atitude, Velhice

Coragem gigante

“Ser percebido em sua própria essência como cômico é um fardo significativo”, escreveu Andrew Solomon no livro Longe da árvorepais, filhos e a busca da identidade. Esse é apenas um dos desafios de quem nasce com o nanismo como condição física. Assim como o descuido com a acessibilidade, tão evidente em locais que deveriam acolher a todos, questões desse gênero não tiraram o desejo e o prazer de viver da jornalista Lelei Teixeira, pequena por fora, gigante por dentro. Confira a entrevista feita com Lelei, cujo livro de estreia E fomos ser gauche na vida chegou às livrarias em dezembro.  

Se tu pudesses voltar atrás em tua vida, o que teria feito de diferente? O que poderia ter sido mais tranquilo refletindo agora nessa fase da vida?

Nunca pensei nesta possibilidade. A vida é o que está dado hoje, a partir de todas as minhas experiências passadas, entre as dores e as delícias do cotidiano, que não foram poucas. E quem não as teve? A vida é o que consegui concretizar, com a minha condição. Dura, às vezes, mas também encantadora. Sem arrependimentos e sem superação. Superar o quê? Acho que minha vida não poderia ter sido mais tranquila, não. Uma pessoa com uma diferença explícita, especialmente uma diferença que sempre foi alvo de piadas grotescas e comparações esdrúxulas, como o nanismo, que a sociedade normalizada gostaria de ver na invisibilidade, é alvo de muita discriminação. E o preconceito é secular. Mas esta condição não me impediu de abraçar a vida e ir para o mundo.

Como é a vida de uma anã? Em todas as áreas, principalmente afetiva/sexual?

A vida de uma pessoa com nanismo é cercada de curiosidades bizarras, que já chegam carregadas deste preconceito secular que falei acima.

Às vezes, me parece que nos é negado o direito à privacidade, que somos de domínio público e que precisamos sair explicando a nossa condição e as nossas ações para satisfazer a curiosidade alheia, muitas vezes mórbida, malvada.

Sempre reagi a isso. “Ser percebido em sua própria essência como cômico é um fardo significativo”, escreveu Andrew Solomon no livro “Longe da Árvore” – “Pais, Filhos e a Busca da Identidade” (Companhia das Letras, 2012). Ganhei este livro do meu amigo Alfredo Fedrizzi e é uma leitura de cabeceira. O autor escreve sobre várias diferenças a partir da sua própria condição – “homossexual e portador de dislexia”. Pois então, a vida de uma pessoa com nanismo não é diferente da vida de uma pessoa considerada “normal”, entre aspas mesmo, porque esta normalidade é uma imposição da sociedade. Somos todos diferentes. Nanismo é uma condição física, relacionada à altura de um indivíduo, bem menor que a média, o que a genética e a medicina explicam. E a vida afetiva, sexual, profissional não tem obstáculos, depende de cada um.

O nanismo te fez feliz de alguma forma?

Viver me faz feliz. Ter a família que eu tenho me faz feliz. Pais, avós, tios, irmãos, primos, sobrinhos e sobrinhos-netos incríveis. Ter os amigos que eu tenho me faz feliz. Trabalhar, produzir, escrever, conviver com as pessoas, conversar, tomar um café na esquina com um amigo, fazer um brinde, me faz feliz. Com “os todos sacrifícios”, diria Guimarães Rosa. Como já disse, o nanismo é uma condição física, pode até me impedir de fazer muita coisa, e impediu certamente, mas não me tirou o desejo e o prazer da vida. Pelo contrário, me fez ainda mais forte e lutadora.  

E a velhice, início dela, como está sendo?

A velhice já me assustou. E muito. Hoje não me assusta mais. Estou envelhecendo de um jeito tranquilo. Ter uma história, experiências incríveis para dividir com as pessoas, com as crianças que me cercam, é muito bom. E isso só é possível com o passar do tempo, com a idade avançando.

Como tu compensas tua altura?

Não sei se a palavra é compensar. Na verdade, busco formas de viver bem, o mais confortável possível, especialmente em casa, com a minha altura. Nem sempre é fácil. Nem sempre é tranquilo. Mas tenho banquinhos espalhados pelos ambientes, uma escadinha, enfim. Minha convivência com arquitetos atentos e queridos como Luiz Antônio Custódio, Ceres Storchi e Flavia Boni Licht acenderam muitas luzes. Eles sempre chamaram a atenção para a acessibilidade.   

Se tu já te apaixonou por um cara não anão? Como foi?

Não me apaixonei por uma pessoa com nanismo, nem por pessoa de tamanho dito normal. Em algum momento isso talvez tenha sido um problema. De qualquer maneira, não pautei minha vida por aí. Meus afetos seguiram outros caminhos. Mas sempre fui/sou muito apaixonada pelos meus amigos. Fiz análise por um bom tempo e tenho muita tranquilidade em relação a isso.

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