Velhice, Vida

Esther Grossi vive o drama de Antígona de luto sem corpo

Essa pauta me veio à cabeça quando perdi meu irmão em janeiro deste ano. Nunca pensei que não poderia fazer as despedidas. Não nos víamos já há bastante tempo, nesse mecanismo de defesa que usamos para negar a morte. Quem se ama não morre.  Não fica doente. Não nos deixará nunca. A possibilidade da morte é dolorosa. E a negamos todos os dias com mil facetas: a busca da eterna juventude é a mais usada. Se eu pareço mais jovem, então, não ficarei velha e não irei morrer. A realidade vem com sua espada e nos desfere o golpe que se tornou a prática da pandemia.

Tive que velar meu irmão sem ver seu rosto, as mãos, a voz que embalava brigas e risadas. E agora? O assunto ficou martelando na mente. E, então, acompanho a mesma situação com  Esther Grossi, que parece inumana em sua força vital.

A pulsão de vida de Esther é arrebatadora. E ela perde seu amor. E faz suas despedidas nessa nova Ágora, a praça pública que falamos e nos exibimos à exaustão. E usa com sua sabedoria. Escreve para seu amor despedidas. Com a função da despedida, para liberar-se ao luto.

Aqui, nessa matéria ela conta como foi despedir-se do outro lado do mundo. E também trazemos a matéria que inaugurou a Fala Feminina, em  setembro de 2020, com a Esther contando sua vida, seus dias. Uma lição.  

Fátima Torri, editora

É madrugada quando Esther Grossi decide interromper a angústia e encurtar a distância que a separava do último homem que amara. Rompendo o acordo que fizera com a família de Claude Gaulin de não ligar para o hospital de Quebec, onde ele estava internado por Covid. Enquanto digitava o número, pensava se teria sorte de ouvir a voz de Claude, distante cerca de 9 mil km de Porto Alegre. E conseguiu. Sem saber, iniciou ali a despedida. Dias depois, Claude respirou pela última vez.

Esther iniciou seu luto em junho de 2020. O paradoxo: sem um corpo. Sem ver o rosto, olhar a imagem de quem partira para sempre. Ao decidir telefonar, exigia para suo direito da despedida, como Antígona ao reclamar ao Rei Creonte o corpo do irmão para o devido cerimonial.

Como viver o luto sem os rituais da despedida? Simone de Beauvoir volta ao hospital imediatamente após saber que Sartre, a quem havia deixado horas antes, havia morrido. Naquela noite, pede que a deixem a sós com ele. E dorme abraçada ao corpo de Sartre.

Chimamanda Adichie, em seu livro Notas sobre o luto, trata a perda como “uma forma cruel de aprendizado. Você aprende como ele pode ser pouco suave, raivoso. Aprende como os pêsames podem soar rasos. Aprende quanto do luto tem a ver com palavras, com a derrota das palavras e com a busca das palavras”. A autora escreveu a obra assim que seu pai faleceu. Antes de lançá-la, a mãe e as tias também partiram. “Uma erosão, uma terrível tromba-d’água que deixou nossa família para sempre deformada. As camadas da perda fazem eu me sentir fina como um papel”, descreve.

Em A ridícula ideia de nunca mais te ver, Rosa Monteiro também trata sobre luto e suas consequências. Quando leu o diário que Marie Curie escreveu após a morte de seu marido, ela sentiu que a história dessa mulher fascinante guardava uma triste sintonia com a sua própria: Pablo Lizcano, seu companheiro durante 21 anos, morrera havia pouco depois de enfrentar um câncer. Essa perda, somada às memórias de Curie deram origem a um livro tocante a respeito da morte, mas sobretudo dos laços que nos unem.

“Por muito tempo, Marie guardou um pedaço de pano em que estavam grudados pedaços do cérebro do marido, e ainda alguns fios de cabelo. Seu desespero era tão grande que pediu à irmã que a ajudasse, por fim, a queimar aquilo”, conta Rosa. Marie Curie ficou transtornada com a morte de seu marido, atropelado por uma carruagem em abril de 1906. Proibiu suas duas filhas de mencionar o pai em sua presença. “A dor pode te deixar louco”, diz Montero. “Marie Curie ficou louca durante um tempo. Era uma personalidade muito complexa”. A reação diante da morte causa fenômenos estranhos.

Não enterrar o corpo do amado, não despedir-se do ser que nos acompanhou durante a vida é uma dor que finca até mais fundo do que a morte. É uma sensação de que a pessoa evaporou-se. “Vou esperar para poder viajar e ir ao mausoléu da família para  ver  o vaso de suas cinzas na vitrina… vou para lá porque lá terei sempre um amor”, comenta Esther.

Ela não viveu muito com seu amado. Esther soube por um e-mail da família de Claude que ele estava hospitalizado e precisava ser entubado. Que se negou e assinou um documento assegurando a espera da morte naturalmente. E a mensagem pedia que ela não ligasse para ele. Esther obedeceu por alguns dias. Mas, não resistiu e ligou e Claude atendeu. “Estou perto de ti, disse ela, te amo muito”.  Esses telefonemas ocorreram até antes dele morrer. Morreu antes de completar os 81 anos.

A dor de não poder despedir-se, ver a pessoa amada, tocar-lhe a mão era o que doía mais em Esther. E a memória de Esther estará sempre viva a lembrar os mais de 30 tórridos dias que viveu com Claude no Marrocos. Foram apenas 4 anos de convivência. Mas para quem tem mais de 80, um amor inesperado como o que os dois viveram tem a potência de uma vida inteira. “Eu não esperava mais namorar ninguém. Estava mais voltada para a minha vida, o trabalho. E, eis que surge um amor que me envolveu particularmente pela atração física. Foi surpreendente a relação dos nossos corpos. Nos curtimos sexualmente como nunca antes tinha vivenciado. Foi fantástico”, garante.

Esther é um exemplo para todas as mulheres. Até as mais jovens: silenciem suas ansiedades e deixem seus corpos livres para sentir o prazer que a natureza proporciona. Simples? Não, nada simples.


Esther Grossi não é deste mundo. Não, não é um anjo, mas dificilmente se verá um ser humano com a força, a vitalidade, a alegria de viver dessa mulher. Ao 85 anos caminha, dirige seu carro e, agora, aprendeu a cortar a grama do pátio de sua casa. “Não posso trazer ninguém por causa do distanciamento, então, eu faço o que posso”. Cuida da casa sozinha, e não é uma pequena moradia, não. São dois andares, com um grande jardim na frente e atrás da casa, onde ainda tem uma hortinha.

Pulsão de vida é o que não falta para essa mulher. Combinou com um dos irmãos que ainda está vivo de um total de 10, de que vivam os dois até ela completar 115 anos. Mas, o irmão, que vai fazer 90, parece meio relutante com a vida. Esther diz: “acho que ele está me traindo, não está se cuidando; é preciso que ele chegue aos 119 para que eu chegue aos 115. Ele tem que cumprir com a palavra dele.” Sobre sua vontade de vida, a educadora e ex-deputada já falou à Fala Feminina na matéria A velhice doce e colorida de Esther Grossi. Agora, escrevendo em seu Facebook e fazendo lives, compartilha suas experiências, inclusive a do luto, com seus amigos e seguidores.

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