Vida

A saga em busca do sonho

Há quem diga que a descrição de maternidade não caiba no espaço estreito e apertado das frases. A gente pode tentar descrever de inúmeras e profundas formas. Ainda assim vai passar bem longe. Em seu livro Mãe, com poesias do cotidiano desse ser que ela chama de “fada do beijo”, a publicitária, escritora, digital influencer e mãe-solo de Francisco, Cris Guerra, que perdeu o marido quando estava grávida, diz que “mães não têm tempo para o ensaio: estreiam a peça no susto”. E mesmo no caso das mulheres com gravidez temporã, por escolha ou destino, a estreia sempre acaba sendo “arrepiante”, em todos os sentidos.

Um tabu paira na sociedade: existe idade certa para ser mãe? Em algum momento a mulher está pronta para essa jornada que transforma a vida?

“Eu acreditava que ser uma mãe tardia me garantiria vantagens emocionais – apesar de ter, segundo a medicina, inconveniências biológicas.

“Eu acreditava que ser uma mãe tardia me garantiria vantagens emocionais – apesar de ter, segundo a medicina, inconveniências biológicas. Ter tido filhos aos 40 me ofereceria mais tranquilidade e menos ansiedade, já que meu checklist de vida estava bastante bem preenchido: carreira consolidada, liberdades, viagens, festas e aventuras devidamente desfrutadas”, é o que conta Lurdete Ertel, colaboradora da Forbes Brasil. “Sou mãe de gêmeos. Hoje, meus filhos têm 7 anos e, em retrospectiva, foram os sete anos mais desafiadores e intensos da minha vida”.

A gestação de Lurdete aconteceu aos 42, o que entendia ser a decisão perfeita. “As renúncias decorrentes da maternidade não me pareciam sacrificadas, porque eu já tinha aproveitado tudo o que desejava. Parecia ser o momento oportuno. Mas junto com os benefícios da idade vieram também alguns contratempos. Conforme a medicina já previa, eles impactaram principalmente sobre o corpo: embora eu me considere bastante ativa, percebia já não ter a mesma resistência para a maratona física que vem com as crianças pequenas e, no meu caso, em dobro”. 

Mudanças atrás de mudanças

Com a chegada de Allegra e Enzo, mudou… tudo. A começar pela casa, radicalmente reorganizada para receber os gêmeos. “O chão de nossa sala virou um gigante tatame de creche, com cercadinhos de cachorro espalhados por todos os ambientes, quarto com futons no chão para dormir, escadas e portas bloqueadas, sumiço de objetos potencialmente perigosos.” Para que pudessem seguir trabalhando, recebendo amigos e tocando a vida, mesmo sem uma rede de apoio próxima, já que ela e o marido, Ivan Bornes, foram de mala e cuia de Porto Alegre para São Paulo em 2009, priorizaram a segurança. “Gerenciar dois bebês simultaneamente quando se está sozinho em casa é como assobiar e mascar chiclete ao mesmo tempo. Um eterno malabarismo.”

Lurdete voltou a dirigir, teve que comprar um carro, contrariando a decisão inicial de morar perto do trabalho para fazer tudo a pé, medida prudente diante do famoso trânsito paulistano. “Começou a ficar desafiador, principalmente quando era necessário ir sozinha ao pediatra ou dar voltas mais longas. No táxi, eu ficava neurótica na hora de embarcar ou desembarcar do carro, porque não conseguia fazê-lo simultaneamente com os dois. E minha neurose de mãe escorpiana fantasiava: e se o taxista fugir com um deles? Foi neste ponto que decidimos comprar um carro, ou melhor, um Fusca, um antigo modelo usado pela Telesp, de cor de abóbora, que batizamos de `jerimum`. Com ele, rodamos por toda a São Paulo, até que as perninhas da dupla não coubessem mais no apertado banco de trás. Nesse momento, trocamos o Fusca por uma Kombi, igualmente antiga, capaz de carregar os amigos. Ambos os veículos eram uma incógnita mecânica, mas viraram o frisson dos colegas de escola. Foi uma solução que virou diversão.”

Aa viagens da família também sofreram adaptações. “Quando retomamos o hábito de passar um mês por ano fora do Brasil, agora com as crianças, tivemos a ideia de passar a fazer as viagens de motorhome, um jeito de reduzir nosso trabalho de empacotar e desempacotar malas e brinquedos”.

Mãe Google

Com as crianças nos seus 7 anos, Lurdete conta que os desafios já não são mais apenas alimentação, higiene, vestimenta, segurança, saúde e outros aspectos de subsistência. Agora, as demandas são outras, mais complexas, e a maternidade ingressa em outro nível de exigência. “Hoje tenho a sensação de ser uma versão simplificada do Google, que precisa dar conta de 1.200 perguntas por dia. Em três idiomas. Porque a curiosidade é hoje a nova fome deles. E, para isso, não existe papinha pronta. Talvez por isso tenha voltado a estudar.”

Gostaria que existissem cursos superiores para a maternidade. Programas que não apenas ensinem premissas e cuidados básicos, mas que desmanchassem mitos, culpas e fantasias.

Se Lurdete se sente confortável em sua versão mãe? “Gostaria que existissem cursos superiores para a maternidade. Programas que não apenas ensinem premissas e cuidados básicos, mas que desmanchassem mitos, culpas e fantasias. E que mostrassem caminhos não para ser uma mãe perfeita, porque isso não existe, mas uma mãe `suficientemente boa`, como cunhou o pediatra Donald Woods Winnicott. Eu certamente seria uma candidata”. Possivelmente, seria um sucesso de público. Alô, universidades!

Uma decisão baseada no histórico 

A publicitária Lara Piccoli, sócia-diretora da HOC – House of Creativity, priorizou a vida profissional por vários anos, mas nunca descartou ter filhos, até pela experiência positiva da relação em seu núcleo familiar de origem.  “Eu sempre quis ser mãe. Por uma razão simples: eu tenho uma família muito amorosa, muito querida e muito ‘continente’. Somos muito unidos.” Ela conta ter feito todo um planejamento de vida: “casar antes dos 30, engravidar por volta dos 30 e poucos do primeiro filho e, depois, do segundo. Mas mais do que ter um filho, eu queria formar uma família. E aos 30 eu já tinha me dado conta que o meu então namorado não seria essa parceria. 

Lara conheceu Fábio Bernardi, seu marido, no trabalho, ambos com ambiciosos e satisfeitos com o crescimento de carreira. Decidiram morar juntos em um pequeno edifício construído pelo avô da professional reconhecida no mercado, com três apartamentos que abrigava o “familião”, como ela chama: um do casal, outro de um dos irmãos, e o terceiro dos pais. Até o dia em que um novo apartamento ficou pronto, mas a comemoração foi tímida, já que sua mãe tinha acabado de falecer. “Nos mudamos e entrei  numa fase bem egoísta. Eu queria ficar sozinha. Eu queria cuidar de mim. Estava ferida, precisava de um tempo.” E, assim, se passaram mais alguns anos da faixa dos 30. 

A grande aventura começou aos 39, com a retirada do DIU. “Aconteceu após um papo reto da minha ginecologista comigo. Eu tentei engravidar por um ano. Aos 40 e poucos, minha médica sugeriu que eu investigasse mais a fundo a questão e visitasse uma clínica de fertilização. A experiência começou trazendo decepções.

“O tempo é cruel com as mulheres. Os médicos tentam não ser fatalistas, mas com estatísticas te provam que depois dos 40 será uma sorte muito grande engravidar naturalmente

“O tempo é cruel com as mulheres. Os médicos tentam não ser fatalistas, mas com estatísticas te provam que depois dos 40 será uma sorte muito grande engravidar naturalmente. Você sai da primeira consulta numa clínica dessas se achando velha, triste e arrependida por ter demorado tanto tempo para ser mãe. Escutei de um médico que eu já tinha desperdiçado meus melhores óvulos. Chorei muito nesse dia.”

Pressão externa

Depois de diversos tratamentos, parou de contabilizar, segundo ela, para não ser o único assunto no churrasco de fim de semana da família e dos amigos.Até chegar o dia em que te perguntam: ‘mas por que você esperou tanto?’ E você nem sabe a resposta”.

O tempo foi passando, e depois de dois anos, a decisão pela gravidez se tornou uma obsessão. E um grande stress. Até que pelos 43 anos conseguiram engravidar. Só que a alegria durou pouco.  “Estávamos indo para a eco dos 3 meses, cheios de alegria e o médico disse que o coração não estava batendo. Foi um choque numa jamanta a 200km por hora”. E a dúvida sobre continuar surgiu. “Da onde a gente tira forças nessa hora? Da lembrança internalizada do que é uma família feliz. Do propósito. Só ele nos faz seguir em frente”.

Quando estava cogitando a adoção, Lara optou por uma última tentativa, indicação de uma nova médica. Por sua conta e risco, fez um tratamento que chama de “controverso”, com acampanhamento a cada três semanas em Passo Fundo para receber imunoglobulina na veia. Tomou corticoide até o quinto mês, Clexane injetável na barriga até o final da gravidez. Sem contar pra ninguém. 

Se foi isso que ajudou, não se sabe. O que importa é que o tão esperado Santiago chegou em 20 de dezembro de 2018 e virou Lara do avesso. “Eu não chegava a ser uma workaholic, mas era muito feliz no trabalho. Entregava uma Lara inteira pra ele. E o que aconteceu é que saí para dar a luz em dezembro dizendo que voltava em fevereiro e só apareci 7 meses depois. E ainda meio turno”.

E o que mudou com a maternidade? Lara se diz mais paciente, sem conseguir deixar de ficar com o filho para priorizar uma rotina parecida a que tinha antes.

“Sempre fui muito segura com a maioria das minhas coisas e na maternidade eu não tinha  e ainda não tenho nem ideia e controle de nada. Isso me deixa louca. Ao mesmo tempo que me fascina.”

“Eu deixei ele entrar na minha vida. Eu deixei o trabalho de lado, eu deixei o e-mail para trás, eu deixei o celular de lado, eu deixei os amigos de lado, eu me deixei de lado. Eu me misturei nele enquanto ele se encontrava em mim. Inteira. Não dava pra dividir com nada esse momento. Eu não queria. Eu tinha lutado 5 anos para ter esse filho nos braços nada me tira dele. Nem vai tirar. Ele me tem“ Apesar desse amor tão potente, o papel não tem se mostrado fácil. Assim como muitas mães, Lara tem uma visão de que a maternidade é uma experiência extremamente solitária algumas vezes. “E não é porque os maridos não participam ou não estão junto… é que simplesmente estamos em outro plano. Temos outro entendimento, outra entrega para isso. E esse entrega não é bem compreendida”. 

Para ela, a Maternidade é pouco estudada. E tem muito assunto para ser dominado: “a amamentação, o sono infantil, a posição correta para dormir, para mamar, o banho, as trocas, as cólicas, os dentes, a introdução do mamãos-bravos de complemento, o desmame, o desfralde, a introdução alimentar… e por aí vai. Tudo isso nas condições normais de temperatura e pressão, sem considerar não ter leite, ou as alergias alimentares, os transtornos do sono… As mulheres cultivam a ideia de que isso é um conhecimento de senso comum que passa de geração a geração. Não é. A gente precisa estudar para saber. E nem todo mundo conta com o apoio dos avós nessa hora”.

A mãe do Santi defende a construção de redes de apoio estruturadas e discorda da romantização da maternidade. “Se aceitar vulnerável é um aprendizado… falhar num assunto tão feminino é mais ou menos como admitir um defeito de fábrica. Hoje, posso dizer que desliguei o ISO interno de qualidade, dei folga para o fiscal da fábrica. Porque decidi ser feliz pro meu filho. Para ele, com ele e por ele. Mas volta e meio dou uma deslizada. E estou tentando, dia após a dia, relaxar mais e curtir o lado maravilhoso que a maternidade traz.“

Apesar dos conflitos internos, assim como o marido, Lara diz não sentir falta da vida antes do filho. “Nem lembramos como era. Simplesmente não sabemos como ficamos tanto tempo longe do nosso Santi.”

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