Elas falam

Mulheres em fuga

Como fugir das armadilhas do poder masculino

Por Diana Corso

Como sair da armadilha do poder masculino? Como adquirir consciência para não aceitar a misoginia?
Se há uma questão que não cessa de me fazer questão, é a misoginia feminina. O poder masculino vem há séculos, na verdade milênios, armando suas ciladas, nas quais ficamos presas, transformadas em incubadoras e escravas do lar, é fato. Mas também é fato que nada disso teria tanto poder se não fizesse eco em nossa auto imagem. Incorporamos todos os discursos depreciativos, ficamos temerosas de perder o lugar social que nos é destinado, mas também fascinadas com a dependência que nos infantiliza.
O horizonte das crianças vai até a porta de saída de casa, seus deuses são seus pais e as sacerdotisas desse templo são as mulheres. Temos sido nós que criamos os descendentes que alimentam a continuidade desse sistema. As mulheres criadas para a submissão e os homens para a soberba, nesta máquina de moer mulheres que é o patriarcado.
Crescer não é algo que se faça de bom grado, e quando tudo em volta te diz que serás beneficiada pela dependência, pela consagração à vida familiar, é fácil comprar esse discurso. Ele diz que estamos onde devíamos estar. Como humanos tendemos a ser inseguros e dificilmente suportamos as críticas e desprezos que vem junto com uma postura desviante.


Por isso, para seguir adiante, precisamos olhar umas para as outras sem medo de estar sendo privadas das certezas que nos aprisionam.

Elas nos dizem que nossa realização possível é como esposas, mães, sócias menores do empreendimento familiar, socialmente dependentes; em público preferentemente silenciosas, animadas torcedoras do seu homem e dos filhos, especialmente seus meninos.
Cada vez que uma rompe com esse script, acaba sendo mal vista pelas suas pares. Cada vez que uma transcende a esses papéis, demonstra às outras que é possível ter brilho próprio, que nunca é tarde para isso. E isso sem perder o direito de ser amadas, e de ser mães, se esse for o desejo. E isso sem prejudicar os filhos, que passam a ter motivos para respeitar sua mãe e as mulheres como um todo.
As mais jovens têm nos ensinado a sororidade, o amor fraterno entre as mulheres, que se aliam para abrir espaço numa sociedade que lhes cala a boca e lhes fecha portas. As feministas negras têm nos demonstrado a garra necessária para se sobrepor a dois estigmas. Cada nova geração nos leva mais para fora da porta de casa, onde poderemos ser adultas e aliadas, para fazer um mundo melhor. Ou alguém duvida que nós mulheres sempre fizemos bonito como figuras públicas?
É uma pena que ainda tenhamos que enfrentar figuras sinistras como uma Ministra da Mulher misógina e um presidente da Fundação Palmares racista. Mas eles são a prova de que sempre teremos inimigos na trincheira, sempre haverá alguém para dizer que não temos valor. Sempre haverá uma tendência a se identificar com discursos que nos desmereçam, pois dentro da nossa cabeça fazemos isso o tempo todo. Por isso mesmo, só a sororidade e a capacidade de identificar-se com mulheres que mostram o caminho da liberdade pode nos salvar.

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