À primeira vista, All Her Fault parece falar sobre exaustão feminina. E fala.
Mulheres cansadas de serem incríveis, correndo com saltos altos para dar conta de tudo, até perceberem que, apesar do esforço permanente, continuam sendo responsabilizadas por qualquer falha. Homens que atravessam a vida em modo automático, emocionalmente ausentes, funcionando quase como zumbis sociais. A ignorância masculina aqui não é caricata, é estrutural.
Mas esse é apenas o primeiro nível de leitura.
O que a série realmente expõe é algo mais profundo e mais perturbador: a família como célula adoecida. Não a família violenta, mas a família “do bem”. Casas lindas, salas amplas, crianças felizes, rotinas organizadas. Pessoas de família. Justamente elas.
Família, sabemos, é onde tudo começa. E raramente termina bem.
O desaparecimento de uma criança, eixo aparente da narrativa, funciona quase como um tampão. Um evento que faz transbordar o que já estava em ebulição. O verdadeiro tema não é o sumiço, mas o que antecede o trauma. Relações frágeis, pactos silenciosos, violências pequenas e contínuas que se transmitem de geração em geração como herança invisível.
A infância, longe de ser apresentada como território de proteção, surge como origem da doença. Uma doença crônica. Não mata, mas lateja. Está sempre ali, moldando adultos que nunca aprenderam a se responsabilizar por si — e muito menos pelos outros.
Nesse cenário, a maternidade não aparece como escolha amorosa, mas como consequência de um sistema já corrompido. E por isso a culpa recai sempre sobre as mulheres. Elas ocupam o último elo visível de uma cadeia longa de irresponsabilidades acumuladas.
Os homens da série não são monstros evidentes. São disfuncionais. Precisam ser monitorados. Invejosos do sucesso feminino. Medíocres, às vezes patéticos, às vezes encantadores. Uma das esposas modelo conta para a vizinha que chama o marido de idiota em linguagem de sinais. Um gesto quase cômico, usado como válvula de escape. Mas também um sintoma. Quando o desprezo vira estratégia de sobrevivência, algo já apodreceu há muito tempo.
É nesse ponto que emerge o subtema mais grave da série, aquele que dá origem a tudo: uma espécie de “maternidade” exercida pelo protagonista masculino.
Um cuidado manipulador, invasivo, que mente, fabrica doenças e cria emergências com o suposto objetivo de ajudar. Controla através do adoecimento do outro e acaba envenenando, literal e simbolicamente, a si mesmo.
Essa figura lembra o filme Sharp Objects, onde o cuidado se confunde com violência e o amor materno se transforma em instrumento de poder. Em ambos os casos, o cuidado não é redentor. É tóxica. E justamente por isso, quase intocável.
All Her Fault incomoda porque desloca o olhar. Não se trata apenas de uma mães exaustas ou pais ausentes, mas de um sistema familiar que adoece, normaliza o adoecimento e depois escolhe culpados individuais para não encarar a falência do todo.
No fim, a série não pergunta quem falhou. Pergunta algo muito mais incômodo: que tipo de família seguimos defendendo, mesmo quando ela claramente já não sustenta ninguém.
Por Fátima Torri