Contos de Contadoras

Profissionais negras gaúchas da área de contabilidade criaram um grupo no para se reunir e trocar experiências, a Rede de Contadoras Negras do Brasil, a Recon.

O Fórum Econômico Mundial divulgou, no final de 2018, um relatório que mapeia a distância entre mulheres e homens em diferentes áreas, incluindo o mercado de trabalho. Se o ritmo atual da sociedade for mantido, as mulheres levarão 257 anos para alcançar as mesmas oportunidades de colocação, cargos e salários que os homens. Se somada a isso a questão racial, a distância amplia ainda mais. Dado divulgado em 2019 pelo IBGE mostra que o rendimento médio por hora de negros com ensino superior é de R$ 34 para homens e R$ 24 para mulheres. O valor para homens brancos é de R$ 47 e de R$ 35 para mulheres não negras. Diante dessa realidade, mulheres de diferentes segmentos têm se organizado em coletivos e grupos para acelerar as mudanças no mercado de trabalho, reivindicar maior representatividade em cargos de destaque e melhores oportunidades de crescimento em suas carreiras. 

Há saídas, sim.

Do desconforto nasceu um movimento. Profissionais negras gaúchas da área de contabilidade, que se perceberam sós em eventos e atividades de trabalho, criaram um grupo no WhatsApp para se reunir e trocar experiências. A ideia é crescer mais e adicionar contadoras de todo o país. O isolamento decorrente da pandemia adiou os encontros presenciais, mas não interrompeu o surgimento da Rede de Contadoras Negras do Brasil, a Recon

ANA TÉRCIA RODRIGUES

Conhecimento, diplomacia e determinação são credencias que caracterizam tanto a personalidade quanto a carreira de Ana Tércia. Não por acaso, é ela a primeira mulher a assumir a presidência do Conselho Regional de Contabilidade do Rio Grande do Sul, em 73 anos da entidade. E está em seu segundo mandato. “É muito importante exercer essa representatividade e ser referência para outras mulheres na construção de suas trajetórias pessoais e profissionais”.


FABIANA DOS SANTOS

Nascer na periferia de Porto Alegre, em um bairro em que a população negra é presença dominante, manteve Fabiana distante do preconceito estrutural que a acompanharia na vida adulta. Como contadora, atuou em auditoria privada, auditoria e contabilidade pública, além de docência universitária. Em toda essa trajetória a percepção é quase sempre a mesma: única negra nestes espaços. Observação e autoconhecimento são as chaves que a tornaram uma desbravadora. 

ONÍLIA ARAÚJO

Contadora que “nem parece contadora”. Sempre de jeans e camiseta, Onília sonha futuros com ações concretas. Empreendedora e ativista em diversidade sobre raça e gênero LGBTQ+, ao tornar-se mãe do Pietro, em 2018, buscou novas perspectivas. Foi neste período que ela dedicou-se à construção da Odabá – Associação de Afroempreendedorismo, que tem por propósito o empoderamento econômico do Brasil negro. É sócia da Ponte: Educação para a Diversidade e fundadora da I.CON – Inovação Contábil. “Nossa profissão precisa se modernizar, por isso vem aí, em 2021, a Fiona, uma startup de transformação digital para pequenos escritórios contábeis”.

MARIA CATARINA ARAÚJO SILVA

Ainda muito jovem, Catarina já fazia sua organização financeira prazerosamente. O sorriso no rosto e a certeza sobre o caminho que queria foram suas armas para superar as dificuldades econômicas e descrédito sobre sua capacidade. Aprender para ensinar é o lema que define Catarina, uma contadora negra que não sente o peso da solidão. 

NORMA LEMOS

A certeza de que está honrando sua vida define muito do que pensa e faz essa profissional negra que ama as ciências contábeis. Enfrentar o sistema é sempre um desafio que Norma supera diariamente com atualização. Vencer na carreira, alcançar um lugar de destaque quase sempre acarreta solidão, mas Norma não se deixa abater e lida de forma natural.

MAGDA ROBERTA LEONETTI

Alegre e extrovertida, Roberta surpreende ao se apresentar a partir de uma citação do livro O Conde de Monte Cristo: “Deus me fará justiça”.  E é como contadora que ela sente que pode encontrar o caminho da justiça e se desenvolver profissionalmente.
De início, ela queria fazer o curso de Estatística, mas ao conhecer a área de contabilidade, se apaixonou. 

LUIZA SOBRADO ADENA

Números interpretados pelas nuanças que a contabilidade proporciona foram os estímulos que se transformaram em paixão pela profissão que Luiza escolheu. Começar o curso aos 28 anos de idade foi seu grande desafio, pois nunca havia sequer entrado em um escritório contábil e não tinha a menor experiência na área.

VIVIANE DA SILVA LEMOS

A análise do mercado de trabalho e o instinto de sobrevivência aliados às habilidades próprias foram determinantes para que Viviane se tornasse contadora. O desafio de ser jovem e negra atuando na área financeira e contábil foi vencido graças à autoestima positiva e à qualidade de seu trabalho. “Toda casa negra tem um pouco de quilombo”, avalia Viviane, que vê em sua família o esteio para superação sempre. Filha de empregada doméstica e de ferreiro, ela foi criada com sacrifício e orgulho pelo trabalho honesto que seus pais.

PAULA DE ABREU

Infinidade de campos de atuação foi o grande estímulo que levou Paula a entrar para a área contábil. “É a profissão mais completa que tem porque temos de entender um pouco de cada área para bem desenvolver nosso trabalho”, sintetiza.
Trabalhar e estudar foi um período difícil, como também foi complicador conseguir trabalho na área. Quando assumiu a contabilidade de uma empresa, Paula conseguiu provar que tinha competência para a responsabilidade. Ser exceção fez com que Paula se “embranquecesse” e assumisse uma postura mais dura, talvez masculinizada, para fugir da solidão. 

EDIANE DA SILVA (LUDY)

A carreira na área de contabilidade da Ludy, sempre foi marcada pelo investimento em formação e aperfeiçoamento. Com o curso técnico, ela já se embrenhou na área e adquiriu experiência. Hoje, ela é funcionária pública e está terminando o curso de Ciências Contábeis. “Não foi fácil chegar até aqui, críticas, cansaço diário, contratempos financeiros, preconceito de gênero, racial etc. Acredito que há muito pela frente, depende de mim, buscar realizar todos esses sonhos, independente das barreiras, o importante é mantenha-se no caminho”.

TATIANI FERREIRA DE SOUZA

Resolver problemas e ajustar as coisas foram fatores decisivos para Tatiani seguir a carreira de contadora. De início, a maior dificuldade era a falta de experiência, mas ela teve a sorte de encontrar um chefe com paciência e disposição para ensinar. Hoje, ela está mais segura e atua em uma instituição que propicia aprendizado frequente.

VIVIANE ALVES

A contabilidade surgiu na vida de Viviane com uma forma de alcançar sua independência financeira e pelo estímulo de ser uma apaixonada pela área. Realizada, determinada e feliz, ela vem de uma família de mulheres muito fortes. “O desafio nunca foi percebido como obstáculo e sim uma oportunidade para fazer melhor”. Viviane acredita que ser verdadeira e leal aos seus princípios seja a chave para vencer e seguir sempre em frente

Aliadas à luta por direitos

Um dos grandes fenômenos das eleições de 2020 foi o número de candidaturas coletivas pelo país. Em Porto Alegre, quatro delas eram compostas só por mulheres, em busca de representatividade feminina na política. Os mandatos coletivos são uma alternativa para grupos que normalmente se veem excluídos da participação nessa esfera e enxergam a modalidade como uma forma de potencializar forças.

Um fato importante é que pela primeira vez na história as candidaturas negras foram maioria nas eleições, mas o avanço não se repete quando o assunto é gênero, apesar das mulheres serem mais da metade do eleitorado brasileiro (52,49% das 147,9 milhões de pessoas aptas a votar). Nas atuais eleições, somente 13% das pessoas que concorrem às prefeituras e de 34% das que concorrem às câmaras municipais são mulheres. No Rio Grande do Sul, a realidade é de 123 (9,11%) candidaturas à prefeitura, 236 à vice, e 10.957 (35,87%) a vereadoras.  

Coletivos de negras em Porto Alegre

Dos quatro coletivos que se lançaram na campanha para uma cadeira no legislativo, dois eram compostos por mulheres negras:

Coletivo Cuca Congo (PCdoB) – formado por quatro professoras, as principais pautas do coletivo foram educação, serviço público e mulheres negras.

Vamos Juntas com Reginete Bispo (PT) – cinco mulheres oriundas do curso de formação política Dandaras, um dos projetos do Instituto Akanni. Unidas também pelo combate ao racismo e a democratização dos espaços. Seu mandato seria voltado a fortalecer a luta das mulheres, a luta antirracista, LGBTQI+, dos territórios tradicionais, daqueles que nunca estiveram nos espaços de decisão e poder

Nenhum desses coletivos foi eleito, mas a proposta chamou a atenção por desafiar o modelo vigente. Foi como uma experimentação para mostrar que as formas atuais de representação estão esgotadas. É a horizontalização da política. A democratização da democracia. A representatividade real de quem precisa se unir para a voz ser ouvida. 

Indique uma Preta

Liderada pelas comunicadoras Amanda Abreu, Daniele Mattos e Verônica Dudiman, de São Paulo, a plataforma Indique uma Preta (@indiqueumapreta) nasceu como um grupo de compartilhamento de vagas entre profissionais negras no Facebook. Elas passaram a fazer encontros mensais sobre empregabilidade, trazendo profissionais de diferentes áreas para conversar sobre temas que vão de autoestima a marketing pessoal. Hoje, a iniciativa está se consolidando como uma consultoria de comunicação e conscientização para empresas, e o trio já realizou projetos com empresas como Spotify e Facebook.

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