O que eu vivi não tem como esquecer

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A queda

“O que tu está vivendo não tem como esquecer”…

A queda aconteceu no dia 25 de novembro de 2025, às 6h30 da manhã, durante um passeio com meu cachorro em um parque próximo à minha casa. Um gesto cotidiano, automático, desses que fazemos sem pensar. Caminhar, segurar a guia, respirar o dia começando. Nada indicava ruptura. Mas o corpo estava ali e a cabeça, não inteira. Havia um desencontro que eu ainda não sabia nomear.

Quando caí, não entendi imediatamente a gravidade. Só mais tarde fui compreender que aquela queda não era apenas um acidente. Ela inaugurava um tempo novo. Um tempo em que o corpo passaria a falar mais alto do que qualquer pensamento.

Vivemos confiando que os exames nos dizem tudo. Mas eles não dizem. São fotografias de um instante. Um raio X que enquadra, mas não revela o invisível. Mostram ossos, números, imagens, mas não contam a história inteira. A gente passa a olhar o corpo através de exames de sangue, de imagem, de laudos, e, sem perceber, deixa de olhar o próprio corpo. Passa a saber que corpo é esse pela voz dos médicos, não pela própria percepção. Foi só depois da queda que percebi meu corpo pela primeira vez.

Naquele momento, a angústia era simples e brutal: como eu saio daqui? Para onde eu vou? O que eu faço agora? Ligar para o SOS Unimed foi um gesto de sobrevivência. Rafael e Anderson chegaram no fim do plantão, às seis e meia da manhã. Fui a última chamada antes das 7h. Na ambulância, pensei algo que me acompanha até hoje: a partir de agora começa uma nova jornada. Eu não tinha ideia do que viria, mas decidi ali que não me entregaria ao pavor.

No hospital, os médicos perguntaram se eu tinha sofrido um acidente de moto. As fraturas eram compatíveis. Aquilo me atravessou. O corpo tinha sido violentamente interrompido e eu ainda tentava entender o que estava acontecendo.

Os exames começaram. E, com eles, a sensação estranha de ser traduzida em imagens, números e diagnósticos. O corpo passava a ser lido por outros. Eu obedecia. Mas algo começou a se mover por dentro.

No hospital, os pensamentos vinham de forma inesperada. Lembrei do cheiro de zorrilho na estrada. Uma saudade quase física. Há quanto tempo eu não sentia aquele cheiro? Pensei em colocar o pé na grama, algo que eu amo a ponto de gemer quando faço. Comecei a escrever tudo aquilo de que sentia falta, tudo aquilo que amo. Como se o corpo, imobilizado, precisasse lembrar à mente que ainda existe desejo.

Foi ali que descobri algo desconcertante: eu adorei ser cuidada. Não precisava fazer nada. Só ficar deitada. Pela primeira vez, eu estava doente. Quando recebi alta, não queria sair. Gostei de estar ali. Gostei de não precisar sustentar o mundo.

E então, já pronta para sair do hospital, aconteceu algo que me desmontou. Levantei sozinha para pegar algo na mesa ao lado da cama e caí novamente. No chão, comecei a chorar desesperada. Pensei: o que eu estou fazendo comigo? Uma enfermeira viu, perguntou o que eu estava fazendo. Eu nunca obedeci ordens. Sempre fui a rebelde. E ali, caída, senti culpa.

Ao cair, rompi um contrato silencioso que eu tinha comigo mesma: o de ser sempre forte, o de nunca cair, o de não precisar de ninguém. Pela primeira vez ocupei um lugar que nunca foi meu: o da pessoa que pode sentir dor e ser cuidada.

Essa compreensão não veio sozinha. Ela trouxe memórias antigas. Meu irmão era doente. Minha mãe cuidava dele. Para mim, dizia que eu não precisava. Eu era castigada por ser saudável. Inconscientemente, aprendi que não havia espaço para eu adoecer. Passei a ter inveja de pessoas doentes, porque tudo girava em torno delas. Eu pedia cuidado. Ele vinha para o outro. E eu me viciei em ser forte. Vício mesmo.

As cuidadoras do hospital também me ensinaram algo. Uma ficava à noite ouvindo Bee Gees no fone. Um toque no celular e ela sabia que eu precisava. Outra, de uma igreja neopentecostal, cabelo branco até a cintura, falava da fé, dos batismos, do sítio do pastor. Pegou um livro meu e foi ler. Houve uma terceira, com cheiro forte de cigarro, uma energia pesada. Meu cachorro não deixou ela entrar. Eu também não quis.

Mesmo cercada de mulheres, algo seguia ausente. O cuidado de mãe. O grande sonho da minha vida.

Depois da alta, veio o tempo das percepções tardias. Só entendi a dimensão do que tinha acontecido pela reação dos outros. Não no dia da queda. Não no hospital. Mas muito tempo depois, no dia 16 de janeiro. Foi no espelho do espanto alheio que a gravidade se apresentou. Até ali, eu seguia funcionando.

Não sou uma pessoa disciplinada. Nunca fui. Mas desde então penso nisso o tempo todo, movida por um medo concreto: o de não recuperar o movimento do pé direito. Um medo físico, real, que não se resolve com pensamento positivo. Ele exige presença.

Percebi também que, já no segundo semestre de 2025, eu arrastava o pé esquerdo. Caminhava com os joelhos semi dobrados, sem esticá-los totalmente. Só agora aprendi que esticar o joelho poupa as articulações. Talvez eu soubesse. Mas não escutava. Para ouvir o corpo é preciso silenciar. Sentir onde dói de verdade, e não apenas seguir adiante.

Passei a pensar que muitas coisas acontecem porque o corpo está em um lugar e a cabeça em outro. Vivemos em um não-lugar. As redes sociais ampliam isso. Estamos sempre em performance, sempre buscando aprovação. Sempre separadas do corpo. O título que me veio foi simples e duro: eu não estou mais aqui.

Minha terapeuta disse algo definitivo: o que tu está vivendo não tem como esquecer. Eu perguntei como se deixar cuidar. Achei que esqueceria. Ela disse que isso não se esquece.

Essa queda foi a oportunidade de um novo encontro comigo mesma. Na verdade, o primeiro encontro da minha vida. Porque, às vezes, só quando o corpo cai, a gente finalmente chega.

Por Fátima Torri

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