Tradicional família homoafetiva brasileira

Mérli e Dora são mães do Pedro e encaram há 30 anos com amor e coragem os desafios da escolha pela família que sonhavam e da dupla maternidade. 

Um relacionamento heterossexual é biologicamente importante para manutenção da espécie. Mas a vida é mais que isso. Se for para escolhermos ingressar no padrão de dualidade, ou seja, fazer parte de um casal que, quiçá, gerará filhos, que ao menos as escolhas possam ser livres de julgamentos e que haja amor e afeto. Caso contrário, nasce assim mais uma família disfuncional, conveniente aos olhos dos outros, causadora de dores e traumas psicológicos a quem faz parte dela.

Mérli e Dora são um belo exemplo de tradicional família homoafetiva brasileira. Se hoje, apesar de termos vivido evoluções gigantescas, as relações entre pessoas do mesmo gênero ainda não são tratadas com a normalidade que merecem, imagine há três décadas ou mais. “Sempre tive certeza de ser livre pra amar. Saí de casa pra morar com uma namorada assim que fiz 18 anos. Foi tudo rápido e forte. Amadureci na luta em 1983″. E a luta se fazia presente em todos os ambientes, inclusive no meio universitário. “Faculdade em 1985 e eu sendo eu. A turma me excluía de forma sutil. No trabalho era tudo ocultado”.

Hoje, Mérli é professora universitária, pós-doutora em Comunicação, mãe do Pedro, de 28 anos, e casada com a Dora há trinta anos. No papel, desde 2012. “Quando Pedro nasceu já éramos um casal. Ele tem duas mães. O pai biológico o registrou seis anos depois do nascimento. Até então, ele só tinha meu nome”, conta Mérli. 

Mérli e Dora se conheceram em uma agência de publicidade onde trabalhavam. O relacionamento e a dupla maternidade foram construídos em um momento ainda de pouca aceitação. “Abrimos muita estrada no facão”. O desejo de ser mãe era muito forte em uma época em que não se tinha acesso ao método da inseminação artificial. Mérli engravidou de um ex-colega de faculdade e, além da Dora, ninguém mais sabia.

Para garantir uma infância saudável, escolheram uma escola humanista e sensível para Pedro.

“Sempre fomos respeitadas e visíveis em nossas relações sociais. Claro que sermos profissionais dedicadas e com recursos pra manter nosso filho com tudo que ele precisava ajudou muito. Nos cercamos de pessoas boas, de vanguarda e sem preconceitos”, conta Mérli. 

Para ela, homofobia e ignorância andam juntas. “Sempre somos elogiadas pela pessoa que o Pedro é. 28 anos, concluindo doutorado em ciência política, culto, sensível e cidadão. A maioria das minhas amigas, com famílias hetero, já estão separadas e os filhos passaram por problemas com brigas e disputas do casal. Somos uma família igual a qualquer outra que se ama e se respeita”, afirma.

Questionada sobre o discurso de ausência de presença masculina para o filho, ela rebate: “referência masculina? Machismo e misoginia no Brasil só crescem. Eu fui criada sem pai, mas tive muitos homens legais na vida. Criar filho é afeto e dedicação e os homens têm muito a aprender”.

Quanto à relação com o filho, ela diz orgulhosa que sempre o tiveram como um companheiro. “Estamos passando a pandemia juntos. Ele é tudo de bom. Centrado, feliz, questionador, alegre, solidário, pensante, dono do seu destino. Morou um ano na China e dois anos no Rio de Janeiro.  Voou e amadureceu, e hoje é um companheiro da gente. Até o próximo voo…”, comenta ela, vislumbrando o futuro do filho.

“Ser feliz é a meta. Faria tudo de novo: ser invisível em 1980 e casar no papel em 2012. E hoje ter 30 anos de amor e um filho de 28. Tudo deu certo no tempo certo. A sociedade foi obrigada a evoluir e a gente fez a devida pressão”, conclui Mérli.

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