O filme O Último Azul nos traz uma reflexão necessária e urgente para toda a sociedade: o que estamos fazendo com os mais velhos?
A proposta é clara e potente, mostrar a possibilidade de fugir do estereótipo da velhice, sendo quem se é, reconhecendo desejos, entendendo o que se quer e indo atrás disso. Uma das coisas que mais me tocou foi perceber que a filha da personagem não conhecia os sonhos da própria mãe. Para ela — assim como para a sociedade e para o Estado — os mais velhos deveriam, por lei, se retirar para colônias onde seriam “cuidados”. Isso libertaria os mais jovens da responsabilidade de cuidar deles e permitiria que seguissem vivendo suas vidas, produzindo mais. O cuidado aparece como peso; a produtividade, como prioridade.
O título do filme remete a um caracol mágico inventado para a narrativa. Quando ele aparece, deixa uma baba azul que, pingada no olho, permite ver o futuro. Quem não quer ver o próprio futuro?
A protagonista, uma mulher de 77 anos, interpretada por Denise Weinberg, também com 77, é informada de que não pode mais viver fora das colônias. Sua filha torna-se sua tutora legal e passa a decidir sobre sua vida. Ela está em um barco, navegando pelos rios da Amazônia, em busca de uma possibilidade de voar — seu sonho — já que não pode sequer comprar uma simples passagem de avião, impedida pela filha.
O barqueiro, interpretado por Rodrigo Santoro, a convida a experimentar o caracol azul e tentar ver o futuro. Ela responde que, na sua idade, não há futuro e, portanto, não há o que ver. Ele, por sua vez, pinga a baba azul no próprio olho e descobre que está perdendo sua felicidade por trabalhar demais — tudo para dar à mulher o que acredita que ela precisa. Ela, no entanto, o deixou porque precisava apenas da presença dele. Nada dá certo. A personagem decide então voltar para casa. Para isso, precisa comprar uma passagem liberada pela filha. Ao chegar, é recebida pela polícia: a própria filha a havia denunciado para não ficar fora da lei. Quando está sendo levada para uma colônia, ela consegue fugir.
Aquela mulher pacata, simples, de cabelo sempre preso em um coque, mas de olhar forte, decide viver sua vida fugindo — mas em liberdade. É ali que começa seu verdadeiro voo.
Ela é acolhida por outra mulher velha, que vive livre, viajando sozinha pelos rios da Amazônia. Vende bíblias digitais, é considerada uma freira, mas sequer acredita em Deus. Sozinha no mundo, acredita apenas em si mesma. As duas seguem viajando, e a protagonista passa a se libertar de fato, a se experimentar, a se extasiar com a vida. O filme termina com ela de cabelo solto, quase sorrindo, com esperança no olhar.
Por Susana Terra