A vida ficou melhor quando ouvi minha voz.

Costumo dizer que a maternidade é um atropelamento com fraturas múltiplas. A gente se recupera mas nunca mais será a mesma. Ficam as cicatrizes e a vida tem sempre um dia (milhões?) de chuva para cutucar as nossas marcas. E se, além dessa vivência ainda acontece outra fratura, o casamento acaba? Com um filho ainda bebê? Tarsila Cimino, a criadora do Meu Tom Maternal, perfil no insta com quase 11mil seguidoras (vejam como é uma situação que atinge tantas mulheres) deu a volta por cima. Depois de muita estrada e pedras no caminho. Professora, pedagoga, ela nos conta como foi esse processo e, mais que tudo, ela intuía que já não dava mais aquele casamento. Que estava sendo vítima de situações que não lhe favoreciam e a colocavam para baixo. Mas, teimou em não ver. A voz interior calou-se. E, quando ela pode ouvir, havia um belo estrago. Nada que não se arrume, reconstrua, traga saídas.

Vejam como foi para Tarsila todo esse processo.

 Fátima Torri, editora

Olá! Me chamo Tarsila Cimino, sou de SP e tenho 42 anos. Sou mãe do Antonio, filha da Beth e do Walther Luiz, irmã da Letícia e da Isabella. Perdi meu pai em janeiro de 2021 e ele desde então vive em mim. Sou pedagoga, professora bilíngue e, desde 2008, sou influenciadora digital através do Instagram, no qual falo sobre maternidade, educação e divórcio. 

Me separei quando Tom era um bebê. Fui casada muitos anos antes de tê-lo. Tom foi um bebê planejado, esperado, muito querido. Sempre brinco que a separação pode ocorrer de duas formas: acidente de avião ou naufrágio de um barco. A diferença é que a queda é algo inesperado para um dos lados e o naufrágio normalmente é esperado e sabido por ambas as partes. Ambos já sabem que o casamento afundou, mas falta coragem para um dos dois tomarem a iniciativa da separação.

No meu caso, o avião caiu na sala, mas felizmente achei a caixa preta no processo de terapia que me deixou de pé e me reconstruiu. Minha primeira dica é sempre a terapia com um profissional sério. Acho condição sine qua non para se reestruturar após divórcio. Quando me refiro à caixa preta, me refiro à maturidade que adquiri separada. Entrei em contato com minhas dores profundas, medos imensos e lá naquela sala aconchegante da minha terapeuta e através de sessões regadas a muito choro e autoconhecimento, descobri que meu primeiro casamento apresentava muitos sinais inadequados, não saudáveis e que me levaria à pane eventualmente. 

O divórcio foi uma pane geral. Tive problemas de saúde, problemas emocionais e um longo processo de reconstrução pessoal e profissional. O luto do projeto família foi imenso e era um sonho tão grande que me fez caminhar nos últimos anos em rota cega. Eu fui ignorando diversos sinais que estavam ali como placas com luzes fluorescentes: “Menina, está tudo errado! Você vai quebrar a cara!” Tinha um medo enorme de ficar grávida e descobri que aquilo era a minha intuição gritando para eu parar o trem, rs.

Não parei, quebrei a cara, fui à lona, chorei, sofri, senti muito medo mas renasci! Renasci junto do meu filho que hoje, tenho certeza absoluta que precisava vir para minha vida, para a minha história. Ele foi meu Batman, pois me salvou no meio do caos e de uma história muito triste, feia e que não pertencia a mim, a quem eu sou. Ele chegou e me deslocou daquele cenário, daquele script, daquele personagem que eu tinha escolhido para viver e  que me reduzia tanto. Ao meu filho, todo meu agradecimento eterno.

Hoje, quase 6 anos depois, sou uma nova mulher. Me joguei no trabalho, passei muito perrengue emocional, financeiro aprendendo a ser mãe, adulta em voo solo. Agradeço cada noite mal dormida, cada choro de medo e cansaço, pois eles me construíram. Se hoje tenho um blog e uma conta do Instagram e consigo falar para dez mil pessoas  lá, é por tudo que vivi. Criei o blog Meu Tom Maternal, pois senti a necessidade de falar sobre maternidade e divórcio. Milhares de pessoas passam por isso e pouco ainda se fala.  

Aliei minha experiência como pedagoga e mãe para falar sobre todo o universo que se abre quando somos pais e divorciados. Como lidar com as datas, com as famílias, o recebimento da madrasta ou padrasto. Famílias estendidas e seus desafios. 

Hoje, me considero casada de novo. Fiquei um bom tempo sozinha e essa é a minha segunda dica. Se cuide, se ame, se trate, feche as feridas antes de ter alguém. Hoje eu tenho um cara muito bacana ao meu lado. “Casei” na pandemia quando ele fez as malas e veio me ajudar com o Tom. Nunca mais fez as malas e foi embora. Um casamento sem papel, sem vestido, sem igreja, sem festa/ Um casamento de coração realmente. Mais uma lição que o meu divórcio do passado veio me ensinar. Hoje a palavra casamento tem um novo significado e importância na minha vida. Sigo me transformando todos os dias, pois o olhar empático e as perspectivas após um divórcio nos permite essa constante evolução. 

E para terminar quero citar José Saramago e uma frase dele que me deparei hoje. “Incorrigível, o homem inventa primaveras em ruínas e desacertos.” Que vocês inventem novas primaveras. Podemos recomeçar sempre e refazer nossos pactos com a vida.

Um beijo com carinho a todas vocês, 

Tarsila Cimino

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