Por Karina Blom
Outro dia, algumas crianças enterravam um filhote de passarinho que encontraram morto na praça. O faziam com muita consideração e ternura, ao colocá-lo numa cova, cobrindo-o com folhinhas, fazendo uma lápide. Lamentavam: “como morreu antes de aprender a voar…?”. Ali, uma avó atenta escutava, reflexiva, mas sem dar pitacos – salvo quando perguntada.
Quanta sabedoria dar tempo e espaço para as experiências e descobertas dos pequenos. E não atropelar os processos humanos mais importantes: elaborar, juntos, os inícios e os fins da vida. Pode parecer mórbido, mas poder se despedir e compartilhar as dores é o que permite recomeçar.
E nós, adultos, onde estamos nisso tudo? Voando as tranças e fazendo mil outras coisas – especialmente nós, mulheres. E realmente nos falta tempo. Mas percebam que temos gastado ele demais com distrações triviais nas telas. A vida virtual e do “parecer ser” tem preenchido o espaço real do “ser e estar”, nos deixando dispersos e anestesiados. Aí o que é artificial e “hiperestimulante” rouba nossa atenção mais do que as sutilezas, fragilidades e belezas da condição humana.
A consequência? A sensação de solidão somada a um cotidiano repetitivo, sem profundas transformações.
Diferente disso, a infância e a maturidade buscam outros caminhos, se mantendo abertos para sentir e viver, ao invés de ignorar ou abandonar. Estão ávidos por conexões reais, por histórias, pertencimento, por esperança no futuro. Nós, sem isso, seguimos performando, mesmo desconectados. Já eles, escancaram o que escondemos: melancolizam; e ainda vão perdendo suas capacidades e repertórios.
Que possamos aprender com a delicadeza daqueles que estão recém chegando na vida e dos que estão mais perto do seu fim. Crianças e idosos nos dão muito trabalho sim, mas é porque exigem nossa humanidade. Por eles e por todos nós, precisamos cuidá-los e autorizar seus voos. Eles seguirão nos ensinando a escutar onde a vida ainda pulsa e pede passagem.