Quando nasce uma mãe, nasce uma líder

Amigas criam empresa de consultoria que valoriza as características da maternidade como instrumentos de desenvolvimento no mundo corporativo

Maternidade e carreira podem ser, sim, dois mundos muito bem vividos para uma mulher ao mesmo tempo. E mais: uma mãe pode ser uma profissional ainda melhor no meio corporativo. Essa é a premissa das amigas e sócias Susana Zaman e Luciana Cattony, fundadoras da consultoria Maternidade nas Empresas (MNE). Desde 2017, a dupla se dedica a mostrar o quanto o universo materno tem a agregar ao mercado, trabalhando o tema da equidade de gênero e da valorização da parentalidade no meio corporativo. Susana e Luciana mostram que a parentalidade não precisa ser vista como um desafio, mas como fator de autodesenvolvimento e impulso de carreira.

— Mães e pais desenvolvem habilidades através da experiência de cuidado, que podem ser levados para a carreira, fazendo deles profissionais ainda melhores — enfatiza Susana.

Mãe da Laura e do Nabil, Susana é mestra na temática da Equidade de Gênero pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professora do primeiro MBA de Diversidade do Brasil. Formada em Engenheira de Produção e especialista em Gestão Estratégica de Pessoas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), conduziu sua carreira por mais de 15 anos em gestão de pessoas. Nos últimos cinco anos, vem trabalhando a questão de transformação de cultura com foco na criação de ambientes que favoreçam a presença feminina, a parentalidade e a equidade de gênero, conceito que valoriza e dá visibilidade a homens e mulheres igualmente.

— Tudo isso veio do despertar do nascimento da minha primeira filha. Naquele período, decidi empreender, fundei o clube de assinaturas Nutrimãe, pois não me via voltando para o universo corporativo. Mas foi quando fiquei grávida do meu segundo filho que entendi que minha carreira, que sempre esteve em ascenção, começava a se colocar numa posição de retrocesso por causa da maternidade — recorda. 

Susana não está só. Pesquisa divulgada pela Revista Crescer em 2019 revelou que 61% das mulheres relatam ter a carreira prejudicada pela maternidade. No Brasil, 48% das novas mães saem do mercado de trabalho até 24 meses após o retorno da licença-maternidade, segundo dados da pesquisa FGV – The Labor Market Consequences of Maternity Leave Policies: Evidence from Brazil, de 2016. Entre as que seguem empregadas, muitas não são consideradas em promoções e têm de lidar com uma carga de responsabilidade sobre os filhos maior do que os pais, além da pressão social para ser uma “boa mãe”. 

Com os dados em mãos e a ideia na cabeça, surgiu a parceria com Luciana, que é mãe do Henrique e mestra em Design Estratégico pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), além de TEDx Speaker. Formada em Publicidade e Propaganda, Luciana é especialista em User Experience e idealizadora do projeto Real Maternidade. As duas ingressaram no mestrado em 2019, depois de três anos atuando em consultoria. Foi o passo fundamental para posicioná-las como pesquisadoras da área. O objetivo da dupla é transformar culturas organizacionais, tirando a maternidade do lugar de obstáculo, amplificando o olhar de que o cuidar transforma e mostrando que a criação de filhos e filhas é um papel social. Susana e Luciana atuam para que a maternidade seja vista como potência.

— Trabalhamos para que não seja um desafio, que não precise ser feita a escolha entre ser mãe ou ser uma profissional. Isso não faz sentido. Nosso sonho é que não exista essa dualidade no futuro. Trabalhamos hoje para que nossos filhos não tenham que sofrer esses impactos ou sentir toda essa pressão que o tema maternidade e carreira traz. Está na hora de mudar a perspectiva com amor, conexão, narrativas regeneradoras, vontade de transformar e muitas vozes — comenta Susana. Neste mês de maio de 2022, a MNE lançou uma campanha pela valorização da maternidade. A consultoria convidou vozes potentes para compartilhar suas experiências sendo mães que trabalham. O projeto inclui a atriz Zezé Motta, a comunicadora Cris Guerra, as jornalistas Natalia Daumas, Lorena Coutinho, Izabella Camargo, Daniela Arrais e Mariana Ferrão e a cantora Luiza Possi.

Dentro das empresas

Com o MNE, Susana e Luciana prestam consultoria no mundo corporativo. O principal trabalho das duas é entender os desafios, as dores e os dilemas que envolvem a temática da parentalidade no contexto de cada empresa e ajudar a desenvolver um programa de acolhimento, criando soluções que atendam os desafios de todos os atores envolvidos na questão: mães, pais, líderes e setor de Recursos Humanos. 

— Já revolucionamos a forma com que empresas como a Suzano, Hotmart, Magalu e Whirlpool enxergam a parentalidade e a equidade no universo corporativo — cita Susana. — As empresas não fazem isso porque são boazinhas. Isso gera resultado de negócio, as pessoas livres, sendo quem elas são, tornam-se mais produtivas — completa Luciana.

Além de atuar na criação de políticas e ferramentas que propiciem esse ambiente inclusivo, as duas promovem capacitações e webinars para qualificar a experiência da parentalidade e, a partir disso, conquistar ambientes mais humanos e acolhedores, gerando reflexão e transformação rumo a um mundo com mais inclusão, equidade e valorização da parentalidade. A partir do momento que são oferecidas oportunidades de crescimento para todas as pessoas, mais mulheres alcançam posições de liderança. Segundo a empresa norte-americana de consultoria Mckinsey & Company, no relatório Delivering Through Diversity (2018), as companhias com maior paridade de gênero no topo das organizações têm 21% mais chances de apresentar resultados acima da média do mercado.

Susana e Luciana apresentam um novo olhar para as habilidades da maternidade, como empatia, gerenciamento do tempo, produtividade, gestão de crises, formação de talentos e liderança, despertando consciência e orgulho não apenas nas profissionais que são mães, mas na equipe como um todo. Quando empregadas nas organizações, estas características proporcionam uma forma de agir e de enxergar o mundo que tornam o ambiente de trabalho muito mais completo. O tema é aprofundado no ebook do Maternidade nas Empresas: https://bit.ly/EbookHabilidadesMNE

— As empresas têm muito a aprender com as mães. Desde a estruturação de uma rede de apoio até a organização de rotinas próprias de toda mulher e profissional, a mãe é desafiada a testar modelos mais adequados ao seu perfil. Quando nasce uma mãe, nasce uma líder — ressaltam.

Viés da maternidade

É comum cair na “armadilha” de pensar que, após a maternidade, as mulheres não estarão mais interessadas em suas carreiras. Porém, o trabalho desenvolvido por Susana e Luciana tem mostrado que retomar a vida profissional é combustível para a maioria das mães. O viés da maternidade, além de ser um grande equívoco, acaba intensificando as desigualdades de gênero e leva à falta de acolhimento das mães. Levantamento divulgado em 2021 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou que 54,5% das mulheres com 15 anos ou mais integravam a força de trabalho no país em 2019. Na faixa etária entre 25 e 49 anos, o nível de ocupação entre as mulheres que têm filhos de até três anos de idade era de 54,6%, abaixo dos 67,2% daquelas que não têm, conforme publicado pela Agência Brasil. Em um panorama geral, falta incentivo por parte das empresas, que acabam enxergando a maternidade como um empecilho para o desenvolvimento profissional das mulheres. O desejo de ser mãe, por exemplo, é uma pergunta muito ouvida pelas mulheres em entrevistas de emprego, o que não acontece com os homens. As escolhas pessoais masculinas dificilmente são levadas em conta na hora das contratações.

— A sociedade exige que mulheres trabalhem como se não tivessem filhos, e sejam mães como se não trabalhassem fora. Conta difícil de fechar, hein — observam Luciana e Susana.

Para começar a mudar este cenário, é importante, entre outras ações, trazer os homens para a narrativa e incentivar o compartilhamento das tarefas. A pressão sobre as mães começa a diminuir quando há presença da rede de apoio. Quando se percebe que um filho ou filha é uma responsabilidade social e não somente responsabilidade da mulher. Todas as pessoas são agentes de transformação.

Nova forma de liderar

A maternidade é algo que transcende o aspecto biológico. Mesmo quem não é mãe pode enxergar o todo sob a ótica do cuidado e da empatia, atributos que estão, fortemente, associados ao maternar. O líder do passado, aquele que cobra, está dando espaço aos líderes do presente e do futuro, que orientam e cuidam. Esta “nova” forma de liderar está ligada às pessoas que constroem legados e deixam suas marcas por onde passam.

Susana e Luciana trabalham para que o mindset da maternidade seja incorporado nas organizações. O MNE quer mudar as estatísticas e desconstruir padrões que levam a retrocessos que muitas mulheres acabam enfrentando em suas carreiras.

— A geração de filhos é um projeto social, vai muito além de ser uma coisa da vida privada. Uma nação que reconhece que crianças são o seu futuro tem o entendimento de que esta é uma pauta importante para os seus cidadãos. O que nos motiva é transformar esse olhar sobre maternidade e carreira — finaliza Susana.

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