Relacionar-se bem importa, idade não importa

Elas descobriram que um relacionamento, para funcionar, precisa de carinho, respeito, e ajustes frequentes. Disposição para fazer o outro feliz é item fundamental. E a diferença de idade? Não importa nada. 

Patricia Pontalti tem 47 anos; o marido, Lucas Cunha, 33. Ana Schneider está com 53; o marido, Raphael Feitoza, com 42. No início da pandemia, Cris De Luca, aos 40, namorou Gustavo, à época com 24. E Fernanda Porto, aos 47, está fazendo planos para morar com o namorado, Petterson, de 27. Esses números todos estão reunidos neste parágrafo para que fique bem claro: eles não significam NADA.

Viva o hoje!

“Quando a gente conhece uma pessoa interessante, atraente, que proporciona uma troca bacana, que nos faz crescer, que nos acarinha, que nos faz feliz, que diferença faz a idade dela? Nenhuma. A gente tem que viver a relação” afirma Pati Pontalti. Ela é uma d’AsPatrícias, e esteve na Fala Feminina recentemente. Mãe da Clara, de sete anos, Patricia, por muito tempo, impôs limites a si mesma, e hoje quer dividir seus aprendizados com quem a acompanha.

“Como acredito que a idade é apenas um número, seria meio bizarro se eu ficasse defendendo as vantagens de um homem mais jovem. O que defendo é algo muito mais profundo: que a gente não se guie pela idade, mas, sim, pela personalidade, pelo caráter, pelo companheirismo, pela maturidade, por tantas coisas muito mais importantes em um relacionamento que o tal ‘numerozinho’. Conhecer uma pessoa bacana que combine com a gente sempre é complicado e se torna ainda mais difícil quando a gente começa a colocar limitações, como não se relacionar com um homem mais jovem, por exemplo. Vamos esquecer essa bobagem e se deixar viver”, propõe ela.

Após compreender que relacionar-se nunca é fácil, Pati acredita que todo tipo de relacionamento exige ajustes constantes. “A gente cede, aprende, muda, melhora, escolhe prioridades para defender, releva outras coisas não tão importantes para nossa essência, e assim vai construindo uma história a dois. E fizemos bastante isso, essa construção de vida. O que faz duas pessoas ficarem juntas amorosamente, na minha experiência, é admiração, objetivos em comum, semelhanças e, claro, o sexo, que deve ser bom, que deve ser prazeroso. E a vontade de fazer dar certo. Temos tudo isso, e vamos nos ajustando até ser bom para os dois. E já é bom há mais de oito anos. Se me preocupo com o amanhã? Não. O hoje é muito mais importante, inclusive, para que o amanhã aconteça”, encerra Patricia.

Bancando o próprio desejo

Ana Schneider costumava namorar homens apenas um pouco mais velhos. “Acho que os homens mais novos têm uma leveza maior e não têm tanta necessidade de se mostrarem fortes, poderosos ou bem-sucedidos. Isso me atraiu”, recorda. Quando conheceu o marido, Raphael, no entanto, ela não procurou uma justificativa para namorar alguém mais jovem, apenas percebeu que não era um problema. Eles estão juntos há 14 anos, e casados há dez. “Com o passar do tempo, percebemos que nos dávamos super bm e a idade não é mais uma questão para nós. Na verdade, nós nem lembramos disso”, esclarece. 

“No início do nosso namoro, confesso que tive um pouco de medo do que as pessoas iriam pensar. Houve alguns comentários preconceituosos, sim, especialmente por parte das mulheres. Insinuações sobre a questão financeira. Eu já estava numa fase de estabilidade, e ele, embora já tivesse total independência e o próprio apartamento, ainda morava com os pais. Conheço muitas mulheres que, muitas vezes, deixam de viver relacionamentos incríveis, deixam de conhecer homens muito interessantes só porque são mais jovens”, conta ela. 

“Eu sou servidora pública em Vitória/ES e estou num percurso de formação em psicanálise. Muitas vezes, tenho que passar o final de semana e as noites estudando, e ele faz o possível para ser um homem que me apoia e incentiva”, explica Ana, que também tem duas filhas, do primeiro casamento, e dois netos. Segundo ela, Raphael, que hoje é corretor de imóveis e proprietário de uma imobiliária, é um grande parceiro e aliado, ao lado de quem ela consegue ser uma mulher de verdade. 

Mas o que é ser uma mulher de verdade? 

Na opinião de Ana, “É aquela que banca o seu próprio desejo, se prioriza e consegue superar seus próprios medos para viver com plenitude. Uma mulher que está bem consigo mesma, consegue influenciar positivamente o seu ambiente e ser uma mãe melhor, uma esposa melhor, uma profissional melhor”, defende.                                                                                                                                                                          

“Nosso relacionamento é leve e tranquilo. Não é perfeito, mas temos paz em casa. Raramente discutimos, e temos uma forma muito bem-humorada de lidar com os perrengues. Com relação à nossa aparência, nunca sofri preconceito. Ele não faz e nunca fez o tipo ‘garotão’. Fisicamente, parecemos um casal convencional”, destaca. 

Quando se descobre a juventude depois dos 40

Fernanda Porto se casou ainda adolescente com o pai de sua filha, e a relação durou 18 anos. Algum tempo depois do divórcio, deu início a uma nova união, que se estendeu, dessa vez, por quase oito anos. Só depois ela descobriu como é ser solteira. 

“Quando eu me separei pela segunda vez, eu percebi que os homens mais jovens se interessavam muito por mim. E os mais velhos eram cheios de cascas, de medo, não tinham os mesmos interesses. Às vezes, eu não aparento a idade que eu tenho nem na cabeça”, ela diz. “Eu tenho um espírito de guria, eu sou muito agitada, adoro fazer festa, gosto de dançar! E comecei a perceber que os homens da minha idade já passaram dessa fase. Eu, com 16 para 17 anos, estava casada! Trabalhava, fui atleta, então não saía. Solteira, eu virei adolescente. Sabe aquele filme, De Repente 30? Foi mais ou menos o que aconteceu comigo”, explica. 

Compatibilidade que importa: valores e estilo de vida

Mãe de Gessica, 22 anos, hoje Fernanda é bacharel em Direito e administra sua empresa, uma pet shop, em Porto Alegre. Há pouco mais de um ano, ela começou a namorar o Petterson. “No início, eu tive muito preconceito, sim. Tudo bem ser um pouco mais jovem, meu segundo marido já era dez anos mais jovem. Mas comecei a perceber que a gente encontra homens de 27 anos, que é a idade do meu ‘namorido’, que já tem um filho, já foi casado, já tem uma história, um caráter, uma postura de que eu gosto. E, às vezes, tu encontras homens de 50, 40, que querem ficar com todo mundo, não querem nada sério, não têm intensidade”, ressalta ela. 

Apoiada pela filha e mais segura do que busca na vida, Fernanda abandonou o próprio preconceito e já faz planos. “A relação com o Petterson é muito bacana. A gente está se organizando para morarmos juntos”, diz. “Apesar da pouca idade, ele tem um estilo de vida igual ao meu e uma mentalidade muito parecida com a minha. E ele tem uma leveza!”, confessa.

“Eu não sou rica, mas me sustento. Então, eu quero uma pessoa que me faça feliz. Ele me trata bem, é um cara verdadeiro. Preciso de alguém que eu sinta que é de verdade comigo. Só. A gente tem que saber o que traz felicidade para cada pessoa, o que enche o tanquinho de amor”, alerta, fazendo menção ao conceito criado por Ross Campbell e Gary Chapman.

Os outros não pagam suas contas

Cris De Luca é professora universitária e relações-públicas. Catarinense, mora em Porto Alegre desde 2003. Mas vive em muitos lugares, não é de parar quieta. “Sou uma pessoa comunicativa, expansiva, que preza pela liberdade, pela minha individualidade, por ser quem eu sou, mas, ao mesmo tempo, metódica, de autocrítica muito forte”, define ela mesma. 

Em janeiro de 2020, curtindo férias com amigas no Rio de Janeiro, ela conheceu Gustavo. “Eu achei que seria uma coisa só por aquela semana e, lógico, eu notei que ele era mais novo do que eu, mas não achei que era tão mais novo”, recorda. Foi só no último dia, ao se despedir dele, que ela descobriu a real diferença entre eles. “Bem lá no início, veio muita coisa relacionada à questão cultural, de como eu ia namorar um cara muito mais novo, o que iam pensar e como que isso ia acontecer. Aí eu comecei a lembrar das relações saudáveis que eu via em que há uma diferença de idade um pouco maior. E eu disse: preciso experimentar para ver o que vai acontecer nisso tudo”, enfatiza ela.

Segundo Cris, o maior choque sentido não dizia respeito à faixa-etária, mas às diferenças culturais da região de cada um. “Realmente, a forma de pensar do povo do Sul é completamente diferente da do Sudeste. Mas, a principal diferença que eu senti é que era uma pessoa que estava muito interessada em me conhecer, não só ficar um tempo, curtir, mas realmente construir algo comigo e ir se entendendo”, avalia. “A gente era de universos diferentes e tinha muitas trocas, então, em se conhecer e querer estar junto, a diferença de idade não fazia grande diferença”, afirma ela.

Maturidade que vem da coragem de abrir o coração

Embora o namoro tenha durado quase um ano, a relação entre Cris e Gustavo seguiu trazendo aprendizados. “Foi o relacionamento mais saudável e talvez o mais maduro que eu tive, porque a gente falava as coisas um para o outro. Homens são difíceis de falar sobre sentimentos, é difícil um cara chegar com toda a sinceridade do mundo e dizer que está confuso e que precisa se entender antes de continuar qualquer coisa. Mas, a gente ainda continuou se vendo e se falando até outubro do ano passado”, conta Cris, que revela ter existido uma conexão muito forte entre o casal.

“Eu achei que realmente seria uma coisa só de verão e, no fim, pensando ‘pandemicamente’, foi um suporte emocional e mental superimportante. A gente passava horas conversando, mesmo à distância, sobre quem a gente era, contando as nossas histórias, as nossas experiências”, relembra. “Quando tu encontra alguém que está aberto a te conhecer de verdade e a unir esses mundos que parecem tão diferentes, a enxergar o que se aproxima e o que precisa ser resolvido, faz toda a diferença, e eu acho que não tem a ver com idade, tem a ver com personalidade, com postura de vida”, encerra. 

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