Por Nina Fola
Texto replicado da coluna Odabá, da Sler
Sou mulher negra, militante, e há mais de 30 anos vivo o 20 de Novembro com o corpo, a voz, a mente e a alma. Antes de ser feriado nacional, essa data, que vai fazer 53 anos de sua projeção nacional, já se fazia sagrada para nós — artistas, educadoras, organizadoras, fazedoras do dia. E agora, com o reconhecimento como feriado nacional oficial, o que vem acontecendo é a falta de tempo para “aproveitar” o dia.
Enquanto o país descansa, nós trabalhamos. E muito. Enquanto se celebra, se questiona e se constrói a consciência negra, nós sustentamos a seriedade desta data para a luta contra o racismo no Brasil e honramos o nome de Zumbi dos Palmares como referência de liderança.
A cada novembro, somos inundadas por convites. Muitos sinceros e potentes, outros totalmente indecentes. São convites para cantar, falar, performar, ensinar — muitas vezes sem cachê, sem estrutura, desrespeitando nossa trajetória e trabalho. Quando recusamos essas propostas indecentes, podem vir, como já ouvi como resposta, argumentos como se a nossa ancestralidade nos obrigasse à gratuidade. Como se o racismo que nos vulnerabiliza diariamente não fosse suficiente e devêssemos continuar servindo, letrando e fornecendo nossa arte e cultura como débito.
É inevitável, nesses casos, usar o termo “paciência negra”, como uma ironia. Porque, aqui, ela não é virtude, é uma exigência, principalmente para manter o diálogo com as pessoas que nos chamam. Sejam elas brancas ou não brancas. Entendendo que neste estressamento não há reconhecimento, há exploração. E nós, que construímos essa data com décadas de luta, somos impedidas de vivê-la plenamente. Somos chamadas para todos os eventos, mas não temos tempo para nos atualizarmos, curtirmos o dia, refletirmos sobre a luta.
O 20 de novembro é o Dia da Consciência Negra, Dia de Zumbi dos Palmares, este grande líder de um dos maiores quilombos da América Latina. Simboliza a possibilidade de criação de sociedades alternativas à escravocrata, na qual a superexploração dos corpos negros era a vigência social.
E aqui está o contraponto: consciência negra não é só para pessoas negras. É um chamado que o movimento social negro faz a toda a sociedade para uma caminhada antirracista. É sobre transformar estruturas, e não apenas celebrar símbolos. É preciso ter paciência, pois nosso compromisso, mais uma vez como movimento social e educador, é fazer algumas reflexões se tornarem latentes: como podemos ser antirracistas apenas em novembro? Como construir justiça com ações pontuais, sem continuidade, sem compromisso?
Se isso é possível, por favor, me avisem, pois o grande desafio é que se tornem ações cotidianas, assim como é o racismo.
Na condição de ativista do movimento social negro, vejo como algo urgente avaliarmos a superlotação de nossas agendas, bem como o uso excessivo e superficial de nossas simbologias e a vulgarização de nossos conceitos e culturas. Para tanto, precisamos ser estratégicas, eficientes e firmes na luta antirracista, colocando nossa intelectualidade como força central. Essa intelectualidade se manifesta no corpo, na resistência e na insistência — assim como essa data. Devemos ser contundentes em relação ao que nossa ancestralidade deixou como legado.
Seguir o exemplo de Zumbi é acreditar que somos capazes de transformar essa sociedade, tornando a vida melhor para o contingente imenso de pessoas autodeclaradas negras nesse país. Estamos falando de 55,5% da população brasileira que, entre as diversas formas de contribuição na formação social, inseriu milhares de palavras de origens africanas, sem falar nas inúmeras expressões culturais.
Existem diversas camadas do racismo estrutural que atravessam a vivência de mulheres negras no Brasil. Por ser uma delas, desejo acolher, mas, também, denunciar a exploração simbólica e material que ocorre especialmente no mês de novembro. Sempre sobra para nós, militantes sociais de movimentos negros, mudarmos ou propormos viradas estratégicas: uma delas é solicitar que a intelectualidade negra seja reconhecida como força central da resistência, e que a memória de Zumbi inspire ações coletivas e transformadoras.
Zumbi, quando escolheu não se render aos pelotões de guardas imperiais, pensou na coletividade, na importância do Quilombo para todas as pessoas. Projetou um futuro no qual a liberdade não fosse privilégio, mas direito. Que o feriado não seja apenas uma data no calendário, mas um marco de mudança. E que a paciência negra não seja confundida com submissão, mas reconhecida como denúncia e potência.
Nina Fola, mãe de Aretha e Malyck, é multiartista, socióloga, atuante nos coletivos @afroentes, @coletivoatinuke e @odaba.br. Aborda a questão de raça e gênero em todos os seus trabalhos acadêmicos, artísticos e profissionais. Gestora do @cavalodeideias, uma consultoria em diversidade e inclusão onde faz palestras e formações.