Heroicamente Humana

Uma atleta jovem, ao auge de sua carreira, representando um dos países com maior apoio aos atletas, desiste na maior competição possível para um atleta de alto rendimento, as Olimpíadas. Essa atleta é Simone Biles, que com apenas 24 anos já tem 50 medalhes olímpicas e mundiais em sua carreira, levando o nome de quatro movimentos em sua homenagem. Inesperadamente, a estrela da ginástica revela que precisa parar. O motivo? Cuidar de sua saúde mental.

Joseph Campbell em sua obra O mito do Herói fala sobre o mito ser parte integrante e indissociável da existência humana, tendo esse um impacto inspiracional em todos os demais produtos possíveis das atividades do corpo e da mente humana. O termo herói surge com Homero, para descrever os homens que se distinguiam dos demais por contarem com coragem e méritos superiores. Essa figura mítica então vem para representar o ideal a ser seguido pelos humanos, meros mortais, que transcendendo essa sua condição, podem aproximar-se dos deuses em razão de seus feitos. O mito é constante, nas mais variadas histórias ao longo do tempo e a variação presente nessa figura entre as diversas culturas.  O herói típico das culturas arcaicas é aquele cujas batalhas consistiam em matar monstros, o que podemos extrapolar e imaginar as batalhas do homem entre o bem e o mal. Ou também simbolizar o duelo interno: de ideal de eu tentando alcançar o eu-ideal de Freud.

Da mesma forma como a cultura evoluiu, é natural que o herói também siga o mesmo caminho. E assim o herói ganha novas formas, novas roupagens e novos papeis. Simone veste e personifica esse antigo ideal: a mulher guerreira. Seu dom atlético é tido como dádiva, herdado tanto da natureza, no caso a genética, quanto da divindade, faz com que se transforme o centro das atenções, a melhor atleta da ginástica artística. Mas por que essa figura parece apresentar tanto magnetismo? Esse fascínio acontece tanto porque pura e simplesmente ela personifica o alcance do desejo e a figura ideal do ser humano, como também supera as adversidades, os seus medos e seu sofrimento. Vence a barreira invisível da castração, do limite. O atleta é o novo Deus Grego.  Sua capacidade é de fato, praticamente sobre-humana, o que confere um poder muito grande.

Ah o poder do ideal, da perfeição e da completude. Mas o que acontece quando a máscara de semi-deus começa a rachar e a verdade da fragilidade humana começa a aparecer pelas frestas. O corpo falha erra-se aquele salto que sempre foi realizado com a maior facilidade nos treinos, perde-se o ritmo da coreografia ou surge uma lesão misteriosa, uma dor que não cessa em se fazer presente. Aqui cabe aquele senso comum barato do tipo “o físico também fala”. Não se pode negar a união da soma e da psique e o equilíbrio indissociável dos mesmos. Quando o corpo é “perfeito”, mas a mente falha ou vice e versa. Por mais que quisesse, por mais que tentasse, por mais que sofresse, não dava mais. Mesmo fazendo direitinho o seu papel de ideal, a verdade apareceu nua e crua.

Aqui temos um palco incrível para a temática da busca pelo ideal, a busca pela perfeição e a sociedade do “custe o que custar”.

Não me entenda mal, a noção de falta é importantíssima, estrutural na verdade, e em medida é um ótimo motor para criação e para o desenvolvimento. Mas quando esse ideal fica muito grande, exerce uma força essa sim sobre-humana, torna-se insustentável. Em entrevista com a CNN, Simone revela: quanto mais medalhas você tiver quando voltar, mais pesada será sua bagagem.  Isso é: a alegria efêmera da vitória traz consigo a angústia de manter-se nesse lugar, seguida sempre pelo desejo de superação, o qual insiste em apontar que a realização estará mais adiante, sempre em falta. Vindo a tona o temido registro de ser faltante.

Simone foi corajosa, barrou que o desejo do outro, dos outros a engolissem. Deu um basta, disse chega. Surgindo margem para a pausa, sair do automático. Será que isso é uma desistência?  Para mim, parece mais um abrir mão para ganhar: abrir mão desse peso de manter-se no pedestal, para ser real, tangível e humana. Para conseguir bancar o seu desejo, para cuidar de si. Ser verdadeira. Simone teve a coragem de ser vulnerável, de expor suas questões em meio mundial. E aí o que tem de tão incomum em ser de carne e osso?  Esse delírio de onipotência é muito custoso, é o sintoma de nossa época. E a você, o que tem custado estar na corda bamba do ideal da perfeição?

*Por Barbara Dornelles Brea Torelly – Psicóloga clínica em formação, graduanda do último semestre no curso de Psicologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Com experiência clínica em diversas modalidades, como atendimento de famílias com adoção, crianças e adolescentes com diagnóstico de conduta e humor, na clínica individual e ambientoterapia. Ganhadora do Prêmio Destaque, na Jornada anual CEAPIA, Julho 2020. No artigo Adoção na Clinica Psicanalítica de Crianças.

Compartilhe este Post

Deixe um comentário

você também pode gostar

O feminismo chegou ao puteiro

“Comecei a pensar o feminismo e a prostituição a partir de um olhar feminista” As qualificações de Monique Prada, trabalhadora sexual, escritora e ativista, não podem ser descritas em um

Leia mais »