Filhos da mãe: educar meninos não é frescura, é urgente

Um filho precisa ser bem criado para não crescer um homem frágil, preconceituoso com as mulheres. A gente sabe que o buraco é mais embaixo, não é fácil, e evitar isso vai exigir que mães (e pais) pensem e discutam sobre a educação de guris
educar meninos

Desde que o mundo é mundo, a história que nos contaram é a de que os homens são “os caras”. As mulheres? Coadjuvantes que não dão conta da vida, que acreditam em príncipe (e deve-se esperar por ele). Mas a História, com H maiúsculo, vem mudando rapidamente, as meninas já estão com a sementinha do feminismo aflorando, e nós, as mulheres, sabemos que podemos ser o que quisermos, inclusive não esperar o príncipe encantado. E a educação dos garotos precisa ser revisitada, precisamos entender novas formas de educar meninos.

Para fazer essa reflexão e questionar tabus antigos neste novo mundo que surge velozmente quando se fala em gênero, a pesquisadora Marina Speranza, lançou em 2024 Educar meninos não é frescura – Reflexões sobre gênero para famílias e educadores. Como se fosse uma conversa, porém embasada em muita pesquisa, Marina levanta pontos sobre masculinidade, feminismo, patriarcado e a necessidade de dialogar, trazer estudos sobre gênero e ter uma conversa franca a respeito da socialização de meninos. Ou seja, uma “provocação” para pais, mães e educadores sobre como chegamos até aqui criando guris que reproduzem padrões. 

Para Marina, escrever o livro foi um encontro com ela mesma, quando também, a partir do nascimento do filho e dos estudos, percebeu que há possibilidade de educar meninos de outra forma e ter filhos “incríveis”, diz, citando uma crise da masculinidade. 

Com #metoo, #lutecomoumagarota, #nemumaamenos, voltamos a nos perceber como realmente somos, pessoas que tocam o mundo!
Desde a maternidade até a termos uma mulher, Marie Curie, a única pessoa no mundo a ganhar duas vezes o prêmio Nobel. E na área científica. Amelia Earhart já pilotava aviões em 1921 .Agora, as mulheres estão juntas em podcasts, dirigindo filmes, pilotando suas vidas. O mundo mudou, está mudando, a uma velocidade que nenhuma nave supersônica consegue alcançar. Enquanto isso, os meninos recebem mensagens contraditórias, o tempo todo. Alguns saem por aí dando porrada, outros acham que vão arrasar só vestindo uma saia. De um lado, meninas querendo compartilhar um mundo mais justo, de outro, alguém berrando: deixa de ser frouxo. A socialização de meninos é um assunto urgente e necessário.

Pais, mães, tios, avós, todo mundo está um tanto perdido, educadores precisam de alternativas ao que tivemos até agora. E é esta a proposta do livro: com linguagem informal, dialogar e refletir sobre os desafios na educação dos meninos”, diz Marina, ao questionar sobre as mensagens dúbias que eles recebem o tempo todo. Tal como no filme Barbie, cujo slogan era “Ela é tudo, ele só é o Ken”. Marina não poupa: “Perguntei pra uma menina: o que você achou do Ken no filme? ‘Um tanto inseguro’. Mais no começo ou no fim?” ‘Os dois’”. 

 

“Eles estão recebendo o recado: seja um homem profundamente diferente dos seus pais e avós, mas não chore, não mostre vulnerabilidade, seja forte, seja o protagonista. Como? Se vira!”

 

“Tu é que se veste assim, assado”

Marina conta que o livro nasceu a partir de seu contexto de vida: teve uma mãe que foi abusada por um familiar. “Minha mãe não foi ouvida pela minha avó, pelas minhas tias, que disseram: ‘tu é que te veste assim, assado’, aqueles papos que a gente conhece desde sempre. Como minha mãe não foi validada, não achou que precisava proteger a filha disso, então não me protegeu no sentido de falar ‘tu te cuida’.”

A própria Mariana, quando criança, também foi abusada por pré-adolescentes”. Essas pequenas coisas, além de tudo o que a gente vive, fazem pensar que homens não são legais. Fiz muita psicanálise porque tinha muito medo de homem e, quando descobri que meu filho seria um menino, foi chocante pra mim: ‘e a agora o que eu faço?’. E não foi nada disso, meu filho é um querido, sensível. Na verdade, a educação e a sociedade é que criam meninos e homens assim, e a gente tem que começar a enxergar um pouco isso”. 

 

“Simone de Beauvoir dizia que não se nasce mulher, se torna. O mesmo pode se dizer dos homens, é um conjunto de vivências que nos faz ser quem a gente é. E nossa criação tem tudo a ver com o que temos entre as pernas. Em geral, mulheres aprendem que devem casar e ter filhos, homens que precisam ser eficazes, especialmente no trabalho e na cama, e, pra conseguir, vale usar violência.” (trecho da sinopse da obra)

 

Marina Speranza

 

Meninos têm saída para um novo mundo? Como educar meninos para esse caminho?

“Eu acredito, e muito. Por isso escrevi o livro, e por isso gostaria (muito) que ele fosse (muito) lido. Mas, lógico, não é só isso. O feminismo existe há muito tempo, e só com as mídias sociais teve um alcance realmente expressivo, pelo menos no Brasil. As mulheres chacoalharam o mundo, e a gente tá repensando, reorganizando estruturas: os relacionamentos, as amizades, nossos papéis, obrigações, possibilidades. A gente viu que pode ocupar novos espaços, mas, vamos combinar, seguimos sentindo certas culpas e usando filtros de Instagram que escondem mais imperfeições do que qualquer maquiagem. Tem muita coisa pra desconstruir ainda.

E, assim como nós fomos ensinadas a performar como mulheres, os meninos também e recebem milhares de recados, muitos deles contraditórios. Por um lado, ‘prove que é macho, isso é o que importa’. Por outro, a vida mostrando que isso não faz mais sentido. Que esta educação gera violência não só às mulheres, mas às crianças, e também aos homens.

É aquela história, a gente sabe que o mundo progride, dá passos pra frente, logo alguns pra trás, surgem algumas resistências, movimentos contrários…  Mas não tem volta, né? E, se pudéssemos fazer esse movimento de uma maneira consciente, com amor, um tanto melhor”, reflete.

 

Masculino e feminino – o X da questão

“Um ponto muito importante do livro é perceber que a nossa sociedade é androcêntrica, e tudo o que é considerado ‘masculino’ tem mais valor. Até por isso, nós, mulheres, estamos incorporando e achando o máximo: trabalha fora, participa de política, escreve livros, joga futebol…

Por outro lado, o que antes era ensinado só às mulheres não é valorizado, o cuidado, a atenção às emoções, as relações… Tudo isso que aprendemos e que é considerado ‘feminino’, é lindo! E, sim, tem que ser valorizado. O que eu quero é que os meninos e os homens valorizem tudo isso também. Podemos, tanto homens quanto mulheres, compartilhar de igual pra igual espaços públicos e privados.

Algumas pessoas têm me dito: ‘poxa, que legal, tu fala com calma, com delicadeza’. Em um primeiro momento, aquilo me causou estranheza, não quero seguir mantendo padrões, sabe? Por outro lado, pensei que quero, sim, que essa mensagem seja passada com amor.

Então, quem vai fazer isso? Nós todos, a sociedade. Individualmente, mas também coletivamente, passando a mensagem adiante, lutando por políticas públicas inclusivas, como ampliação da licença-paternidade. Minhas amigas brincam que eu tô naquele clima Tim Maia: ‘leia o livro” [letra de música do cantor Tim Maia], mas acho que é um pouco por aí. A gente precisa conversar sobre tudo isso, colocar este assunto na mesa, este é o primeiro passo, visibilizar esta questão da educação dos meninos. Pelo que eu vejo, quem educa meninos, em geral, não têm noção real dessa necessidade, pensa só que ‘ah, eles tão de boas, eles se viram, importante é olhar pras meninas’. Nada mais errado.”  

 

“Hoje, começamos a nos dar conta que a socialização dos meninos não favorece as mulheres, mas também não é tão benéfica aos meninos, futuros homens. São eles os campeões em violências contra si mesmos, o que é fácil de se comprovar com as altas taxas de suicídios e mortes por acidentes entre os homens”

 

Porque o gênero é decisivo no educar meninos

“Nossa educação é baseada no sexo que nos é atribuído, isso é um ponto crucial da nossa sociedade, e por isso, o gênero gera tanta polêmica. Desde o quartinho do bebê em rosa ou azul, até as roupas que encontramos nas lojas. Já reparou que as meninas têm vestidos fofos, sapatos apertados e aprendem a manter limpinho? Já os meninos têm bolsos divertidos cheios de funções e podem se sujar à vontade, as mães falam com orgulho: “a roupa do meu filho vem imunda pra casa”.

Um dos problemas de gêneros tão marcados é justamente esse, uma rigidez, uma necessidade de performar de acordo com um papel que nem sempre você quer assumir. Pode ser lindo ser mãe, e também pode ser lindo ser tia. Por que para o homem é permitido e pra mulher não? E tá rolando esse movimento, as mulheres têm questionado muito os relacionamentos e a maternidade, né? Ainda não li o último livro da Vera Iaconelli [psicanalista], mas acredito que vá bem por aí.

A Valeska Zanello [pesquisadora de saúde mental e gênero da Universidade de Brasília] fala que o dispositivo do casamento e da maternidade é o que constitui a identidade da mulher brasileira, enquanto o dispositivo da eficácia é a base dos homens. Pode ser um pouco utópico, mas eu adoraria que a gente pudesse relativizar esses três pontos.

Tem um capítulo do livro que fala sobre a importância da paternidade. E acho ótimo a gente valorizar, quando for possível, a presença do pai. Mas sempre com o cuidado de não tratar o que tratamos como natural quando feito por uma mãe como excepcional quando feito por um pai. Os pais não são super-heróis que vão curar o mundo do machismo, né? Mas eles podem, sim, ter um papel importante.

Talvez sim, mães acabam tomando frente nesta discussão, até porque, nós estamos mais conscientes e queremos mudar, pra ontem. Mas quando os homens descobrirem que vão ganhar um mundo mais interessante, justo e com menos violência, tenho certeza de que eles vão querer participar no educar meninos. Não todos, mas alguns, e é nesses que a gente tem que focar.”

 

“E aqui chegamos a um ponto importante, que ainda vai dar pano pra manga: ser homem não é como ser mulher. E também ser forte, gostar de azul, segurar o choro, ser grosso, brincar de carrinho, não abraçar amigos e gostar de lutar não definem meninos”

 

Quem é Marina Speranza

Marina tem 41 anos, é catarinense e vive em Barcelona, na Espanha. É mestre em Gênero e Políticas da Igualdade pela Universidade de Valência e doutoranda em Estudos Feministas e de Gênero na Universidade Complutense de Madrid. É casada e tem um filho de 12 anos.
Instagram @omeninoeofeminino 
e @marinasperanza

 

Texto escrito por Tatiana Bandeira

 

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