Atitude, Comportamento, Vida

Lyy Ferreira e seu diário

Lyy Ferreira não é seu nome verdadeiro. Ela mora em uma pequeneníssima cidade nordestina e ninguém sabe que ela tem perfil nas redes sociais que arrrebanhou mais de 70 mil seguidoras entre o Facebook e o Instagram e já sofreu ameaças de morte.

Sobre o que ela fala? E por que traz junto tantas seguidoras? Lyy não quer obedecer ordens de pai, de marido, de filho. Lyy quer ser ela, com suas escolhas, seu jeito de ver o mundo. É fácil? Claro que não! E quem disse que ser mulher arretada é creminho com morango? Lyy nos representa, nos dá voz. Pega lá no nosso fundão e traz à nossa realidade que a vida pode ser melhor. Porém, lindas, exige luta, coragem, preparo, estudo, investimento em quem queremos nos tornar. Leiam Lyy e se vejam no espelho.


Fatima Torri, editora

Olá, sou a Lyy Ferreira, tenho 31 anos e sou a criadora da página O Diário de um Não Planejado. Esse diário virtual que no Facebook conta com mais de 70 mil seguidores e mais de 10 mil no Instagram. Foi criado inicialmente para partilhar as vivências de uma menina do interior do nordeste, pobre, órfã de mãe, rejeitada pelo pai machista desde o nascimento, que resolveu questionar a forma que as pessoas colocam filhos no mundo, ou seja, sem planejamento para isso.

Perdi minha mãe aos oito anos de idade, ela estava grávida de oito meses, era a sua quinta gestação. Desenvolveu eclâmpsia e não resistiu porque a ajuda não chegou a tempo. O bebê também morreu, morávamos no mato, literalmente, em um pequeno município do interior do nordeste (prefiro não revelar o estado e a cidade por motivo de segurança, infelizmente recebo muitas mensagens de ódio).

Os reflexos de ter ficado órfã de mãe aos 8 anos de idade, foram grandes em minha vida. Fui uma criança que não podia brincar, pois tinha que fazer comida, cuidar da casa, do irmão de cinco anos, lavar as  roupas de todos, ou seja, minha infância foi interrompida completamente pela orfandade. Não tive tia, avó, madrinha por perto, todas moravam longe. Não tinha pra quem pedir ajuda.

O genitor trabalhava como agricultor, era a sua única fonte de renda, então todos os dias ele saia de casa às 5 da manhã e só chegava a partir das 18 horas, ficavámos somente eu e meu irmão em casa, duas crianças de 8 e 5 anos.

A relação com o genitor era distante, ele não gostava de abraços, beijos, Com certeza ele também sofreu com a perda da mulher que ele amava. Ele sempre demonstrou insatisfação com o meu nascimento, pelo fator exclusivo de eu ser uma mulher. Ele sempre dizia: “era pra eu ter tido como primeiro filho, um homem, assim poderia cuidar das minhas coisas. Mulher não serve pra negócios”.

Desde os meus 7 anos de idade, sempre gostei de escrever, escrevia em um diário, um caderno baratinho que uma colega da escola tinha me doado. Na adolescência os conflitos com o genitor aumentaram, foi aí que a depressão se apresentou de modo intenso e avassalador, foram momentos dificílimos. Por causa da morte de mainha desenvolvida compulsão alimentar desde meus 8 anos, comia pra sanar todo o caos que sua partida me causou, obviamente só descobri isso no fim da adolescência, depois de muitas leituras. Creio que podem imaginar como tudo isso foi difícil em uma fase tão complexa como é a adolescência.

A revolta pela morte de mainha latejava no meu peito, quanto mais o tempo passava mais aquilo pesava dentro de mim. Foram muitas vivências, muitas humilhações, muita pobreza, muitas situações que são normais quando se é uma menina órfã, pobre e sem parentes que cuidam de você.

O DIÁRIO DE UM NÃO PLANEJADO foi criado em 2016, para que eu pudesse desabafar, soltar, gritar para o mundo como eu me sentia triste com a minha história. Inicialmente e por um bom tempo me passei por homem, porque sabia que me mostrar como mulher me traria mais ofensas e críticas. Quando comecei a questionar a reprodução humana sem planejamento não haviam tantas páginas como a minha, na verdade existiam grupos fechados no Facebook, exatamente pelo assunto ser UM TABU.

Pais e mães são endeusados pela Bíblia Sagrada, questioná-los, pra muita gente ainda é algo inadmissível. “Independente do que façam, os pais são sagrados”. No fundo eu só queria dividir a minha dor, a dor de me sentir uma não planejada, a dor de não ter minha mãe comigo. E com o passar do tempo, foi chegando pessoas que também se sentiam daquela forma. Dezenas de pessoas, depois centenas de pessoas, depois milhares de pessoas.

Com o passar do tempo a página foi crescendo e vi a responsabilidade aumentando, percebi que não dava pra continuar só falando sobre as minhas experiências e que deveria incluir relatos de outras pessoas que sofriam com seus pais e também as partilhas de mães reais, dá voz ao sofrimento dessas mulheres.

Atualmente a página acolhe mulheres que optaram por não ter filhos e mães reais que falam abertamente sobre o peso da maternidade solo. Elas alegam não amar a maternidade, mas amam seus filhos. Fico honrada de ter a confiança dessas mulheres. Quem se importa com uma mãe que denúncia os danos da maternidade compulsória?

Quem é Lyy Ferreira?

Sou graduanda em Serviço Social, estou no 7 período. Tenho 31 anos, solteira por opção, sem filhos por opção. Minha escolha de não ter filhos é  embasada em análises de vários âmbitos da vida social, fazem cinco anos que tomei a minha decisão de não ter filhos. O Brasil é um país de economia periférica, analisei as condições de serviços públicos, ofertados aqui e não me agradam. Sendo uma mulher da classe trabalhadora que depende totalmente de serviços públicos, é indispensável avaliar esses aspectos antes de pôr filhos aqui. A minha visão de mundo é crítica, e cabe a mim decidir! Então já está decidido, caso venha mudar de ideia, adotarei.

O julgamento da sociedade com uma mulher que opta por não ter filhos ainda existe, porém só o meu NÃO já basta, lutei muito pra entender que o meu NÃO é o suficiente. E sim, isso já me afetou muito, hoje não mais. A minha decisão é altruísta, tenho orgulho da minha postura de responsabilidade.

Quando digo que represento as silenciadas, estou me referindo às minhas ancestrais que não tiveram as mesmas oportunidades que estou tendo! Escrever, dialogar, RESISTIR…reconheço que são oportunidades valiosas de fazer caminhos diferentes. Minha mãe morreu aos 31 anos, sem ter a oportunidade de conhecer a praia, shopping, viajar pra descansar. Minha avó, mãe de mainha, morreu também na casa dos 30, ambas morreram por falta de atendimento médico, ambas morreram durante o parto.

Representar as mulheres da minha linhagem, da minha ancestralidade é a minha maior missão, TUDO DE BOM QUE ELAS NÃO VIVERAM, ESCOLHO VIVER.

Prometi a minha mainha que terei a vida mais incrível e livre possível. Faço parte de um novo tempo para mulheres. Desejo que a minha vida seja uma inspiração, principalmente para meninas/adolescentes/mulheres pobres. Priorizem o vosso conhecimento, priorizem cuidar exclusivamente de vocês.

Como sempre falo no final dos meus textos, falarei aqui também: avante minhas amoras!

Abraços acolhedores da Lyy Ferreira.

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