Já faz um tempo, presenteei-me com uma viagem para uma cabana incrível no interior da serra Gaúcha. Um final de semana longe de tudo, próximo à data do meu aniversário, absolutamente sozinha. A intenção era essa, estar comigo mesma, no silêncio e em meio à natureza levando apenas muitos livros, boas comidas, e o cansaço do primeiro semestre todo na bagagem.
Mulheres precisam viajar sozinhas, foi a frase que me ocorreu desde o momento em que entrei no carro para começar a viagem.
Porém, já na sexta feira pela manhã, enquanto equilibrava trabalho e preparativos para a saída, começaram a surgir pensamentos do tipo: “Mas e se eu não encontrar o caminho? Se eu me perder? E se acontecer alguma coisa na estrada e eu, sozinha, sem sinal no meu telefone?”. Sei que é preciso dar o destaque devido à palavra sozinha e todo o conjunto de ideias e pré concepções do que representa uma mulher ser ou simplesmente estar sozinha. Em seguida, pensei o motivo desses pensamentos começarem a atrapalhar um momento que foi tão planejado e antecipadamente curtido por mim. Onde foi que sorrateiramente a felicidade foi dando lugar ao medo e à insegurança? Claro, no lugar e no instante em que percebi que na verdade eu estava com medo. Medo de me perder no caminho, de errar, medo desse medo.
Mulheres foram cultural e historicamente ensinadas que os homens as protegeriam (quando hoje sabemos que na maioria dos casos é justamente o oposto). Foram ensinadas que deveriam esperar o príncipe, o protetor, a fonte de segurança e tranquilidade. Mais do que esperar, preparar-se para ele e agarra-lo com unhas e dentes quando ele finalmente surgir.
Muitas pessoas para as quais contei dos meus planos para a viagem ficavam surpresas, admiradas, e parte dessa admiração era justamente o fato dela ser vivida sozinha. Nas duas paradas que fiz durante o trajeto, desci do carro me sentindo observada, num misto de orgulho e vergonha por estar desacompanhada.
Sim, mulheres precisam viajar sozinhas.
Quando driblei meus primeiros pensamentos pessimistas e temerosos da sexta-feira, entrei no carro, acionei meu Google Maps e comecei a viagem. O tempo estava péssimo e assim permaneceu por todo trajeto. Chuva fina, neblina, céu fechado. Driblei a ansiedade inicial com boa música e um pouco de orgulho de mim.
Aqui vale um adendo. Quando pensei nesse texto fiquei muito preocupada em soar como “white people problem” (ou problema de pessoa branca, o que significa problematizar algo que na verdade não é exatamente um problema). Esse manifesto que faço aqui em prol das mulheres viajarem sozinhas e, de preferência, dirigirem sozinhas ao seu destino desejado, não pode ser descolado do recorte privilegiado no qual estou inserida. Ainda assim, com as devidas contextualizações, mulheres precisam dirigir, precisam viajar sozinhas.
Uma mulher viajar sozinha é um ato político, que fura a lógica do homem motorista e protetor. Naquele momento, não havia ninguém a quem eu confiaria a direção do meu carro que fizesse eu me sentir mais segura do que eu mesma. Apesar da insegurança quanto ao mapa e ao tempo chuvoso.
Deu tudo certo. Cheguei ao meu destino rumo ao sonhado final de semana sabático. A sensação de vencer o próprio medo, fazer algo incomum e poder confirmar uma confiança em si própria tem um valor inestimável, especialmente para mulheres. Mas não é preciso ter carro para isso. Cada mulher sabe qual a viagem precisa empreender sozinha, do jeito que for. Mulheres historicamente já fazem milhares de outras bem mais difíceis e perigosas. Saem de casa sozinha antes do sol nascer para pegar um ônibus e trabalhar, correndo o risco de serem abusadas ou violadas em seu caminho. Criam filhos sozinhas e bancam uma casa, cuidam, amparam, trabalham em jornadas de trabalho duplas ou até triplas. Meu carro e minha viagem parecem pequenos frente a essas outras viagens tão mais desafiadoras.
Mas, mulheres, confiemos em nossas mãos no volante para dirigirmos nossa própria vida. O gostinho de saber que podemos pegar uma carona quando quisermos por desejo e escolha, muito mais do que por dependência, é bom demais.
Melhor até do que o silêncio e uma taça de vinho no frio delicioso de uma cabana na serra gaúcha.
Por Luciane Slomka, psicóloga, psicanalista e escritora. Professora do curso de psicologia da Unisinos. Acompanhe Luciane no instagram @luslomka.
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