Buscando reinventar a vida, ela inventou a Roda

Em Porto Alegre, encontros fomentam mais que literatura: há uma década, mulheres criam laços e transformam o jeito de encarar a própria vida. Por toda a vida.

Laura Rangel é bacharel em Letras, é psicopedagoga e, por muito tempo, estudou psicanálise e atuou na área. Ela também é mãe do Arthur, do Eduardo, da Luciana, da Paula e do Raphael. Mas Deus quis levar o Arthur cedo demais, em 2006. 

A ideia da Roda de Leituras começou a ser concebida a partir do reencontro de Laura com a literatura de ficção, quando o luto pediu que ela trocasse a pesquisa científica por um mergulho em águas mais profundas. “Segurei um pouco, mas, em 2007, encerrei minhas atividades de consultório e fui vender cosméticos. Sou uma pessoa sociável e comunicativa, precisava do convívio com outras mulheres para me reestruturar. O estudo, naquele momento, se tornava uma dificuldade. Então, comecei a acompanhar pelas mídias sociais tudo o que se referia à escrita de mulheres”, ela conta. 

“Participei de uma oficina literária no inesquecível StudioClio, com o professor Luís Augusto Fischer, convidada pela amiga Ana Maria Marshall, o que também rendeu uma participação no livro No Meu Tempo: Histórias de Infância em Porto Alegre”, recorda. Aos poucos, entre 2007 e 2008, a Roda de Leituras começou a ser sonhada por Laura, que já trilhava um caminho entre a leitura e a escrita.

A primeira Roda

Após conhecer algumas autoras, Laura se encantou pelos escritos de Lélia Almeida sobre o universo feminino e, aproveitando que ela estaria em Porto Alegre, convidou-a para um encontro no café Mr. Pickwick, do Shopping Nova Olaria. Era 13 de dezembro de 2011. “A Lélia já era uma pessoa bem conhecida e tivemos a participação de umas doze mulheres, mais ou menos. Ali, a proximidade com a Livraria Bamboletras também facilitou”, lembra Laura. Foi a primeira Roda de Leituras.

Ainda em 2011, houve um encontro sobre contos de Machado de Assis, mas, a partir do ano seguinte, a Roda focou em divulgar autores de Porto Alegre. “Assim, trocávamos ideias sobre aspectos que mais nos tocavam, sempre permitindo a fala livre das participantes. Esta interlocução diferenciou nosso trabalho e chamou a atenção de muitas pessoas vinculadas a academias literárias, e passei a conhecer um grupo maior de escritores daqui. Eu ficava ligada nos lançamentos de livros e ia conhecer os autores, comprava os livros e convidava-os para debatermos suas obras na Roda”, recorda Laura.

Livros e amizades: remédios para a alma

Habituada a escrever diários, poemas e crônicas desde que se formara em Letras, Laura conheceu outras pessoas apaixonadas pela literatura e pela escrita no curso de crônicas de Rubem Penz, e muitas foram se agregando à Roda, assim como escritores dos grupos do professor Assis Brasil. “Até a Valesca de Assis participou de um encontro com seu livro”, conta. Além de incentivar as mulheres a lerem mais, Laura lembra de pelo menos três amigas que também começaram e escrever. 

“Os temas da mulher de praxe apareciam nos romances das autoras convidadas. Como isso me enriquecia! Naquele momento, ainda vivendo um luto, eu carecia de me reestruturar enquanto mãe e mulher. Era muito reconfortante ler sobre essa temática do feminino”, recorda Laura. “E essa investigação na literatura de ficção tornou-se extremamente terapêutica. Motivei-me bastante para escrever e saiu meu primeiro livro em 2015: Bonecas Russas. Não é por acaso que, em seus poemas, ele traz questões femininas”, afirma ela. Seu segundo livro de poesias, Agridoce, foi publicado em 2018.

Literatura em todos os lugares

Para abrigar a Roda, são escolhidos cafés ou bistrôs. “Inicialmente, nos reuníamos no bairro Moinhos de Vento, no lindo café Abuelita, que não existe mais. Depois, no Centro histórico, no Solar Palmeiro. Deixamos o Centro e viemos para o nosso ‘baixo Leblon’, ou seja, os cafés do Bom Fim, como Maomé, Santa Fermata e o Terezas Café, que nos abrigou nos últimos anos. Também estivemos várias vezes na Biblioteca Pública do Rio Grande do Sul, sob a acolhida de Morgana Marcon, em cursos com o escritor Gustavo Czekster”, relata. 

“Durante a pandemia, nos encontramos on-line. Nem todas aderiram à mudança, no entanto, outras se agregaram às lives, ampliando a nível nacional nossos encontros. Nossa característica foi sempre agregar pessoas. E, em setembro de 2021, havendo uma relativa abertura em função da pandemia, resolvemos diversificar o formato, criando também os cafés com bate-papo sobre temáticas diversas. Mudamos de bairro e marcamos um primeiro encontro desta retomada no charmoso café Sabor de Luna. Nesses tempos, os locais abertos passam a ser os mais indicados”, salienta. 

Dialogar para crescer

Quando questionada sobre possíveis discussões entre as participantes, Laura diz que o clima sempre foi agradável. “Algumas vezes, poucas, houve divergência de ideias e eu tentei acalmar os ânimos, como deve ser o papel de uma mediadora. As pessoas são maduras suficientemente para interagirem com elegância. Antes de tudo, estamos ali para aprendermos na interlocução com o outro sobre o texto lido e as personagens, e quem não tem esse perfil é difícil que escolha esse tipo de atividade. Ideias políticas, nem pensar,neste momento”, avisa.

“Quem participa desde o início é porque gosta de literatura e tem vontade de discutir os textos sem enfoque pedagógico, e muito mais sobre os sentimentos que produziram”, explica. A Roda de Leituras reuniu, em dez anos, encontros memoráveis. “Para mim, são todos inesquecíveis, régios momentos em que aprendemos com o outro e saímos sempre felizes. Isso também é pronunciado pelas amigas que participam. Sempre saem sorrindo, alegres, como meninas em recreio”, reforça.

Celebrar o passado e planejar o futuro

“Desde 2020, estamos percorrendo autores consagrados, primeiro, da Literatura Brasileira e, atualmente, com autorasfrancesas. Recentemente, tivemos um encontro sobre Marguerite Duras. Para este ano, pretendo formar grupos diferenciados para leituras em outras línguas, por exemplo. Esta é uma nova ideia para seguirmos na literatura e ampliarmos o trabalho”, planeja Laura. “E assim vamos à roda, cirandando por aí, nos fortalecendo enquanto grupo de mulheres leitoras e escritoras… Embora só baste ser leitora para aderir aos encontros”, encerra.

Elas também fazem a Roda girar:

Beloni Grivot

Bela iniciativa, a Roda de Leituras é um momento dedicado a comentar livros, conservado com dedicação imbatível pela Laura Rangel, que reúne o grupo, escolhe os livros que serão apresentados e dirige as sessões com simpatia e naturalidade. Como viver é conviver, nesses encontros, fiquei ligada por afetuosa admiração às companheiras de grupo. Em atmosfera amistosa e descontraída, temos uma experiência fecunda de amizade e encontros onde falamos de livros amados. Dez anos! Parabéns à Laura e a todas nós que lemos para aumentar nossos corações!

Adélia Einsfeldt

No ano de 2013, fui convidada pela primeira vez para participar de uma Roda, na qual eu pude levar o meu livro de poesia, Pétalas, que havia sido publicado naquele ano. Em bela tarde de primavera, saboreando um chá na companhia de renomadas escritoras, Laura conduziu a programação com determinação, dando oportunidade para que todas pudessem ler e comentar os textos que estavam sendo apresentados. Parabenizo-a pelo relevante trabalho cultural e literário que promove com a Roda de Leituras!

Iara Regina Pacheco Frainer

Há algum tempo, iniciei um processo de escrita. Venho das áreas de Letras e Fonoaudiologia, e queria escrever sobre as duas. Procurando um norte, encontrei a Roda de Leituras. Conheci pessoas fantásticas, inteligentes, navegando num mundo literário até então desconhecido para mim. E a Laura Rangel, como uma maestrina incansável, conduz os encontros onde há possibilidade. Cafeterias, bistrôs, salas e espaços que possam abrigar cultura literária e escritores de grande potencial e também de potencial já reconhecido. Pessoas dispostas a compartilhar por que decidiram escrever e narrar suas histórias. A Roda de Leituras dá espaço e voz às pessoas que, mesmo tendo medo de falar, o fazem por se sentirem imersos numa roda de acolhimento. Sinto profundo orgulho em poder acompanhar esse trabalho que dá uma luz para que possamos superar medos e dificuldades.

Tonia Vargas

A Roda de Leituras oportuniza o convívio salutar e leituras atualizadas, novos amigos, cursos e o entusiasmo de também escrevermos. A literatura tem que sair das estantes e nos possibilitar diferentes formas de encarar a realidade, seja através dos clássicos ou das obras contemporâneas, ressaltando a literatura escrita por mulheres.

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