Vestida com as roupas e (armas da) poesia, Claudia atravessa o espelho

Escritora e poeta conta A VIDA em fotos e poesias como o erotismo pode estimular a libertação das mulheres e um novo olhar sobre o seu corpo

“Entediada e presa dentro de casa por causa da neve, Alice resolve atravessar o espelho para visitar a sala que fica do outro lado. Lá, a menina encontra um universo fantástico, habitado por animais, flores e peças de xadrez falantes, e tem de superar vários obstáculos para se tornar uma rainha.” Uma busca na internet pela sinopse de Alice através do espelho, clássico de Lewis Carroll, remete à metáfora da infância de Claudia Schroeder, 50 anos, que escreve desde que se entende por gente. 

“O mundo precisa de poesia”, diz a mulher que nasceu em Santo Ângelo, no interior do Rio Grande do Sul, com pai advogado, um cara que queria um filho homem. Foi esperada para cumprir o sonho paterno de ter um companheiro. E até foi, porque a carregava pela cidade. Para os bares também. E neste ambiente tipicamente masculino, a então guriazinha começou a ouvir, observar, prestar atenção no que os homens falavam. “Minha escrita erótica surgiu de ouvido. Eu ia ao bar com o pai, ainda pequena, ficava rabiscando, escrevendo em um papel enquanto ele e uns 10 homens falavam de suas aventuras sexuais, traição, amantes. Escrevia sobre sexo sendo virgem”.

Literatura na veia. E precoce

Dali a escrever a partir dos 9 anos, desenhar, e descobrir a própria voz erotizada, foi um pulo. Fez um livro aos 14, o 14 anos e outro aos 17, chamado Elevador Panorâmico. Até os 17, morou na cidade e teve uma coluna no jornal A Tribuna de Santo Ângelo, que tinha o objetivo de atrair jovens. Foi um sucesso, ganhou uma página e até anunciantes. Aos 19 anos, desembarcou em Porto Alegre.

Segue o fio

É com este histórico precoce de vida que Claudia costurou sua teia de letras e vivências e publicou os títulos de poesia Leia-me Toda, que alcançou o terceiro lugar no Prêmio Biblioteca Nacional, e As partes Nuas, que foi definido pelo poeta português José Luis Peixoto como um livro-corpo, finalista do Prêmio AGES e do Prêmio Academia Rio-Grandense de Letras. E não para aí: em 2022, lançou As línguas são para outras coisas, com orelha escrita pela cantora e compositora Marina Lima, que destaca o “erotismo elegante da autora”. Claudia também foi finalista no Prêmio Flip de Literatura de Paraty, entre outras participações literárias.

Formada em Publicidade e Propaganda pela PUCRS, atua ainda como diretora de criação, estratégia e conteúdo e foi professora universitária na mesma universidade em que estudou. Lá, antes mesmo de se formar, foi disputada por agências de propaganda da Capital para fazer estágio quando venceu um concurso na faculdade (Set Universitário).”Nunca me senti insegura por ser mulher”. 

A poeta mantém um Instagram onde publica suas fotos autorais, poemas inéditos e vídeo-poemas protagonizados por nomes como Pedro Bial, Ana Beatriz Nogueira, Lázaro Ramos e Bárbara Paz, além de um canal no YouTube com todos os vídeos de seus projetos. “Escrevo porque preciso. A poesia me escolheu. Nunca parei de escrever”, relata a admiradora de Mario Quintana, o primeiro poeta com quem teve contato. 

Desenha, pinta, borda, faz foto, escreve escreve escreve

O fato de ser uma mulher intensa, com conteúdo(s) a partilhar com o mundo, fez com que começasse a postar fotos sensuais no Instagram, usando o corpo como espelho em um quadro em branco. “Passei a postar quando percebi a importância de divulgar a visão feminina sobre a liberdade, sobre a realidade das relações por meio da poesia”, diz Claudia, que descobriu um corpo bonito e sensual que não via antes. “Não havia me reconhecido como uma mulher sensual”, conta, ao lembrar da separação dos pais aos 15 anos, da mãe, linda, que sofreu “o baque”. Se sentiu abandonada. “A traída fui eu. Até os 20, me fechei em mim mesma, neguei meu corpo, não acreditava no amor”. Mas, e sempre tem um mas, em determinado momento se viu no espelho, começou a se olhar, comprar lingeries e a se fotografar: “me apaixonei”. Pronto!

Na prática, como faz?

Essa é a história de Claudia, que agora, 41 anos depois de escrever os primeiros poemas, partilha suas experiências como mulher, artista, mãe do Theodoro, de 10 anos, do primeiro casamento. “Conto a minha história para ajudar outras mulheres a se liberarem, para se livrarem  do machismo estrutural. Fomos educadas para sermos bonitas e aprovadas pelos homens. Faço as fotos do meu corpo pensando em mim, para agradar a mim”.

Ela criou as experiências O espelho é meu – uma vivência erótica libertadora e O espelho é meu 2 – um encontro sobre poesia, erotismo e liberdade feminina. Também está construindo uma outra versão, que envolve maternidade e a passagem do tempo junto à sexualidade e sua prática. “Por meio deles, quero inspirar mulheres que buscam se libertar de amarras internas em relação à própria sexualidade”, reforça. “Quero empoderar estas mulheres para uma prática real no trabalho e na vida pessoal, pois a auto-libertação fortalece a auto-estima e transforma suas ações”. 

 as sereias que eu desenhava na infância
 cresceram em meu corpo
 cabelos longos cobrindo seios
 pernas unidas cadeadas por morais
 cobertas por uma fina saia justa
 e uns mergulhos profundos
 de lombar curvada nas piscinas do clube
 porém a água clorificada desembocou naquele mar
 da baía as escamas
 encontraram seus rumos
 e as pernas se abriram
 para os peixes-boi e os pequenos
 cavalos-marinhos 

Do livro As línguas são para outras coisas – Editora Taverna

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