Maternidade, Trabalho, Vida

Médica e mãe de UTI – uma heroína da vida real

Em tempos como o que vivemos, de uma pandemia cruel, que além de tirar centenas de milhares de vidas no Brasil, nos priva da nossa liberdade, da presença de gente que amamos, de um bom abraço, só o fato de ser médica atuando na linha de frente já coloca a Luciana Azevedo Calefi, 40 anos, em patamar de guerreira. Nosso respeito tende a pelo menos quadruplicar quando descobrimos que ela é também mãe de nada mais nada menos que quatro crianças. Leonardo, Marina e Rafaella, de 1 ano e 11 meses, e Antonella, de  3 anos.

Nascida em São Paulo, filha de médico cirurgião oncológico, com pais cearenses e primos de primeiro grau, Luciana teve a vida pautada pela medicina desde que chegou ao mundo. Nasceu quando o pai estava em São Paulo fazendo residência. Até os seis anos de idade, ficava indo e voltando da capital paulista para Fortaleza em função do mestrado do pai em SP, que ficou na dúvida se ia morar lá ou cá. A partir dos 7 anos, passou a morar em Fortaleza, já que a família entendeu que viver em  São Paulo com três filhos era muito desafiador.

Luciana seguiu os passos do pai e fez medicina no Maranhão, na Universidade Federal, em São Luís. Chegou em São Paulo em 2006, para três anos de residência. No último ano da faculdade, conheceu o marido Élzio num bloco de rua da Vila Madalena. Mais uma vez dividida entre Nordeste e Sudeste, optou pela terra da garoa. Élzio e Luciana casaram em 2011. Ele, jornalista, estava insatisfeito com a profissão. Mudou os rumos da carreira e foi estudar culinária. Ela fez mestrado em infectologia hospitalar na Unifesp, na federal de São Paulo, e doutorado em Hepatite C na USP, Universidade de São Paulo.

Em 2013, começaram as tentativas para engravidar da Antonella, o que aconteceu em  2016. Luciana realizou a defesa do doutorado com 36 semanas de gestação. O resto da história você confere a seguir, com o depoimento sobre duas versões dessa heroína: a mãe e a médica.

A versão mãe

“Quando a Antonella nasceu foi aquele choque para mim. Eu olhei e falei: ‘o que é que eu fiz da minha vida?’. Eu que sempre saía, que estudava, vi tudo indo por água abaixo. Lembro que quando a gente resolveu ter a Antonella, eu pensava em logo na sequência ter o segundo filho. Só que me vi no desespero e até achei que estava com depressão pós-parto, foi muito ruim. O Élzio sempre viajava, e eu ficava muito só. Deu aquele pavor, mas aos poucos as coisas foram melhorando.

“Eu não tive aquele ‘amor infinito'”

Para mim, isso aconteceu depois de seis meses. Estava acostumada a sempre ter horários e a maternidade não tem isso, você é mãe 24 horas. Antes da Antonella, eu tive um aborto espontâneo. Eu estava com dois meses e oito semanas e meu obstetra falou que era comum, ainda mais que eu resolvi ser mãe acima dos 35. Três meses depois eu engravidei novamente. Quando a Antonella estava para fazer um ano, eu falei: ‘acho que está na época da gente tentar ter outro filho’. 

Eu lembro como se fosse hoje o dia em que a gente descobriu a segunda gestação. Atrasava um dia e eu já fazia o teste. Eu mesma pedi o beta hcg e vi o positivo. Fui toda feliz para o médico com o Élzio e falei: ‘doutor, novidade: estamos grávidos!’, ele pegou o exame e perguntou quando foi a última menstruação, quantos dias e mandou eu ir me trocar para fazer o ultrassom. Eu nem me toquei mas, na verdade, ele ficou preocupado porque o exame beta hcg era de 3.000 com um dia de atraso e normalmente é 45/60, Depois ele comentou que pensou: ‘ou são múltiplos ou é um tumor’. Eu já tinha 39 anos. 

Quando eu deitei na maca, ele colocou o aparelho e falou: ‘parabéns, vocês serão pais de gêmeos, estão aqui as duas bolinhas’ e mostrou os dois sacos embrionários. O Elzio começou a chorar e eu comecei a brincar: ‘Isso deve ser intestinal, é estranho, não é possível, não tenho gêmeos na família’. E enquanto ele estava olhando o aparelho começou a ver a terceira bolinha. Virou e falou ‘parabéns! São trigêmeos!’. Meu marido, que estava chorando, ficou branco, eu fiquei muda. Nós já sabíamos dos custos de um filho em São Paulo, imagina de quatro. Pensei: ‘vou embora, voltar a morar com meus pais em Fortaleza’. 

Luciana e os trigêmeos.
Trigêmeos com a mãe.

Meus filhos nasceram de 32 semanas e quatro dias, mas foi uma gravidez muito tranquila e eu era muito desencanada, não fiquei procurando informações. Parei de dirigir, porque o médico proibiu, parei de trabalhar porque ele proibiu também, tive que fazer repouso e engordei 12 kg.

Fui fazer o ultrassom de rotina e a Marina parou de crescer e ele já mandou ir para o hospital internar e a gravidez foi interrompida. Marina e o Leonardo  nasceram com 1,500 kg a e a Rafaella com 1,800kg. A Marina ficou 23 dias na UTI para aprender a mamar e ganhar peso, depois foram pra casa o Leonardo e a Rafaella.

Aí começou a nossa saga de UTI. Quando eu levei a Rafaella para casa, Leonardo começou a ficar roxo. Fomos correndo para o hospital e ele estava com bronquiolite severa. Foi para UTI, não precisou ser entubado. Nisso, a Marina estava um pouco gripada, internou na UTI por causa do irmão também. Não estava tão ruim, mas a barriga começou a estufar, foi para cirurgia de emergência, pois teve uma enterocolite necrosante. Tirou 20 cm de intestino e precisou de bolsa de colostomia. E ela não pesava 2,500kg

Isso era julho e, até então, eu tinha planos de colocá-los na escola em novembro para poder voltar a trabalhar e dessa vez minha mãe foi morar com a gente. O Élzio trabalhando, dois internados, uma bebê em casa, que era a Rafaella, e a Antonella indo para escola, a logística era muito complicada. 

Turma reunida: Luciana e os quatro filhos

A Marina precisou de uma outra cirurgia de emergência e depois de três semanas foi para casa. Tínhamos uma criança de dois anos, três bebês e um com bolsa de colostomia. Ela ficou em casa um mês e meio usando a bolsa. Por  muitas e muitas noites acordamos com ela chorando cheia de cocô. 

Em outubro de 2019, viemos morar no Rio Grande do Sul, em função do trabalho do meu marido, e conheci o hospital São Roque, em Carlos Barbosa, onde iria trabalhar. Deixei tudo certo para nos mudarmos em janeiro e começar a trabalhar em fevereiro, mas as crianças retornam para a UTI novamente, os três. Foram mais três semanas de loucura, mas sobrevivemos a mais uma luta. Depois de estar tudo certo, a gente acabou vindo morar em Garibaldi.

Vida com quatro crianças tem que ter uma logística. Agora está maravilhoso, mas na época eles não andavam, era bem complicado. Minha mãe e minha sogra vieram conosco para a Serra pelo tempo que precisava para conseguir arrumar alguém de confiança para poder voltar a trabalhar. De repente, a pandemia chegou, ficamos em casa eu e o Élzio com as crianças por 15 dias. Foi um período muito puxado e a Antonella sentiu muito, porque depois que chegaram os irmãos, a vida dela virou de ponta cabeça. No início com ida para UTI, a gente tentou manter a escola que era a única coisa que seria o porto seguro dela, aí a gente muda de cidade, de casa, nova escola, demorou para se adaptar.  E quando começou a se adaptar, fechou a escola. Foi muita coisa para ela.

Eu não pedi para ter quatro, eu não tive opção e toda vez que a situação está ruim e eles choram e brigam, eu lembro do tempo da UTI.”

Eu lembro muito do dia que eu vi a Marina com todo intestino para fora. Eu achei que fosse perder a minha filha. Então, eu penso nisso tudo e eu acho que pelo fato de ser mãe de UTI, a gente vê com outros olhos. Eu costumo dizer que a gente só lembra de pedir saúde quando estamos doentes. Quando estamos bem, não lembramos de agradecer.”

A versão médica

“Depois que eu terminei a residência, trabalhei em outros lugares de São Paulo, prestei um concurso e desde 2015 trabalho no Emílio Ribas, de onde estou em licença e pretendo pedir exoneração, e trabalhava no Hospital das Clínicas em São Paulo.

Assumi oficialmente no Hospital São Roque, em Carlos Barbosa, em abril do ano passado, que foi quando começaram a pipocar os casos de Covid-19. No meio do ano, cheguei a fazer telemonitoramento de paciente Covid pelo Tacchimed, o plano de saúde do Hospital Tacchini. Em outubro, passei a trabalhar na auditoria do plano de saúde, continuei no São Roque e tinha também um consultório particular dentro do próprio hospital.

A rotina de trabalho tem sido a seguinte: ao chegar, coloco a roupa de centro cirúrgico, a calça, a blusa e troco a máscara normal de tecido pela AN95. A cada quarto que entro, preciso me paramentar: passa o álcool gel nas mãos, coloca o avental de plástico descartável, gorro, capacete e sapato cirúrgico no pé. Entro no quarto e converso com o paciente. Antes de sair do quarto, tenho que desparamentar: tiro avental e luva, passo álcool gel, chego no lavatório, lavo as mãos de novo, tiro o capacete e o gorro, limpo o capacete e lavo as mãos outra vez. Para todo o quarto que entro, essa é a mesma ordem. São oito a dez quartos por dia.

Até março deste ano, o atendimento era feito apenas a pacientes em situação menos grave. Casos mais críticos eram direcionados a outros hospitais. Em março, com o boom do Coronavírus, não foi mais possível transferir pacientes. O hospital organizou um setor, como se fosse uma UTI, para que a gente pudesse atender enquanto não aparecia vagas nas centrais de leito. Nesse setor cabem até quatro pessoas.  Chegamos, na primeira quinzena de março, a ter três pacientes entubados conosco. Só que não há intensivistas no Hospital São Roque.

“A gente foi se ajudando, os colegas entre si, quem sabia mexer em respirador. Até o momento, não houve falecimentos.”

A mãe médica e a Covid 19

“Eu cheguei a pegar Covid em agosto de 2020. Descobri no dia do meu aniversário, dia 2. Eu tinha comprado uns salgadinhos e no carro a Antonella falou: ‘mamãe, que cheirinho bom!’. Eu não estava sentindo o cheiro. Aí bateu um estalo: ‘será que estou com Covid?’. Cheguei em casa, não falei nada para o Ezio e ele: ‘nossa, que cheiro bom’. Cheirei tudo o que tinha cheiro forte e nada. Fui fazer um teste e deu positivo. 

Eu fiquei super bem e ninguém pegou, nem Élzio e nem as crianças. Perdi o olfato por uns dois meses. No hospital soube que foi uma bagunça. Em casa também, mas pelo menos não senti cheiro de cocô de criança.”

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