A gente sabe que ser mulher não é fácil. Não foi aos 13, não é aos 23, não será aos 33 ou aos 63. Na adolescência, a gente aprende cedo a sentir vergonha. Vergonha do corpo que muda rápido demais ou devagar demais. Vergonha de não ser a menina do filme, a protagonista que acorda linda, confiante, desejada. Crescemos acreditando que existe uma linha do tempo ideal: 30 a idade do sucesso. Como dizia a Jenna em De Repente 30, essa é a idade em que tudo finalmente se encaixa. A regra parecia clara: terminar a faculdade, encontrar um amor, conquistar um emprego incrível, casar, ter filhos, viver feliz para sempre.
Mas aqui estou eu, aos 23 anos, uma semana antes da formatura. Solteira, morando sozinha, longe da família e sem qualquer perspectiva concreta de relacionamento. E eu queria poder dizer às meninas de 15 que melhora. Queria dizer que existe um ponto exato em que a insegurança se dissipa e a vida ganha contorno. Mas não é simples assim.
Ouvimos mulheres mais velhas reclamando da idade que têm. Dos 40, 50, 60, 70… Como se envelhecer fosse uma sucessão de perdas. Mas, ao mesmo tempo, elas carregam algo que nós, aos 20 e poucos, ainda não temos: liberdade. Já construíram histórias, famílias, viagens, carreiras. Quando falam dos 20, quase sempre falam do corpo perfeito, da energia infinita, da sensação de poder fazer tudo. Eu escutei muito sobre a saudade dessa juventude. Ouvi pouco sobre o processo de envelhecer por dentro — não o envelhecer biológico, mas o amadurecimento emocional. A vida melhora ou a gente apenas aprende a lidar melhor com ela?
É sábado, 1h da manhã. Estou escrevendo depois de uma crise de choro. Ontem eu estava feliz numa festa com amigos. Hoje, estou sozinha na minha kitnet — que insistem em chamar de “studio”, talvez para parecer menos claustrofóbico. Sem amigos por perto, sem pai, sem mãe, sem irmã, sem namorado. Horas antes fiz uma chamada de vídeo para casa. Lá estavam todos no sofá: meu pai, minha mãe, minha irmã e o namorado dela. Ele, que eu adoro, mas que também “roubou” meu lugar nas jantas, nos bolos de domingo, no sofá da sala. Crescer é também aceitar que os lugares mudam.
E o que isso tem a ver com ser mulher? Tudo. Porque, apesar de trabalhar, estudar, estar quase formada, eu ainda dependo dos meus pais em muitos aspectos. Recebo salário de recém-formada e pago meus “luxos”: terapia, medicamentos, nutricionista. Emagreci quase 30 quilos no último ano — e às vezes parece que essa é a coisa mais interessante sobre mim. Como se minha trajetória pudesse ser resumida à transformação física. Será que eu deveria abrir um perfil ensinando como emagrecer? “Basta força de vontade, academia cinco vezes por semana, alimentação regrada, terapia, 300 abdominais e, claro, uma ajudinha farmacológica.” A ironia dói porque é real.
Será que sobrevivi 23 anos à base de terapia e ansiolíticos? Talvez. Sempre me achei legal. Bonita, nem sempre. Engraçada, dizem que sou. Gostosa? Só naquelas noites raras em que a autoestima resolve aparecer — geralmente quando estou pronta para sair ou quando um homem me chama assim. E lá voltamos nós: autoestima mediada pelo olhar masculino.
Ninguém fala com honestidade sobre como é exaustivo ter 20 e poucos anos. Trabalhar, estudar, cuidar da casa, manter o corpo em forma, ir à psicóloga, à nutricionista, tomar os remédios certos, ter vida social ativa, sair para festas, beijar, transar, talvez namorar. E como, no fim das contas, tudo parece convergir para a mesma pergunta: “Você já encontrou alguém?” Como se a vida feminina ainda orbitasse em torno de um homem que ri das nossas piadas, nos elogia, nos beija e nos chama de gostosa.
Sinto falta dos meus 10 anos, quando eu me olhava no espelho e dizia: “Se eu não me acho bonita, quem vai achar?” Talvez fosse um mecanismo de defesa contra o bullying por ser gordinha. Mas havia ali uma coragem que hoje me escapa.
Sim, esse texto é confuso. Volta sempre para autoestima, homens, corpo, relacionamentos. Parece privilégio reclamar disso em meio a pandemias, guerras, crises políticas e avanço do conservadorismo. Mas eu posso reclamar. Eu quero reclamar. A positividade tóxica já ocupa espaço demais nas redes sociais, nas imagens de mulheres perfeitas, saradas, lipadas, ricas e felizes.
Se eu tivesse que resumir os 20 e poucos anos em uma palavra, seria esta: incerteza. A vida inteira é incerta, eu sei. Mas nessa década tudo parece provisório — o trabalho, o amor, o corpo, a cidade, a identidade. Estamos sempre no meio do caminho. Talvez crescer seja justamente aprender a sustentar essa incerteza sem desabar toda semana. Ou talvez desabar também faça parte.
Por Laísa Rinaldi, jornalista, coordenadora de conteúdo da Fala Feminina. Laísa é natural de Boa Vista das Missões, interior no RS, mas vive há 4 anos em Porto Alegre. Em 2024, ela iniciou como estagiária na Fala, e hoje atua como responsável pela produção e edição de conteúdo.