Maternidade, Vida

Ser mãe traz felicidade?

Se uma mulher nasce com útero e seios, naturalmente, ela deveria ser mãe, certo? A natureza está dizendo que essa função deve ser preservada. E praticada.

Será?

Aqui, na Fala Feminina, a maternidade é considerada tema fundamental. É a partir da discussão sobre o desejo ou não das mulheres terem filhos que vamos refletir sobre o futuro da humanidade. E, tendo filhos, que mães podemos ser? A precariedade com que vivem muitas mulheres já invalida qualquer discussão sobre o aprofundamento na qualidade da função materna.

Desde a infância, somos levadas a entender que ser mãe é função natural da mulher. E devemos nos realizar com a maternidade. Só que, quando somos mães, somos obrigadas a ser felizes. E a dedicar nossa vida aos filhos.

Os homens? Vão bem, obrigada! Deles, não é cobrado serem pais. Nem, se forem, que sejam perfeitos como a mãe.

Ser mãe não é compulsório. Ser uma boa mãe são outros quinhentos. Somos mães possíveis.

E por que queremos ser mães? Segundo a psicanalista Vera Iaconelli, que estuda a parentalidade, o que queremos é parir a nós mesmas. Produzir, de uma forma narcisista, uma versão melhorada de nós mesmas. Como se fôssemos um rascunho que precisa ser passado a limpo. Ao nos depararmos com um ser desconhecido, sentimos o primeiro impacto: como amar alguém que não sou eu e que, de certa forma, frustra o meu projeto de me fazer uma mulher melhor do que aquela que os meus pais fizeram?

Aqui, nesta matéria, três mulheres nos falam de sua decisão, inarredável, de não ter filhos.

A psicóloga e publicitária Lu Paim, a administradora Cristiane Hoffmann, e Lilian, também publicitária. Temos as mães solo Lilian Cordeiro, professora universitária e Taty Guedes, yogaterapeuta.

E a Fernanda Pandolfi, casada recentemente, e que é cobrada sistematicamente com a pergunta: e os filhos, quando vêm?

Ah, a gente só queria ser feliz! Mas, não necessariamente, essa felicidade está no papel de mãe.

Fátima Torri, editora

Ter ou não ter, eis a não questão

Quando a Fátima me convidou a falar sobre a minha decisão de não ter filhos, comecei a refletir muito sobre como iria escrever, qual seria a abordagem, me dei conta que este é um dos assuntos pelo o qual mais me interrogaram, muitas vezes de jeitos completamente invasivos, mas que eu nunca havia parado para colocar de forma organizada tudo o que penso e sinto sobre esse tema, portanto o que vocês lerão a seguir é um exercício de reflexão.

Pensando sobre o tema, me dei conta que na verdade eu não poderia escrever sobre as razões pelas quais eu decidi não ter filhos, simplesmente porque não foi essa a decisão que tomei, mas a consequência de eu nunca ter decido ter filhos. Há uma diferença importante em falar sobre decidir não ter e não ter decidido ter, mas só me dei conta disso agora.

A grande diferença é que a maternidade não foi um experiência pela qual eu decidi não passar, mas apenas, assim como muitas outras, uma experiência pela qual eu nunca me senti convocada. Durante muito tempo nas inúmeras vezes que fui questionada sobre meu desejo de ter filhos eu respondi: “olha, em princípio acho que não terei, mas não sou fechada a mudar de ideia”. Essa era uma resposta sincera, porque a verdade é que nunca sonhei em ser mãe, mas também nunca rejeitei a ideia. Desde pequena falava que se um dia fosse ter filhos eu escolheria a adoção, sabe-se lá a razão disso, mas era assim que eu sentia. Mas esse dia da tomada de decisão nunca chegou.

Incontáveis foram os comentário, teses, respostas a perguntas que eu não tinha que escutei e ainda escuto, mesmo que menos, um benefício dos quarenta. Havia os clichês, como uma hora o relógio biológico vai tocar — nunca tocou — quando encontrares o amor, vais mudar de idéia — quis o destino que eu encontrasse um amor com a mesma forma de pensar. Muitos negavam dizendo ‘Há, tu vais mudar de ideia e vais ser uma ótima mãe’. Os que tentavam me sensibilizar dizendo: ‘imagina uma Luluzinha — eu mal posso comigo, jamais teria uma cópia. Os terroristas desumanos dizendo: ‘Quem vai cuidar de vocês na velhice’, parece mentira, mas ouvi isso incontáveis vezes e esse sempre foi um dos mais bizarros argumentos de convencimento, como se filhos fossem sinônimo de previdência privada. Tem os surpresos, pois eu realmente gosto de crianças e levo jeito com elas, então como não ter filhos? Sem contar todas as vezes que tentaram me convencer de que filhos são a melhor coisa da vida e pior, que a vida de uma mulher nunca é completa sem filhos, muitas mulheres inclusive me falaram isso.

Mas havia uma pergunta que de certa forma me pegava e para ela dediquei sessões de terapia e iniciei o processo de congelamento de óvulos: ‘E se você mudar de ideia?’ E ainda mais provocativo ‘E se você mudar de ideia e for tarde demais?’ Quando eu tinha 36 anos ouvi essa pergunta de minha ginecologista, tava no papel dela, mas um tanto moldada pelo caldo cultural de que se é mulher, será mãe. Assim sendo, resolvi iniciar os 4338 exames dos mais simples ao mais invasivo, tudo para saber se, apesar dos 36 anos meu corpo ainda seria capaz de gerar e abrigar um bebê que eu nem sabia se um dia iria querer gerar. A cada exame mais eu me perguntava qual era razão daquilo tudo e a única resposta que eu chegava era que congelar óvulos era a possibilidade de esticar o meu direito a dúvida, nada em mim sinalizava a vontade de ter filhos, eu tinha — e tenho — mil planos e sonhos, mas nenhum passava nem perto do desejo de ser mãe. Então para quê, para não me arrepender?

Alguns exames mais tarde e uma conversa aberta e profunda com meu marido ficou claro que somos felizes do jeito que jeito que estamos e se um dia mudarmos de ideia a adoção pode ser uma opção. Demorei a ver com clareza que o risco do arrependimento é inerente a quem vive. A gente sempre pode se arrepender de fazer ou não, de ir ou de ficar, de mudar ou de não mudar, de casar ou comprar uma bicicleta, de grandes ou pequenas decisões. Nesse caso, eu acho melhor se arrepender de não ter tido do que me arrepender de ter tido sem todo o desejo que uma nova vida merece. Amo crianças, mas não tenho HOJE a menor vontade de ser mãe.

Lu Paim

Já cuidei demais

Desde muito muito cedo decidi que não queria ter filhos, acho que essa decisão foi tomada por tudo que vivi na minha fase adolescente onde cuidava de meus irmãos menores para que minha mãe pudesse trabalhar.

Depois, cedo, aos 14 anos, comecei a trabalhar como babá para ajudar na renda familiar. Depois cuidava dos sobrinhos para que minhas irmãs pudessem sair para trabalhar. Ficava responsável de levar médico, ao posto para vacinar, tinha todo cuidado com higiene e alimentação das crianças — que eram pequenas, algumas bebês. Sempre cuidava mais de duas ou três crianças ao mesmo tempo. Enfim, com isso acho que já fiz papel de mãe tão cedo que optei pela vida sem filhos.

Observo ao redor as pessoas com experiências e dificuldades com filhos e penso que tomei a decisão certa para mim. Acho que não estou mais tão nova, aos 42 anos, para já ter estabelecido desde 14 anos o fato de não querer passar ou sofrer tudo o que presenciei minha mãe querida viver, dificuldades para nos sustentar e nos criar. Foi fase difícil para ela e para nós, vivendo de aluguel, contas sempre atrasadas, alimento que muitas e muitas vezes faltava. Eu optei por viver para mim. Filhos podem vir e serem maravilhosos, mas também podem ser um fardo bem pesado que uma mãe levará de preocupações o resto de sua vida, inclusive na velhice. Eu optei pela minha liberdade dessas “obrigações” de mulher, de mãe e que a sociedade muitas vezes “classifica”. Hoje tenho meu espaço onde chego e vivo o meu silêncio e o meu descanso livre de qualquer situação de ansiedade ou preocupação com filhos. Hoje minhas energias são concentradas em cuidar bem da minha mãe e dar para ela conforto e cuidado para ter uma boa velhice.

Meus planos para um futuro breve é poder morar fora do país em breve. Trabalho muito, muito no momento para poder fazer capital e ter como me manter futuramente em minha velhice. Gosto de realizar minhas viagens, onde sempre tenho um ganho cultural e emocional, que me permitem voltar renovada cheia de energia boa para continuar com minha jornada.

Minha infância foi cheia de momentos e situações que me moldaram para uma busca melhor do momento futuro. Essas dificuldades fizeram e foram um pilar onde eu valorizei cada oportunidade que foi se abrindo, fui estudando e me capacitando cada vez mais e mais, para adquirir o meu hoje melhor.

Cristiane Hoffmann

Não me vejo como mãe

Meu nome é Lilian, tenho 42 anos, sou publicitária.

Sou “casada” há 5 anos (moramos juntos mas não casados oficialmente), e já tive outros relacionamentos também duradouros.

Tenho um irmão, mais velho, a gente tem uma diferença de uns 4 anos.

Minha infância foi ótima até a separação dos meus pais, depois disso as coisas foram só piorando. Depois de algum tempo identificamos que minha mãe tinha um alto grau de depressão e, a partir desse momento os papeis em muitos casos se invertiam, mesmo com as dificuldades pelas quais passamos, e que foram com certeza com um peso muito maior no que diz respeito as questões emocionais do que financeiras, tenho sim ótimas lembranças da minha infância.

Eu sempre fui um pouco rebeldezinha, e nunca demonstrei essa vontade de ser mãe. Sempre gostei da minha independência, de ter essa liberdade.

Pode parecer egoísmo, e talvez até seja, mas não me imagino cuidando de uma criança. Não que eu não goste, ao contrário, amo meus sobrinhos, mas quando chega no final do dia a gente “devolve”, e deu (risos).

Eu sempre tive um apego bemmm maior pelos animais, isso sim é algo que carrego desde a infância. Então, acho que minha visão, filho dá muito trabalho, educar, sustentar, privações, sono, grana, enfim.

E o que mais me perguntam é: mas e quem vai cuidar de ti na velhice?

Como se filho fosse garantia de cuidado, e sabemos bem que não é.

Não sei quem vai cuidar, possivelmente algum lugar para Seniors no futuro, uma colônia de amigos na mesma situação. (risos)

Então no momento não me apego nisso, de verdade. Vivo a vida porque é pra isso que viemos.

Além de tudo eu sempre me priorizei e priorizei a minha carreira. Meu sonho de vida é ser bem sucedida, poder viajar pra algumas partes do mundo, seguir no esporte que escolhi pra mim (equitação), e quem sabe no futuro transformar o hobby em projeto de vida de alguma forma.

Mãe solo, uma expressão simbólica do feminino


Lilian Cordeiro, professora da rede federal. Formada em artes visuais e com algumas especializações e mestrado na educação. Doutoranda na mesma área.
Mãe solo da Maria Clara, adolescente de 16 anos.

Quando ouço essa expressão “mãe solo”, não me reporto somente à questão de ser mãe sozinha, mas também às questões simbólicas do feminino. Solo, terra: espaço da mãe. Mãe solo é aquela que contém, que recolhe, que aterra, que dá a segurança ao filho em seu crescimento e tudo isso sozinha.

Mas deixemos o papo simbolista e vamos a minha experiência. Nunca quis ser mãe solo. Sempre afirmei entre amigas: jamais teria uma produção independente! Então, estando casada há cinco anos, decidimos ter um filho. A Maria nasceu e logo após completar seu primeiro ano, o pai, antes dedicado e parceiro, resolveu pedir o divórcio e constituir outra família. Meu mundo caiu! E aquilo que eu nunca quis se tornou realidade, estava sozinha com um bebê que, ainda por cima, tinha tido episódios convulsivos e precisava de tratamento e acompanhamento de vários profissionais. Tudo isso somado uma intensa depressão pós parto, que teimava em não passar.

E lá estava. Fui acometida de novo processo depressivo, longo e muito doloroso. Ao mesmo tempo, ao me ver com uma criança totalmente dependente de mim, me impedi de me lançar ao mundo para trabalhar com toda a liberdade que eu almejava. Quando nos separamos estava desempregada e fazendo mestrado. Defendi minha dissertação 10 dias depois de assinar os papéis do divórcio. Precisei trabalhar e cuidar da minha nova fase profissional. Desenvolvi uma culpa que ainda não consegui superar. Faz 16 anos. Amo minha filha, mas sempre tive muitas dificuldades em lidar com a maternidade. Não consegui dar os limites necessários. Maldita culpa. Hoje, lidar com uma adolescente que não tem claro até onde pode ir, está sendo muito difícil.

Somado a tudo, tive muitos desafios com relação à família do pai de minha filha, que me relatou um abuso. Sozinha pra lidar com tudo, me apoiei em muitos profissionais, tanto para mim quanto para ela. Seguimos na terapia e seguimos nos estranhando como mãe e filha. Não sei como será a nossa relação. Não sei em que parâmetros vamos reconstruí-la ou mesmo construí-la.

Mãe solo. Mãe terra. Toda mãe solo precisa de outra que lhe acolha.

Somos ótimos juntos

Eu nunca sonhei ser mãe. Não via no meu futuro casamento, uma criança, sonhava viajar o mundo, como muitas de nós sonha.

Eu estava morando na Irlanda há 6 anos quando conheci o pai do William. Trabalhávamos juntos, nos vimos todos os dias, foi amor à primeira vista e em 2 anos estávamos casados. Um ano depois, engravidei e William nasceu em julho de 2010.

Um dia antes de o meu filho completar 5 meses fora do meu ventre, o pai dele pediu a separação. Era antevéspera de Natal. O que veio depois foram meses turbulentos, com duas mudanças de país, dias em que a depressão pós-parto quase tomou conta de mim, e uma criança pequena para eu, sozinha, cuidar.

Já de volta no Brasil, moramos 6 anos com meus pais até o universo se alinhar e conseguirmos tocar nossas vidinhas. Moramos hoje nós dois, com nossos gatinhos, nossos livros e games.

A maternidade muda a gente de maneiras indescritíveis. Dizem que quando nasce uma criança, nasce também uma mãe, porque realmente quem éramos antes do parto morre, vai embora no sangue e na placenta. A pessoa que pega seu recém-nascido no colo já é outra mulher.

E aí começamos a ver que somos invisíveis para sociedade, para a política e a cultura em que vivemos. Criança incomoda, chora, corre, faz barulho, chuta a poltrona da frente. Quando a gente chega nalgum lugar com a criança pendurada, já recebemos os olhares hostis.

E a maternidade solo é ainda mais dura. Diz o ditado que é preciso uma aldeia para educar uma criança e, no entanto, na prática nos vemos muito sós. É um malabarismo poder trabalhar, cuidar da criança, da casa, levar pra lá e pra cá sem rede de apoio. Muita gente diz “conta comigo”, mas na hora que precisamos, mesmo, são poucos que virão.

Eu e William, porém, somos privilegiados de muitas maneiras. Além de não nos faltar o básico, como falta a centenas de milhares de mães solo no Brasil, ainda tenho uma carreira que me possibilita ter horários flexíveis, então passamos muito tempo juntos, conversamos muito, e no fim das contas eu acho ótimo ser a única responsável por tomar todas as decisões que se apresentam em nossas vidas.

O pai dele mora nos EUA, é uma presença financeira, e não sei qual impacto essa ausência emocional e afetiva tem no William. Ele nunca conviveu com o pai, para ele a família sempre fomos nós dois, seus avós maternos, seu tio e primo. O outro lado da família ele já viu em fotos, sabe que existem, e é isso. Ainda assim, já temos mais que muitas crianças cujos pais sequer aparecem em seus registros.

Estamos bem, somos ótimos juntos, e eu faço meu melhor para que ele tenha uma infância feliz. Criamos história e memórias juntos todos os dias.

Eu sou muito mais feliz desde que renasci mãe e, mesmo nos dias pesados, acho que é o melhor para nós dois.

Taty Guedes

A cobrança pelo próximo “check”

Crédito foto: Lenara Petenuzzo

Das poucas certezas que já tive na vida, a vontade de ser mãe é uma delas. Aos 30 anos, também estive perto de uma certeza: a de que o amor conjugal não era para mim. Após uma série de encontros errados e expectativas frustradas — e não eximo minha parcela de culpa nisso tudo —, cheguei à conclusão de que seguiria sozinha. E assim foi. Vesti uma mochila de 20 quilos nas costas, trancei uma menor de 10 quilos à frente, e encarei o mundo por um ano. Sozinha. Foram 37 países dos cinco continentes e uma volta ao mundo que, na verdade, se traduziu na volta em uma pessoa. Se neste processo eu titubeei sobre a certeza de ser mãe? Nunca. Nem um pé atrás sequer. Inclusive, lá pelas tantas, no Camboja, espiei possibilidades de adoção. Uma certeza não estava conectada à outra. Estávamos em 2017, por Deus! A possibilidade de ser mãe solo não me parecia um tabu. Como sentia vontade de passar pelo processo de gravidez, também investiguei o processo de congelamento de óvulos e aplaudi a tecnologia e a ciência que nos favorecem em novas opções, inclusive nos dando a chance de não sofrer tanto com o tique-taque do relógio biológico.

O que era curioso nesta época: como eu estava solteira, raramente me perguntavam se eu tinha o desejo de ser mãe. Ou, quando questionavam, era jogando para um lugar distante, mais de sonho do que realidade. E se eu afirmasse, “sim, serei mãe solo”, poderia ainda incentivar uma sobrancelha arqueada, sutilmente, naquela reação instintiva ao desconforto. Mas o destino costuma gargalhar, com perdigotos e tudo, na cara dos nossos planos. E, na semana seguinte da volta da volta ao mundo – com o perdão da redundância – encontrei o Felipe. Em menos de dois anos, estaríamos casados e vivendo uma vida a dois. Com sorte e por afinidade, meu marido também sonha em ser pai e a vontade de filhos compartilhando do nosso cotidiano faz muito sentido. Mas… dentro do nosso tempo e das nossas condições.

O que percebo nestes dois anos de casada é que a aliança no meu anelar esquerdo reflete em uma quase tara da sociedade por padrões de comportamento e uma lista de “checks” de rituais cronológicos. Está namorando? Tem que casar. Está casada? Tem que ter filho. Está com o primeiro filho? Tem que vir o próximo. Como estou beirando os 35 anos, converso muito em meu círculo de amigas, casadas e solteiras, sobre a pressão — que se não bastasse vir do corpo, também vem de amigos, familiares e desconhecidos. E, analisando a mudança de conduta das pessoas no meu antes e depois do véu e grinalda, percebo que é uma questão social, tradicional e com um quê de machismo, vamos lá? Não sou mãe, nunca passei por uma gestação, mas sou mulher, entendo um pouco das mudanças do corpo feminino e consigo avaliar que o processo de gravidez — desde a concepção até o nascimento do bebê — é 100% íntimo. Individual. Particular. Único.

Eu decidi que quero ser mãe — e foi bem antes de ter um marido. Mas muitas e muitas mulheres não compartilham desse desejo e, vejam bem, têm um companheiro. Então, convido a você que chegou até o final desse texto para fazer a seguinte reflexão antes de indagar, mesmo que lhe pareço um ato ingênuo, qualquer mulher sobre a condição maternal: ela pode enfrentar problemas de fertilidade, ela pode ter sofrido um aborto, ela pode estar tentando, ela pode ter questões psicológicas importantes envolvidas, a vida sexual dela não lhe diz respeito, e, por fim, ela pode não querer. Sim, ela pode não querer. E, ainda bem, já é livre para isto.

Fê Pandolfi

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