como sempre foi, só que diferente. É lidar com os perrengues da menstruação, da menopausa, da maternidade, da velhice. Ao mesmo tempo, com mais possibilidades. Ser mulher agora é plural. Uma mesma mulher pode ser empresária, mãe, esposa, boa de cama, baladeira. Ou ser solteira, celibatária, cidadã do mundo. Não é mais necessariamente um simples estereótipo, dentro dos padrões de beleza, predestinada a casar e procriar. Hoje, as mulheres podem escolher serem recatadas e do lar, executivas e workaholics, não gostarem de homem, muito menos ter filhos, e transar com quem quiser.  

O que não mudou? O julgamento e a hegemonia masculina. As mulheres ainda são julgadas como se fosse errado ser quem realmente são e não querer o que o mundo espera delas. A diferença é que agora se pode falar abertamente sobre isso e lutar pelas mudanças, com todo direito (mas ainda dedos apontados). Por sinal, há sinais de mudança inclusive na legislação para tirar as mulheres da posição de opressão e violência, como a lei Maria da Penha. Ao mesmo tempo, ainda tem juízes que deliberam estupro culposo (WTF?). Então, se a pergunta for “como é ser mulher hoje“, a resposta não será igual. Vai depender da família, da cultura, das vivências, da história, das escolhas. Há muita diversidade entre as mulheres. 

Aqui, na Fala Feminina, há espaço para todas falarem à vontade de tudo isso e o que mais vier na telha. Com vocês algumas mulheres que toparam nos contar sobre suas experiências.

Fernanda Pandolfi

“Ser mulher é, todos os dias, estar em diferentes palcos encarando os mais diversos personagens da vida real. É trabalhar com alta performance e enfrentar o mundo em seus pré-conceitos para, dia após dia, tornar a estrada mais segura e leve.”

Fernanda Pandolfi, 33 anos, jornalista, influenciadora digital e professora da ESPM.

@fepandolfi


Raquel Dvoranovski e Rosa

“O que é ser mulher hoje? Complexo como a vida. Podemos fazer algumas escolhas, mas nem sempre o meio está preparado para elas. Temos mais liberdades, mas ainda temos cobranças muito arraigadas na cultura do passado, o que pode trazer contradição e confusão psicológica. Em relação à educação da minha filha, frisamos  que ela pode ser quem quiser e fazer o que tiver vontade, desde que respeite os outros. Ainda buscamos que ela viva coisas simples para conhecer a verdadeira felicidade.

Raquel Dvoranovski, 37 anos, mãe da Rosa, arquiteta, técnica em meio ambiente, design e sustentabilidade, experimentando uma nova carreira com a criação de roupas especialmente com tecido de reuso.

@quel_flor


Gabriela Silva

“Ser mulher é ser furacão e calmaria ao mesmo tempo. Somos todas divindades, maravilhosas em nossas complexidades. Somos todas diferentes umas das outras e ao mesmo tempo temos a capacidade de nos olhar nos olhos e entender absolutamente o que a outra está passando. 

Nossas mães e avós tiveram dificuldades diferentes das nossas, e passaram por isso abrindo caminho pra que hoje a gente tenha mais liberdade, possa falar mais, conquistar mais espaços. Ainda assim, os desafios que elas tinham permanecem somados aos desafios da mulher atual. Por exemplo, ainda se cobra muito que a mulher seja responsável pelo lar, ao mesmo tempo em que ela precisa buscar espaço no ambiente de trabalho. A mulher de hoje tem várias jornadas que precisa administrar. Vejo mulheres sobrecarregadas por essas pressões sociais. Ser mulher também é um desafio constante pra justamente conseguir espaços e poder falar, porque por muito tempo a gente foi silenciada. Por isso, quando a mulher fala mais alto, quando cobra alguma coisa, é taxada de louca, histérica, descontrolada. A partir do momento em que a mulher diz ‘isso eu não quero’, começam a vir muitos rótulos. Quando tu foge do script, ainda vem muitos dedos apontando, muitos julgamentos. 

É um desafio constante buscar seu lugar, lutar pelo que acredita, realizar seus sonhos, suas vontades. A mulher se dedicou a buscar autoconhecimento, entender o que a faz feliz. Como mulher solteira, vejo que os homens não acompanharam o mesmo movimento. Um exemplo prático: os caras expressam a vontade de casar sem eu ter tocado no assunto, usando como argumento ‘se eu falar isso, ela vai cair na minha’, e às vezes eu só quero tomar uma cerveja. O script dos caras não mudou e a gente tá mudando o nosso de uma maneira que eles não estão conseguindo acompanhar, de um modo geral.”

Gabriela Silva, 33 anos, jornalista, taurina, “dona de seus boletos, com sorriso aberto e de alma livre”.

@gaaby_sillva


Claudia Tajes

“[Ser mulher] é não entregar os pontos nunca. Porque, se não fosse assim, a gente nem estaria aqui – com voz e uma força que vem das entranhas para sobreviver a tudo isso.”

Claudia Tajes, 48 anos, escritora, trabalha em criação publicitária e escreve na Zero Hora e na Folha de São Paulo

@claudiatajes


Léa Masina

“Nunca me arrependi de ter nascido mulher. E hoje tenho consciência de ter sido sempre uma mulher forte. Talvez porque tive modelos femininos diversos e opostos: minha mãe, paulista, era urbana e progressista e batia de frente com os hábitos conservadores de Porto Alegre dos anos 40. Dela e de meu pai herdei o gosto pelo estudo, pelo trabalho e pela música; da minha avó paterna, que vivera as guerras da campanha, recebi a solidez e o pertencimento, coisas de raiz.

A mulher que sou hoje – e gosto de como sou – formou-se em contato com homens e mulheres e suas difíceis vidas. Meu pai, discreto e intelectual. Minha mãe, vibrante e temperamental. Casei cedo, há cinquenta e quatro anos, com o homem que amei a vida toda. Cresci com ele, somos parceiros e amigos. Juntos trabalhamos e formamos nossa família, agora mais completa, com nora e netos.

Fui sempre guerreira e nunca me senti vítima por ser mulher. E quando busco episódios do passado, não encontro em mim sinais de vulnerabilidade. Nem agora, sendo mulher e velha. A literatura é poderosa e ensina muito. Ainda que tenha crescido rodeada por tabus e preconceitos com relação a sexo, raças e credos, hoje consigo entender que isso faz parte do meu passado. E que, com perdas e ganhos, erros e acertos, construí o meu caminho.

A mulher que sou hoje faz o que gosta, lê e escreve muito, dá aulas, toca piano, curte a família; vive o melhor que pode porque o tempo passa. Ela gosta de gente, de conhecer pessoas, de aprender, ensinar e cuidar delas, mesmo que seja pela escrita e pelas leituras. Toma whiskey, adora gatos, curte festas , ama os amigos e consegue trabalhar com imenso prazer.”

Léa Masina, 73 anos, Doutora em Literatura, Professora aposentada da UFRGS, crítica literária e ensaísta.

@lea.masina


Maíra Gatto

Ser mulher hoje é um constante descobrir e redescobrir qual papel queremos na sociedade. Acho que brigamos pelo direito de sermos fortes e combativas e, por outro lado, queremos garantir nosso direito de sermos vulneráveis quando preciso. Falo isso, porque por muito tempo achei que ser ‘Mulher Maravilha’ era o certo e, hoje, percebo o fardo que as mulheres carregam para serem maravilhosas em tudo. Aí vem a vontade de podermos ser fortes e vulneráveis, todas essas facetas em uma única mulher. 

Acho que hoje vivemos em um cenário de mais liberdade e menos opressão. Por outro lado, somos mais pressionadas em todos os campos. Temos que estar em forma, não envelhecer, seguir estudando, ter um casamento perfeito, ser uma boa profissional, uma mãe dedicada etc. A sorte é que hoje, mais do nunca, ecoam vozes que questionam todos esses padrões e, pouco a pouco, estamos aprendendo a diferenciar o que queremos e o que nos foi imposto. 

Sobre a criação da minha filha, eu e o pai dela buscamos passar para ela um mundo sem tanta padronização de comportamento e posicionando ela como um sujeito que tem voz e vez na sociedade. Certa vez, quando tinha 2 para 3 aninhos, bateu em um colega menino na creche e quando questionamos ela nos respondeu: ‘Ué vocês falaram que as meninas eram mais fortes que os meninos’. Na época repreendemos e depois, sozinhos, demos risada. Então é essa busca por um equilíbrio onde ela entenda sua força, seu poder e, ainda assim, seja capaz de respeitar ao próximo e apoiar na construção colaborativa da sociedade que queremos.

Maíra Gatto, 34 anos, mãe da Malu, jornalista, assessora de imprensa e influenciadora digital.

@maira_gatto


Débora Tessler

Pra mim ser mulher é ser natureza em seu sentido mais amplo: múltipla, em movimento, ser constante na sua inconstância. Ser algo que às vezes é impossível definir de forma concreta. É ter voz, regras – as suas regras. É saber que em algum lugar profundo está a bússola que nos direciona para a melhor trilha – ou para aquela mais adequada pra gente no momento presente. É ser instinto, razão e emoção. É saber fluir na própria estação, sangrar, multiplicar, servir, florescer e morrer. Renascer! É fazer mergulhos profundos, descobrir novos mares, ventos e como se fosse um passe de mágica se permitir mudar os rumos, alterar a rota ou até mesmo ficar perdida por um tempo. Afinal, é preciso se perder para se encontrar. Ser mulher é viver se sabendo e se descobrindo, sem mapa e tampouco manual. É respeitar-se e confiar em si para assim seguir livre.”

Débora Barth Tessler, 39 anos, publicitária, trabalha com comunicação estratégica.

@deboratessler


O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é WH7A5872-683x1024.jpg
Silvana Regina Inácio

“Ser mulher é lidar o tempo todo com linhas tênues. É a tentativa diária de se equilibrar entre a independência e a intimidação. É ter múltiplos papéis: mãe, esposa, profissional, amiga, cuidar de todos e por muitas vezes esquecer de si. 

Para mim como mulher negra, chefe de família e mãe de três filhos, é ir à luta todos os dias em busca do meu lugar ao sol. É enfrentar olhares inquisidores sobre a minha presença (cor da pele) e levantar a cabeça e ocupar espaços sempre que possível por mim, pelos filhos e por todos os outros que virão.

Ser mulher é quase nunca saber se a abordagem de um homem tem algum interesse além daquele que ele diz ter. É ter sua competência medida na relação (des)proporcional de sua aparência física.

É acelerar o passo numa rua escura e pouco movimentada, mas, ainda assim, ter vontade de explorar a noite, as ruas, as curvas. É ter de ouvir os homens dizendo como você deve se sentir, vestir e agir. Mas é, ao mesmo tempo, dizer não a isso e saber que só eu sei o que se passa dentro de mim. Que na minha vida, quem dita as regras sou eu.

É se fazer ouvir, mesmo quando querem calar. É lutar, diariamente, pela liberdade de ser feliz. Usar a razão e o coração como guia para não desistir, nunca, do direito à igualdade e equidade.”

Silvana Regina Inácio, pãe, jornalista, empreendedora, especialista em relações étnico raciais  e apresentadora do Santa Melania Podcast

@silvanainaciobr


Pati Pontaldi

Ser mulher hoje é reaprender. Mulheres da minha geração e das anteriores cresceram sob limites rígidos, enclausuradas por cobranças, por exigências, por regras sobre tudo o que fazíamos, deixávamos de fazer, deveríamos fazer. Padrões irreais de beleza, de sucesso, de ser mulher – e padrões também do que não era ser uma mulher direita, do bem. Tudo isso atormentou nossa infância, nossa juventude, nosso crescimento, mas foi gradativamente sendo questionado, sendo quebrado, sendo vencido. Somos uma geração que foi dizendo não aos nãos, que foi rompendo padrões, que foi se descobrindo, que foi reforçando sua autoestima, que foi reaprendendo. Ser uma mulher 40+ é reaprender a se amar, a se valorizar, a exigir seu lugar merecido, a compreender seus limites, seu cansaço, a entender e viver bem com suas escolhas e sua maturidade – e a refletir tudo isso também no olhar para outras mulheres. Estamos reaprendendo que não somos guerreiras – e nem queremos. Somos, sim, maravilhosas cada uma do nosso jeito, com nossos prantos, nossas dores, nossas quedas, nossos caminhos. Estamos reaprendendo todo dia que não há fórmulas para ser mulher, há descobertas e muito prazer em fazermos o que realmente nos fazer feliz, livres, independentes, autônomas.”

Pati Pontalti, 46 anos, é jornalista de moda, mãe da Clara, quarentona, conteudista, transgressora, rebeldona, corredora, feminista

@patipontalti


Kety Nunes

Uma pergunta que só tenho autonomia para responder em virtude de um contexto histórico enorme de luta, resistência e coragem de muitas mulheres que vieram antes de mim. Ser mulher nos dias de hoje é um reflexo da batalha das mulheres de ontem. É ter consciência de que a oportunidade de votar, estudar, trabalhar, andar na rua e escolher o meu próprio destino, deve-se a um coletivo feminino antecessor. Ser mulher nos dias de hoje é ser livre para sermos o que quisermos em uma sociedade onde diariamente somos julgadas, inferiorizadas, agredidas, estupradas e mortas. Onde, lamentavelmente, desde que nascemos, somos diariamente expostas a rótulos negativos pela nossa etnia, fisionomia, forma que nos vestimos, falamos, orientação sexual que seguimos, carreira que praticamos e pelo simples fato de sermos quem somos: mulheres. 

Ser mulher nos dias de hoje é saber que nenhuma de nós é igual, cada uma carrega consigo sua noção de liberdade, resistência, proteção, força, coragem, família, representatividade e sensibilidade. Ser mulher nos dias de hoje é ter a noção de que são as nossas diferenças que nos tornam únicas e capazes de conquistarmos qualquer profissão e espaço social a partir da nossa identidade, competência e extrema capacidade de ir além. Dessa forma, acredito que do mesmo jeito que as mulheres de ontem lutaram pelas mulheres de hoje, as mulheres de hoje necessitam lutar pelas de amanhã. Queremos ser ouvidas, respeitadas e termos o nosso conhecimento e experiência validados igualmente por sermos nós mesmas.”

Kethylyn Nunes, 21 anos, estudante de Medicina

@ketynunes


Carolina Fortes

“A pergunta é bem complexa de ser respondida, porque depende muito da vivência individual de cada mulher. Por exemplo, eu, como uma mulher cisgênero, branca e pansexual tenho as minhas demandas dentro do que é ser uma mulher nessa sociedade que são diferentes das demandas de outras mulher. Como mulheres trans, mulheres negras. E quando a gente se faz essa pergunta, precisa entender qual o espaço que a gente ocupa na sociedade. Ser mulher hoje é algo plural e que depende muito das vivências de cada pessoa.”

Carolina Fortes, 26 anos, jornalista, vegana, não monogâmica e pansexual 

@synlola


Malu Maia

Ser mulher hoje é ter liberdade de escolha, ter direito a voz, é poder ser ela em qualquer lugar. É ser resistência, ser coragem e ser força.”

Malu Maia, 34 anos, mãe, esposa e profissional da educação. Adoro uma infância bem vivida e um bom prato de macarrão.

@malumoromaia


Karina França

Ser mulher hoje, sobretudo a mulher racializada, é contrariar as estatísticas. Estamos em meio a uma pandemia de escala planetária e o nosso país vive uma enorme crise política, social e econômica. O que fazer? O que fazer quando nos deparamos com nossos direitos, que foram adquiridos com tanta batalha e luta serem subtraídos? É persistir na luta, esperançar. Me lembro das mulheres que vieram antes de mim, que lutaram tanto. Me lembro da minha mãe, da minha avó. Me lembro da minha filha, que vai continuar, assim como eu, firme na luta.”

Karina França, 44 anos, mãe da Luíza, Doutoranda em Ciências Humanas e Sociais na Universidade Federal do ABC (UFABC), integrante do grupo de pesquisa RESISTÊNCIAS: Controle social, memória e interseccionalidades (UFABC), Mestra em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Sigo persistente na luta! Na luta de todas nós Mulheres!!!”

@karinadefrancasilvavalle

Leia também

Mais lidos