Nós, Mulheres: entre pouca luz e muita sombra

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Caroline Martins

Alguns livros nos informam. Outros nos despertam. Há ainda aqueles, mais raros, que nos devolvem algo que nem sabíamos ter perdido. Nós, Mulheres, da arguta Rosa Montero, se insere também nesta última categoria: para além de esclarecer e inquietar, restitui uma herança que nunca deveria ter sido apagada.

Com uma narrativa envolvente, a jornalista espanhola reúne dezesseis biografias mais extensas e noventa minibiografias de mulheres fascinantes que atravessaram séculos deixando marcas incontornáveis na história. Marcas profundas, embora, por muito tempo, silenciadas. Não por falta de grandeza, mas pelo antigo e injusto hábito de narrar o mundo sob uma perspectiva macha.

Ao percorrer suas 288 páginas, logo se percebe que este não é um mero compilado de histórias instigantes, mas quase um ensaio narrado com a intimidade de quem conta a vida de velhas conhecidas, sem filtros ou eufemismos. Montero disseca as suas biografadas trazendo à tona não apenas sua genialidade, mas também a fragilidade e complexidade que as envolvem, incluindo detalhes tórridos e sombrios.

Não as apresenta como mártires perfeitas, e sim como seres plenos, feitos de luz e sombra. Talvez resida aí a maior força da autora: seu olhar profundamente humano, mas incapaz de complacência. Ela escreve com empatia, com sensibilidade, mas sem nunca recuar diante da crítica. Suas linhas são tão impactantes quanto opinativas, e justamente por isso, soa tão verdadeira.

Além de revelar vidas femininas fascinantes, o livro sustenta uma reflexão que me acompanha desde que iniciei meu trabalho com mulheres: não foi a ausência de capacidade que nos limitou ao longo da história, mas a ausência de permissão. De legitimidade. Ainda assim, mesmo sem acesso amplo à educação e à revelia das normas sociais, as cientistas, artistas, filósofas e escritoras apresentadas por Rosa ousaram dar forma às próprias ideias e, apesar da falta de reconhecimento à época, permaneceram. Impressiona especialmente o número de mulheres cujos feitos foram atribuídos a maridos ou amantes.

A espanhola María Lejárraga foi, para mim, uma das descobertas mais inquietantes do livro, talvez justamente por eu jamais ter ouvido seu nome antes. Nascida em 1874, em San Millán de la Cogolla, foi escritora e dramaturga de talento extraordinário. Durante anos, suas obras ficaram conhecidas sob o nome do marido, Gregorio Martínez Sierra, então celebrado como autor de peças de absoluto sucesso. Segundo os estudos reunidos por Rosa, no entanto, as peças de Sierra eram integralmente escritas por sua esposa. O que ocorreu não era incomum, e não se tratava apenas de usurpação, mas de um pacto silencioso com as regras daquele tempo: o mercado intelectual concedia legitimidade quase exclusiva às figuras masculinas. Diante disso, María escolheu a sobrevivência de sua criação, ainda que isso lhe custasse o seu próprio mérito.

Outra figura que me toca de forma particular é Mary Wollstonecraft, cuja história já me acompanhava antes mesmo do livro, pois frequentemente a menciono na Mentoria da Investidora Inteligente. Filósofa inglesa do século XVIII e autora de A Vindication of the Rights of Woman (Uma Reivindicação dos Direitos da Mulher), obra consagrada pelo pensamento feminista moderno, Mary teve a coragem de afirmar, em pleno Iluminismo, que mulheres não desejavam poder sobre os homens, mas sobre si mesmas. Hoje a ideia pode soar evidente; à época, era profundamente subversiva. Ao defender a educação feminina como fundamento da liberdade, antecipou um debate que ainda não foi superado. Talvez seja por isso que suas ideias permaneçam tão atuais — não porque o mundo tenha progredido pouco, mas porque ainda temos muito a avançar neste sentido.

Gosto especialmente de falar de Mary às minhas alunas e clientes porque sua história desmonta um mito que ainda persiste: o de que nos faltaria aptidão para lidar com dinheiro ou questões financeiras. Pouco se fala sobre isso, mas há diversos exemplos de mulheres que se destacaram na administração de grandes patrimônios, ainda que herdados, já que não tínhamos legitimidade para criá-los do zero.

A brasileira Eufrásia Teixeira Leite administrou e multiplicou sua fortuna investindo na Bolsa no século XIX; já a astuta Hetty Green destacou-se nos investimentos ferroviários em Nova York; na França, lideramos e inovamos negócios visionários e longevos, como fez Barbe-Nicole Clicquot; e até conquistamos espaço em Wall Street quando isso parecia impensável, como demonstrou Muriel Siebert. Nunca nos faltou capacidade. Nunca nos faltaram exemplos. O que nos faltou, na verdade, foi legitimidade.

Às vezes esquecemos esse detalhe: o direito para uma mulher abrir uma conta bancária, assinar contratos, contrair uma hipoteca ou simplesmente decidir os rumos da própria vida profissional é assustadoramente recente em termos históricos. No Brasil, mulheres casadas deixaram de ser consideradas relativamente incapazes apenas em 1962. Na Suíça, o voto feminino só foi reconhecido em nível federal em 1971. Na Espanha, o chamado “permiso marital”, que exigia autorização do marido para trabalhar ou realizar atos da vida civil, só foi abolido em 1975. Nos Estados Unidos, mulheres só conquistaram o direito de obter crédito sem um fiador masculino em 1974.

Esse passado não é distante. Ele ainda nos atravessa.

Ao terminar o livro, uma pergunta inevitável permanece: quantas Marias existiram e nunca conhecemos? Quantas ideias nossas foram atribuídas a nomes masculinos? Quantas vozes se perderam antes mesmo de ecoar?

O maior mérito de Rosa Montero talvez seja justamente este: lembrar-nos de que não estamos começando agora, mas continuando uma travessia iniciada por mulheres que ousaram pensar além de seu tempo. Cada direito que hoje nos parece trivial foi, um dia, uma ideia radical.

Honrar esse legado significa ocupar nossos espaços com mais naturalidade, mais segurança, nos desvencilhando das amarras invisíveis de uma sociedade que por muito tempo, nos viu como incapazes, inferiores. Que possamos seguir ousando, conquistando, e nos legitimando. Obrigada, Rosa. Obrigada a todas Nós, mulheres!

 

Por Caroline Martins, consultora de investimentos independente e fundadora do Invest Like a Girl (ILG), projeto dedicado a tornar o universo financeiro mais acessível e estratégico para mulheres. Atua ajudando clientes a organizarem patrimônio, estruturarem carteiras globais e tomarem decisões financeiras com clareza e autonomia. Vive entre o Brasil e a Europa, experiência que também influencia sua visão internacional sobre investimentos, comportamento financeiro e construção de riqueza no longo prazo.

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