Saindo da Gaveta: Jussara Marchand e suas Cecílias.

Por Jussara Marchand

Cecília Amendoeira nasceu de histórias contadas por muitas mulheres, as quais ouvi entre fevereiro e setembro de 2003 em Porto Alegre. Juntei os fatos, amarrei-os a eventos históricos, nomes fictícios substituíram os reais, outros tantos foram criados. E de um conjunto de acontecimentos aparentemente emaranhados foi sendo destilada a história de Cecília.

Nas manhãs de segundas-feiras, em um andar alto e frio do Centro Histórico, talvez um dos últimos lugares onde alguém buscaria inspiração para qualquer coisa, elas chegavam pontualmente às nove horas. Desciam do elevador, caminhavam poucos metros e seus dedos pressionavam uma estridente campainha. Então uma imensa grade de ferro, usada para proteção de quem ali estivesse, era aberta. Puxavam pelas mãos os seus filhos e ostentavam marcas dos finais de semana: rostos, braços e pernas arroxeados, olhares aflitos pedindo um pouco de esperança para continuar, lá fora, a vida que esperava por elas.

Num ato de subversão, nas palavras da psicanalista Inajara Erthal, a personagem Cecília Amendoeira empresta a sua voz para que através dela ecoem as vozes das cecílias presas em gaiolas de ouro. Naquele longínquo inverno, essas nem ao menos se atreviam a denunciar maus-tratos e violências entre quatro paredes. Até que um dia, uma chegou. De tanto enviar notas a emissoras de rádio, contando sobre os serviços ofertados naquele Centro de Referência, um locutor passou a anunciar quase diariamente “olha comadre, se as coisas apertarem apareça por lá”.

Tratava-se de uma mulher elegante e belíssima em seus mais de quarenta anos. Chegou pelas mãos da cozinheira da mansão onde morava com o marido e os filhos. Não precisava de nada do que ali era oferecido, e destoava da maioria de suas companheiras de infortúnio que eu entrevistei. Queria apenas deixar feliz a empregada e contar a sua história. E como as outras mulheres, não sabia como sair de um casamento abusivo e que já durava quase trinta anos.

Uma outra veio logo após. Foi salva pela genial ideia do médico que
acompanhava sua primeira gestação. Agredida dias antes de uma consulta, o médico decidiu interná-la em um dos melhores hospitais da cidade. Inativando o agressor, dava a sua paciente tempo para repensar a vida que desejava para ela e o filho.

Antes disse, já havia entrada em contato com o tema.

A jornalista Sandra Gomide foi assassinada em 20 de agosto de 2000, em São Paulo.

Conheci Sandra em 1995. Ela era editora da Gazeta Mercantil em São Paulo, e eu repórter na Sucursal em Porto Alegre. As conversas esporádicas aconteciam por telefone e, quando os plantões coincidiam, versavam sobre matérias (jargão identificando conteúdos jornalísticos em produção) em pauta. Além de comentários normais sobre o tempo, mesa lotada de trabalho em dia de sol aberto, ou no início de alguma noite muito fria.

Em 1997 ela se foi a convite do chefe Pimenta da Veiga, e então namorado, que deixava o cargo de diretor de redação da Gazeta para outro no Estadão. Ainda guardo na memória o dia em que anunciou sua saída, mencionando haver sido a Sucursal de Porto Alegre sua favorita nas lides diárias de uma redação. Foi morta pelo ex-namorado, inconformado com o fim do relacionamento. Impossível não chorar assistindo aos noticiários da TV que detalhavam o crime naquele domingo ao anoitecer.

E eis que veio a pandemia de 2020. Confinada, acompanhava os noticiários pela telinha de meu celular. E, estupefata, li e assisti reportagens mostrando o quanto as mulheres continuavam apanhando durante a pandemia. Por que? Porque vítimas e agressores passavam mais tempo juntos, debaixo do mesmo teto. Pouca coisa mudara.

Levantei de meu espaço de trabalho em casa, e busquei em uma gaveta o caderno onde havia registrado as entrevistas de tempos atrás. Começava a escrever a história de Cecília Amendoeira. Como essa pandemia que chega ao fim, crimes contra as mulheres também têm que parar.

As cenas abusivas vividas pela personagem Cecília foram contadas por Marias, Joanas, Terezas, Luisas, Reginas, Claúdias, Alices, Cristinas, Brunas, Suzanas, Lúcias, Neusas, Márcias, Elianes, Veras, Marianas, Carmens, Iolandas, Sandras, Roses, Sônias, Lauras, Carlas, Lucianas, Julianas, Iaras, Anas, Silvias, Maris, Fernandas, Andreias, Julias, Heloisas, Déboras, Martas, Cecílias que quebram o silêncio para alertar outras Marias, Joanas, Terezas, Luisas, Reginas, Claúdias, Alices, Cristinas, Brunas, Suzanas, Lúcias, Neusas, Márcias, Elianes, Veras, Marianas, Martas, Cecílias…

Entre 2000 e 2020, as muitas revelações públicas desses tormentos
abriram janelas para que mais mulheres fossem salvas. Essa é a minha colaboração.

Sobre a autora

passou por redações sediadas em Porto Alegre, Rio e São Paulo: RBS / Rádio Gaúcha, Caldas Jr./ Correio do Povo, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Revista Veja e Assembleia Legislativa (ALRS), entre outros trabalhos.

É apaixonada por temas ligados à educação. Especialista em Administração / Marketing pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). De volta à universidade (PUCRS) busca especializar-se em Psicologia da Aprendizagem e do Desenvolvimento.    

Durante 2003 entrevistou mulheres vítimas de violência doméstica. Delas ouviu detalhes de cenas que usou para compor o mosaico da história de Cecília, principal personagem de sua primeira escrita longa.

Compartilhe este Post

Deixe um comentário

você também pode gostar

O feminismo chegou ao puteiro

“Comecei a pensar o feminismo e a prostituição a partir de um olhar feminista” As qualificações de Monique Prada, trabalhadora sexual, escritora e ativista, não podem ser descritas em um

Leia mais »