Comportamento

Con las alas del alma

Susana Rita Terra Fernández, 70 anos, é uruguaia, nascida em Montevideo, mas mora há 45 anos em Porto Alegre, desde 7 de setembro de 1975. O motivo da mudança foi acompanhar o ex-marido, também uruguaio, que tinha uma oportunidade de emprego aqui, e fugir de uma ditadura militar no Uruguai que poderia colocar sua liberdade em risco. Chegou sem falar  português e sem profissão. Era estudante de Direito na UDELAR em Montevideo.

Não conhecia ninguém aqui e não tinha nada para fazer o dia inteiro enquanto meu companheiro trabalhava, por isso, saia para rua conhecer a cidade. Muitas vezes chorei de solidão, por não ter a menor possibilidade de encontrar alguém conhecido, de ir tomar um café na casa de um familiar ou amigo. Durante um bom tempo, voltava para casa com a certeza de não conseguir aguentar, de desistir e voltar ao meu país, mas de noite, junto com meu companheiro, chorava e resolvia tentar mais pouco, e aqui estou”, conta ela.

Susana na época em que chegou em Porto Alegre

Susana tem vivido com as asas da alma abertas ao vento, como na canção de Eladia Blazquez, Con las alas del alma. A seguir, veja o que ela nos traz sobre essa mudança para a capital gaúcha.

“Em 1977 entrei na Unisinos, escolhi uma profissão com a qual poderia trabalhar em qualquer lugar do mundo sem precisar revalidar nem conhecer a língua a fundo. Não sabia quanto tempo ficaria aqui e nem onde poderia ir morar, trabalhava o dia inteiro e pegava o ônibus da Central no centro da cidade para ir à aula, valeu o esforço. Fui muito bem sucedida e terminei minha vida profissional como Analista de Sistema na PUCRS, onde fui Coordenadora de Desenvolvimento de Software, responsável pela implantação de grandes projetos. Me aposentei em 2011 e saí da universidade em 2012.

Se eu tive resistências na minha área por ser estrangeira? Eu vivenciei mais preconceito por ser mulher numa área masculina por definição.

Muitas vezes minhas posições profissionais eram ouvidas sem muita atenção, mas eu conseguia colocar a importância delas para a empresa, e com isso ser ouvida. O fato de ser uruguaia muitas vezes significava um elogio, pois o país tem a fama de ter um povo educado e muito culto. Mas já passei situações onde ser estrangeira me rendeu um insulto. Hoje, como síndica no prédio onde moro há 30 anos, um condômino me falou que deveria voltar para meu país, pois aqui não sou nada. Isso foi xenofobia explícita, e assim tratei o assunto, dizendo que poderia ser preso por essa declaração. Pediu desculpas e por ser um senhor idoso, a coisa parou aí, mas acredito que sempre devemos denunciar os preconceitos, se as pessoas não entenderem que podem estar agredindo por um simples comentário, então não entenderam a dor que esse comentário pode trazer. 

Não tolero injustiças, já briguei muito por isso. Hoje sou mais calma, mas nunca tolerante. Se isso é um viés de uruguaia? Pode ser, vivi lá até meus 24 anos, estudei, trabalhei, militei e me formei muito politicamente, mas hoje penso em português, digo isso porque quando aqui cheguei, lia em português e fazia a tradução para o espanhol mentalmente, pensava em espanhol, hoje penso e sonho em português. Mesmo assim, ainda não me naturalizei, continuo com minha identidade de estrangeira radicada no país, Carteira Modelo 19. Na real, ainda sinto Montevideo como minha cidade, e amo Porto Alegre. Moro na Tristeza, porque gosto de ver água, da minha sala vejo o Guaíba e tenho o pôr do sol, isso é um privilégio que conquistei com anos de trabalho. Para quem chegou, há 45 anos, com uma mala de roupa e nada mais, é motivo de grande orgulho.

Em 1994, já no segundo casamento, tive um filho, Rodrigo. Nasceu quando tinha 43 anos. O atraso na menstruação me fez pensar que poderia estar entrando na menopausa, que nada, era um lindo bebê chegando. Sempre quis ter filhos, mas não tinha acontecido.

Descobri a minha gravidez numa consulta na geriatra.

A chegada do Rodrigo trouxe um novo sentido para mim. Trabalhava muito e tinha poucos períodos de férias, então, pela primeira vez em anos, teria 4 meses inteiros em casa. Me preparei para ler, ver filmes e desfrutar de muita paz, que inocência a minha! Fiz cesariana e quando, 15 dias após fui tirar os pontos, o médico constatou que minha pressão estava muito alta e perguntou o que tinha acontecido. Em surto gritei: o que aconteceu? Tive um filho, eu não como, não durmo, não consigo tomar um banho direito, se não cuidar ele morre, e creio que será assim pelo resto da minha vida!  Ele riu muito de mim e perguntou: mas o que tu esperavas? O problema é esse, a gente sempre espera o ideal, mas apenas acontece o real, e como sempre adaptar-se ao real requer tempo e compreensão. Hoje, percebo que se a realidade não chegasse assim, nos surpreendendo sempre, não teríamos como enfrentá-la, porque sob pressão a gente faz sem pensar muito, depois vamos aprimorando esse fazer e adicionando o que precisa.

Quando meu filho fez 3 anos, me separei do pai dele, aí a coisa começou a ficar difícil, tive um período desempregada e com 46 anos saí ao mercado a procurar emprego. As pessoas me falavam que seria muito difícil encontrar, nessa idade, uma colocação na minha área. Resolvi enfrentar a situação com coragem e competência. Tive a oportunidade de me reciclar profissionalmente, com a ajuda das amigas Fátima e Dilu, que me emprestaram dinheiro para pagar um curso de Oracle, (aliás tenho amigas que são irmãs, tanto no Uruguai como aqui. Estando longe da minha família, fui construindo uma família aqui. A minha família de lá já não existe mais, meus pais e irmãos partiram, ficaram sobrinhos, alguns primos e as amigas irmãs de lá, e consegui entrar na Universidade onde fiquei até me aposentar. Antes de me aposentar, voltei a estudar o Idioma Espanhol. Hoje dou aulas, faço traduções e assim vou vivendo. 

Fiz 70 anos recentemente. Quando me olho no espelho, vejo uma mulher que andou muito, e que ainda tem muito caminho a fazer. Adoro conversar. Com a Fátima [Torri] tenho 40 anos de assunto. Ela é madrinha de meu filho e eu de primogênito dela. Na infância das crianças, na falta de mães por perto, as conversas sobre criar filhos iam longe, e continuam até hoje. As amigas são meu esteio, divido tudo o que posso falar. 

Amo rir, beber um vinho, ver um filme, uma série, e ler, ler muito, e amo demais estar com Rodrigo, conversar com ele e vê-lo construir sua vida, seus acertos e desacertos, sua sensibilidade e carinho, seu posicionamento social como ser pensante, ele lê muito também. É historiador, temos trocas geniais sobre literatura e política. Bueno, é isso que sou, estrangeira num país que me acolheu, com pessoas maravilhosas que me acolhem e acompanham a minha vida há mais de 40 anos. Não sei como teria sido minha vida se tivesse ficado lá, quando vou, muitos me veem como brasileira, e de certa forma sou, minha vida é aqui, minha casa é onde moro.”

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