Maria Lídia Magliani: uma vida entregue à arte

Amigos relembram histórias e destacam o legado de um dos maiores nomes das artes visuais do Estado – considerada por muitos também uma das maiores do Brasil. Conhecida pelo trabalho irreverente e corajoso, Maria Lidia Magliani eternizou-se por suas obras impactantes e questionadoras

Foi no final da década de 1970 que conheci Maria Lídia Magliani (1946-2012) na Folha da Manhã, onde fomos colegas. Ela era diagramadora. Na redação, vivíamos “aparições” constantes do Caio Fernando Abreu, amigo muito próximo, que fazia dupla com ela, e ia entregar seus textos. 

Magli, como carinhosamente a chamávamos, ilustrou uma matéria minha, A mulher e o trabalho, que ganhou o prêmio da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) em 1978. Digo que minha amizade com ela era similar à das protagonistas do filme Bagdad Café (1987). Eu, italiana dos quatro costados, vinda de uma família de plantadores de uva da quarta colônia italiana, de Santa Maria, adorava sentar com a Magliani e sua personalidade forte. Irascível, impaciente. E também generosa no olhar para as pessoas que lhe interessavam. Eu era apaixonada pela sua arte, tanto que passei a comprar quadros assinados por ela na galeria da Tina Zappoli.

Eis que anos depois fui ao Rio de Janeiro a trabalho, e Magli estava lá. Horas e horas e horas de muita conversa. Ela morava em Tiradentes/MG. Após uma semana, mandou uma carta, com uma letra desenhada, linda, contando tudo o que estava sentindo e seu profundo desgosto com o rumo que o mundo tomava. Da janela a paisagem bucólica de p´ássaros e vacas. Compartilho parte do que ela escreveu, que guardo com carinho.

Nunca mais falamos. Mais alguns anos se passaram e fui surpreendida com a notícia de sua morte. O que não fazia sentido para mim era a forma discrepante como ela havia partido. Uma das maiores artistas brasileiras morreu sozinha no Rio de Janeiro em condições quase miseráveis, habitando um quarto de pensão na Lapa que se resumia a catre e pia (sem banheiro), defronte à janela que desembocava num pátio interno. 

Mas, como ela mesmo disse no recado que me enviou: “Não termina jamais.” Ela também não terminou. Hoje dá nome a uma rua de Porto Alegre. Se faz presente por meio de sua obra em acervo no Núcleo Magliani do Estudio Dezenove, no bairro Santa Tereza, na capital fluminense, tão bem cuidado por seu amigo Julio Castro, também gaúcho e artista plástico, que conviveu com ela nas temporadas cariocas.

Magli está viva ainda por meio de seu legado artístico. No dia 19 de março, a Fundação Iberê Camargo abre exposição inédita em homenagem à artista. A mostra Magliani reunirá mais de 200 obras provenientes de mais de 60 coleções, incluindo os principais museus do Brasil como Museu de Arte do Rio, Museu Afro Brasil, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Museu de Arte Moderna de São Paulo, MAC-USP, MAC-RS, Museu de Arte de Santa Catarina, MARGS, Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo (Pelotas) e Fundação Vera Chaves Barcellos (Viamão). Com curadoria de Denise Mattar (SP) e de Gustavo Possamai (RS), a exposição inclui trabalhos desde a época de estudante – início dos anos 1960 – até 2012, ano de seu falecimento.

Agora, peço licença para dividir com vocês um pouco da história da Magliani.  

Fátima Torri

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Corpos de proporções volumosas são característicos das obras de Magliani. Foto: F.Zago-StudioZ

Arte que não cabe na sala de jantar, muito menos no quarto das crianças. Arte que questiona, que provoca, uma força visceral que revela o lado sombrio do ser humano, o mais humano que se pode ser. Corpos nus em telas escuras, figuras humanas de proporções volumosas, cores fortes, poemas e títulos emblemáticos compõem a trajetória marcante de Maria Lídia dos Santos Magliani. Nascida em Pelotas, no sul do Brasil, em 25 de janeiro de 1946, a artista plástica nunca se contentou com o que estava diante de seus olhos, ela queria mais. Explorar mais lugares, conhecer mais a essência do ser, provocar mais. 

Considerada um dos maiores nomes das artes visuais do Estado e do país, foi uma das primeiras mulheres negras a se formar em Artes Plásticas no Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 1966, mesmo ano em que promoveu a sua primeira exposição individual. Ao longo dos anos, Magliani ilustrou cenas de solidão, relações complexas, situações opressoras e a vulnerabilidade do ser. Imagens de mulheres deformadas, por vezes grotescas, atadas, corpos que sufocavam a tela. A artista não gostava de definições, fugia das etiquetas, dos modismos e do previsível.

“As pessoas criam rótulos. ‘Tu és um artista dos anos 60; tu, dos 80; tu, da década tal’. Peraí: será que eu cometi o erro de continuar viva? Daqui a uns dias são capazes de me perguntar: ‘Mas tu ainda usa tinta?’. Ora!”, respondeu em entrevista à Revista Aplauso, em 1999, ao falar das relações com a arte contemporânea, mantendo-se combativa em seu campo, como sempre. Paciência não era uma característica que poderia defini-la. Maria Lídia tinha pressa porque já sabia das coisas. “Não sei como, mas ela já sabia. Aprendeu a ler sozinha, olhando o jornal e juntando as letras”, lembra a irmã, Maria da Graça Magliani.

Amigo de longa data da artista, Renato Rosa, marchand de uma das mais reconhecidas casas de leilão do Brasil, a Bolsa de Arte, já falou por diversas vezes sobre Maria Lídia nas suas redes sociais. Em uma das ocasiões, disse que se pudesse definir a obra da amiga em três palavras seriam: ética, personalidade e resistência. “Em vida nunca se pretendeu negra, amarela, mulher, afro, nada disso, nada dessas bandeiras. Sua luta foi a de afirmar-se como um ser normal, queria ser reconhecida como pintora, como artista”, escreveu.

Além do legado nas artes, Magliani também deixou duradouras amizades e admiradores, como a galerista Tina Zappoli, com quem trabalhou desde os anos 1970, antes mesmo de a Galeria Zappoli, em Porto Alegre, existir quando se chamava ainda Galeria Tina Presser.

Sua maior incentivadora, Tina descreve a amiga como uma artista ímpar na arte do Estado e destaca sua trajetória de luta e coragem. “Para construir uma carreira como artista, sendo negra, mulher, pobre, no Rio Grande do Sul, teve que suplantar todas estas limitações e ir além. Avessa à condicionantes que quiseram sempre catalogá-la com isso ou aquilo, preferiu ser ela mesma. Pagou caro por isso, por jamais ter levantado bandeira a favor deste ou daquele grupo. Ela mesma era sua própria bandeira: um ser digno e honesto como poucos. Preocupou-se apenas em expressar a sua verdade. E ela está em toda a sua obra”. 

Arte sem limites

Magliani começou a pintar ainda criança. A irmã, Maria da Graça, lembra dos desenhos feitos por Maria Lídia com borra de café nas paredes de casa. Há quem a classifique como a versão feminina de Iberê Camargo, conta Julio Castro, artista visual à frente do ateliê Estudio Dezenove, no Rio de Janeiro, que dividiu o espaço com Magliani até o falecimento da artista, em dezembro de 2012. Seu trabalho tinha uma marca autoral, gesto e figuração atormentada. “A artista do Sul mais afinada em espírito com a obra de Iberê”, embora nunca tenha sido aluna dele.

O colega de profissão e amigo lembra de Magliani como “uma pessoa muito íntegra, que valorizava as relações, culta, inteligente e de um humor refinado”. Os dois se conheceram em Pelotas, em 1989, e voltaram a se encontrar em 1997, no Rio de Janeiro. “Fomos parceiros em várias iniciativas, como ações educativas com adolescentes do bairro Santa Teresa, relações de intercâmbio com outras comunidades de artistas, fomos juntos para a França e para a Bélgica. Em 2004, ajudamos a fundar a Chave Mestra – Associação dos Artistas Visuais de Santa Teresa”, lembra Castro. 

Personagens de insônia II, 1993. Foto: F.Zago-StudioZ

Além de pintora, como se definia, Magliani desenhava, esculpia, atuava no teatro como figurinista, cenógrafa e atriz, e no jornalismo como diagramadora e ilustradora. Colaborou praticamente em todos os periódicos da chamada imprensa alternativa de Porto Alegre e em São Paulo, com destaque ao jornal Paralelo, estampando a capa da primeira edição. Atuou em Folha da Manhã, Diário de Notícias, Zero Hora, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo, entre outras participações. Também produziu ilustrações de viés político em algumas edições do Jornal Versus, que existiu entre 1975 e 1978, plataforma de resistência contra a opressão durante o regime militar brasileiro. 

Colega de redação de Magliani na Zero Hora dos anos 1970, o jornalista Paulo Gasparotto recorda com carinho a amizade que surgiu de um “encantamento à primeira vista”. Os dois tiveram uma convivência muito próxima fora do ambiente de trabalho. Gasparotto conta que costumava pedir pinturas de presente à amiga. “Tenho gravado na memória seu companheirismo e a criatividade. Comento sempre o sucesso de um blazer criado por ela todo em patchwork formando uma história em quadrinhos com personagens humanos e pequenos animais. Algo absolutamente incomum”, lembra. 

Apesar dessa trajetória ampla, o interesse maior de Magliani sempre foi a pintura, que é seu suporte inicial e compõe a maior parte de sua obra. O fio condutor do seu trabalho: a condição do humano.

A artista ilustrou a capa do livro de poemas O Círculo do Suicida (Ed. Margem,s/d), do jornalista Eduardo San Martin, que hoje vive em Londres, onde foi editor/producer da BBC (World Service) e correspondente dos jornais O Globo e Diário do Sul. A obra foi lançada no início dos anos 1980, em evento especial no Bar Ocidente, em Porto Alegre, no concerto pop ou “rock discurso”, com show de Bebeco Garcia (Garotos da Rua). “É um livro-objeto, tanto que hoje, 40 anos depois, ainda é lembrado como objeto, pelas gravuras e pelo uso das gravuras”, recorda o autor.

O Círculo do Suicida. Foto: Reprodução

Na década de 1960, Magliani chegou a trabalhar também em teatro, ilustrando capas de programas, fazendo cenografia e atuando em peças, como A Celestina (1970), de Fernando Rojas; As Criadas (1969), de Jean Genet, e O negrinho do pastoreio (1970), de Delmar Mancuso, nesta última como protagonista.

Identidade 

Magliani foi uma artista valente e irreverente, que produziu uma obra densa e trágica, e por que não dizer chocante. Não levantou bandeira identitária. Ela vivia a militância e deixava quem quisesse percebê-la.

“Ser uma pessoa de cor negra não interfere em nada na minha pintura, eu não entendo a sempre presente preocupação de pessoas com este aspecto. É minha vez de perguntar por que parece tão excepcional que um negro pinte? Por que a condição social de artistas de cor branca nunca é mencionada? Por que sempre me perguntam como é ser negro e ser artista? Ora, é igual ao ser de qualquer outra cor. As tintas custam o mesmo preço, os moldureiros fazem os mesmos descontos e os pincéis acabam rápido do mesmo jeito para todo o mundo. A diferença quem faz é a mídia. É ‘normal’ ser branco e, portanto, é natural que o branco faça tudo, mas quando se trata de um negro, age como se fosse algo fantástico, um fenômeno – o macaco que pinta! Não gosto disto”, disse a artista em entrevista ao jornalista João Carlos Tiburski, em 1987.

Sem título, 1985. Foto: Fabio DelRe_VivaFoto

Maria L´ídia sempre deixou explícito que sua obra não tinha caráter ideológico, nem pela negritude, nem pelo feminismo ou demais movimentos, mas sim de crítica ao humano. Mas o fato de não estar ligada a nenhum movimento específico não significa que não fosse sensível às causas sociais, e muito menos isenta. A crítica de arte gaúcha Angélica Moraes, amiga íntima de Magliani, lembra que a artista estava sempre atualizada a movimentos que aconteciam nos Estados Unidos, como a luta dos Panteras Negras, e gostava de manter seu cabelo no estilo black power

Infelizmente, não foram poucas vezes que Maria Lídia sofreu episódios de racismo. “Uma vez aconteceu passando na frente de um café no centro de Porto Alegre, que os aspones (pessoas que não tinham qualquer ocupação relevante, embora acreditassem que o tivessem) ficavam todos lá na frente sem fazer nada, olhando as meninas passando pela Rua da Praia. De repente, passa a Magliani com aquele cabelão, e eu acho que os gaúchos se sentiram muito ofendidos com aquela mulher poderosa, e começaram a atirar fósforos acesos no cabelo dela”, lamenta Angélica. 

Flerte literário 

Magliani ainda flertava com a literatura. Nos trabalhos iniciais, costumava escrever poemas. Mas o flerte também pode ter ocorrido na literalidade. Ela e o escritor Caio Fernando Abreu foram muito próximos. “Há relatos de que ele era apaixonado por ela, mas ela não cedeu a este amor meio platônico. Eles desciam a Rua da Praia abraçados, ambos de preto, o que era um acontecimento na época, pela diferença deles, de altura, cor, etc”, conta Flavio Santanna Xavier, procurador-federal que está escrevendo um livro sobre a artista. 

Caio e Magli, segundo ele, fizeram parte de uma geração de visionários que não cederam à crítica fácil ao regime ditatorial. “Os ‘malditos’ foram os únicos que nos deixaram legado cultural importante daquela época e nos anteciparam aspectos como o pop, a liberdade sexual e a luta contra as tiranias”, reforça Flavio.

Sem título, 1980. Foto: Denise Andrade

Magliani não quis ter filhos e tampouco família. Escolheu se dedicar exclusivamente à arte. “Somente os grandes artistas guardam esta obsessão, quase sacerdócio”, comenta o procurador-geral e admirador da artista.

“Eu já sou casada com a arte e os meus filhos são os meus quadros”, costumava dizer Maria Lídia. 

Enquanto a artista estava na universidade, chegou a ter um namorado que estudava Medicina, mas um dia o amado pressionou-a para uma decisão que sempre foi muito certa para Magliani, como conta sua irmã: “Tu escolhe: ou tu casa comigo e deixa a arte ou me deixa e segue com a arte”, disse ele. Ao que Maria Lídia não pensou duas vezes para responder: “Eu gosto demais de ti, mas jamais vou deixar a arte por qualquer coisa ou qualquer pessoa, mesmo tu, que eu gosto muito”. 

Idas e vindas

Nascida em Pelotas, em 1946, Magliani mudou-se em 1950 para Porto Alegre, onde morou no bairro Sarandi com a família, o pai, o funcionário público Antonio Magliani, a mãe, a estilista Eugenia dos Santos Magliani, e os irmãos mais novos, Maria da Graça e Manuel Antonio. 

Magliani começou a desenhar ainda criança. Foto: Acervo Núcleo Magliani

Concluiu o estudo fundamental e médio no então Ginásio Estadual Cândido José Godoy. Sua trajetória no meio artístico começou em 1963, quando ingressou no curso de Artes Plásticas no Instituto de Belas Artes (atual Instituto de Artes) da UFRGS. Formou-se em 1966 com ênfase em pintura. Depois disso, fez uma pós-graduação também em pintura e formação pedagógica na Faculdade de Filosofia, ambas na UFRGS. 

Desde cedo, participou de salões e ganhou o apreço de um dos importantes e influentes professores, Ado Malagoli, que a apadrinhou e incentivou seu trabalho. Sua primeira exposição individual aconteceu na Galeria Espaço em 1966. Entre individuais e coletivas, o número de exposições ao longo da carreira de Magliani ultrapassa a casa dos 100. Sua obra encontra-se em museus e instituições públicas e privadas no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio de Janeiro e São Paulo, além das coleções particulares. 

Maria Lídia tinha problemas de relacionamento com a família. Filha mais velha, como já  trabalhava em jornais como ilustradora e diagramadora, passou a ser o principal sustentáculo financeiro da casa quando o pai abandonou a família. Há relatos de que tenha sido a ânsia de romper com essa obrigação o motivo para não ter mais morado em Porto Alegre.

Em todo lugar

Magliani Transitou ao longo da vida entre Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, deixando um pouco de sua história em cada lugar, e também se apropriando das peculiaridades de cada região na construção de sua poética.

“Costumo ignorar as fronteiras, elas não se formam na minha cabeça e não empresto um significado especial a este ou àquele bairro, cidade, país, minha pátria é ter nascido. Sei pouco demais sobre o planeta para afirmar que pertenço a ele. Sou natural de todas as estrelas que posso ver e minha curiosidade é conhecer o outro lado delas. Ter começado a andar em Pelotas, a ler na Floresta, pintar no Sarandi, dançar nos Moinhos de Vento, expor no Menino Deus, me apaixonar na Rua da Praia não são determinantes, tudo poderia ter acontecido em qualquer outro lugar. Me decepcionar na rua Coronel Vicente ou na Avenida São João dói do mesmo jeito. O lugar sou eu em qualquer parte, é em mim que as coisas acontecem ou esquecem de acontecer”, dizia Maria Lídia.

No final dos anos 1970, mudou-se para São Paulo impulsionada pela aceitação de seu trabalho, que havia sido selecionado na mostra Panorama da Arte Brasileira Atual, promovido pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), e lá morou por 10 anos. Houve então um desenvolvimento significativo na carreira de Magliani. Logo de chegada na capital, já estava inserida no circuito artístico.

Além de pintora, Magliani desenhava, esculpia, atuava como figurinista, cenógrafa, atriz, diagramadora e ilustradora. Foto: Acervo Galeria Tina Zappoli

Em 1989, Maria Lídia mudou-se para Tiradentes, Minas Gerais, absorvendo novas influências e adquirindo novas experiências que atravessam sua produção artística. De lá, escreveu carta a sua amiga pessoal e colega de Folha da Manhã Fátima Torri contando sobre os causos da vida no interior, seu envolvimento com a comunidade local e seu retorno à pintura, depois de um quase um ano afastada das artes. “Depois de três meses enfrentando uma barra nada fácil aí, cheguei aqui doente. Tive crise de insuficiência cardíaca e fiquei de repouso a maior parte do tempo. Tive que reduzir bastante o meu ritmo. E estou fazendo tudo muito mais lentamente”, relatou. 

Em 1999, voltou a residir em Porto Alegre e, em junho de 2000, voltou para o Rio de Janeiro. Embora ainda tenha se mudado mais uma vez para São Paulo entre 2005 e 2006, passou por Cabo Frio, mas acabou escolhendo a capital do Rio de Janeiro como moradia. Daí em diante, houve uma baixa significativa no número de exposições e eventos, mas nunca na produção. Suas atividades estiveram mais ligadas ao Estudio Dezenove e ao circuito artístico do bairro Santa Teresa

Novos tempos

Magliani tinha certa resistência às novas tecnologias, não era fã de telefones nem computadores, preferia as cartas e os livros, cita Luanda Dalmazo autora do trabalho Maria Lídia Magliani: Uma Trajetória Possível, de 2018, para a conclusão no curso de História da Arte na UFRGS. Não era mera resistência tola ao “progresso”, mas uma crítica à forma com que estes novos aparatos alteravam as relações entre as pessoas, tanto no particular quanto em escala social. A artista dizia: “[…] é a solidão no meio da cidade, no meio de um mundo de gente, a solidão de consumo”.

Em outra carta escrita a Fátima, Magliani comenta como passou a se sentir uma estranha no ninho com relação a seus amigos ao longo do tempo e revela seu incômodo com a presença constante da televisão na rotina das pessoas com quem vinha convivendo. “Agora também aqui todo mundo tem vídeo e cada um fica fechado na sua casa na frente de sua tela. Se vou visitar alguém quero conversar com a criatura. Mas tá na hora do jornal, da novela, do jogo ou ela retirou oito filmes na videoteca e quer ver todos”, descreveu à época. 

Personagens de insônia II, 1993. Foto: F.Zago-StudioZ

Uma nave de contradições

Sua última exposição individual antes de falecer foi Procura-se, realizada em 2012 no Estudio Dezenove, no Rio, que trazia pinturas sobre tela e madeira, gravuras, e uma intervenção na vitrine. São obras em preto e branco, que trazem retratos da figura humana e um diálogo/brincadeira com a obra de René Magritte. Ao substituir as cabeças humanas por objetos, como bules e troncos de árvore, a artista avisa: “Ceci n’est pas un Magritte” (“Isto não é um Magritte”) parafraseando a icônica pintura A traição das imagens (1929), onde o artista pinta um cachimbo e afirma que “Ceci n’est pas une pipe” (“Isto não é um cachimbo”). 

No dia 20 de dezembro de 2012, na véspera de sua morte, a artista escreveu um e-mail a um amigo íntimo, confessando o cansaço da vida sofrida: “Eu não ia achar tão ruim se acabasse mesmo. Estou cansada demais para continuar remando nesta nave de contradições.” Naquele período, vivia uma fase de pouca demanda, quadros liquidados e nenhum dinheiro.

Os jornais daquele dia estampavam profecias de que o mundo acabaria no dia seguinte. Enquanto isso, Maria Lídia cantarolava os versos de E o Mundo não se Acabou, de Assis Valente, interpretados por vozes como Carmen Miranda e a Adriana Calcanhoto:


Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando
De aproveitar

Ao contrário da letra, o coração parou de bater e a vida da artista se acabou no dia seguinte, numa nave de contradições. Maria Lídia Magliani morreu no dia 21 de dezembro de 2012, sozinha, no Rio de Janeiro, de parada cardíaca, aos 66 anos. Em uma das cartas escritas quando ainda morava em Minas Gerais, questionou: “Então termina? Não, não termina jamais. Sempre é começar tudo de novo, duvidar e recomeçar”. Sua história não terminou, começa e recomeça por meio de suas obras imortais. 

Os amigos – e ela teve muitos, das mais variadas classes sociais – ajudaram nos custeios de seu funeral. A Julio Castro coube desmontar o quarto da pensão onde ela morava, inventariar seus trabalhos que, mais tarde, com consentimento da família, passaram a fazer parte do Núcleo Magliani, um centro de referência do seu trabalho, como um braço do Estudio Dezenove, levando adiante pesquisa, preservação e a constituição de um arquivo físico e um banco de dados organizado para ajudar a garantir seu legado. 

Série “Todos”, pinturas em recorte em tela sobre madeira. Fotos: Christina Bocayuva

Apagamento

Segundo pesquisadores, apesar da relevância da sua obra, há ausência historiográfica de Magliani. O que se sabe é que ainda são muitos os artistas sul-rio-grandenses que têm sua história esperando para ser contada. Porém, neste caso, não se pode deixar de considerar também “o silêncio como estratégia ideológica no discurso racista brasileiro”, como diz Paulo Vinicius Baptista da Silva em artigo. 

Na visão de Julio Castro, a obra de Magliani não foi melhor inserida pelo circuito de arte por racismo. “É importante falar disso, do preconceito racial enraizado na nossa sociedade, do persistente apagamento da produção de artistas negros que a elite intelectual branca promove ao longo da nossa história. Hoje, vejo um momento de revisão crítica dessa situação com um progressivo número de artistas, agentes culturais e curadores negros como protagonistas, há uma consciência nova surgindo por esses direitos”, enfatiza.

A Fala Feminina te convida a conhecer as obras da Magliani, para que seu legado possa em algum momento ocupar espaços ainda maiores, tal qual a artista merece.

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