Todos os bebês são adotados

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Sobre mães e filhos

Brinquei de bonecas quando menina. Cuidava delas com zelo. Colocava as favoritas para dormirem comigo nas noites frias, mas demorei para querer gerar uma criança. Casei-me jovem, pensando em conhecer e amar ainda mais ao meu então marido e a mim mesma. Minha veia mamífera surgiu depois de sete anos, logo após a morte precoce da minha mãe.

Eu não gostava tanto da minha mãe quanto eu gostava do meu pai embora amasse os dois. Não gostava no sentido de me divertir com ela como me divertia com ele. Convivia um pouco menos com o pai. Não passava muito tempo com nenhum. Quando a mãe me pariu, ela estava também em processo de parir a si mesma, em transformação. Portanto, delegou os meus cuidados, sua quinta e última experiência materna, a outras mulheres, entre elas, uma alma gêmea que tive. E coloco o verbo ter no passado porque ela também está morta. Nosso vínculo, não, porque maternidade é memória e é adoção.

Todos os bebês são adotados. Engana-se quem pensa que é o corpo que nos torna os filhos ou os pais de A e de B. O corpo é só um facilitador, principalmente para os mais narcisistas. Se DNA fosse garantia de alguma coisa, não haveria tanta violência paterna e materna, mortes inclusive, em todas as classes sociais.

O território do afeto e da saúde mental não depende da pirâmide social, ainda que privações econômicas sejam fontes de pesado estresse e de sofrimento. Minha segunda mãe, na ordem de chegada e não de estima, não tinha condições financeiras de me proporcionar nada. Entretanto, me enriquecia de amor.

É a capacidade de cuidar, de amar e de aceitar ser amado que costura as pessoas. E ela tem de ser criativa, porque somos todos singulares uns para os outros. A intensidade do que sentimos pode ser a mesma; já as formas de vivermos o afeto podem ser inúmeras. Sem querer ofender a quem quer que seja, reduzir o amor a um único caminho de expressão não me parece muito potente e sincero, porque está na natureza do amor provocar turbulências, como a maternidade, uma cadeia complexa de fatores em que fraldas e mamadeiras são só a ponta do iceberg.

 

 

Helena Terra nasceu em Vacaria e vive em Porto Alegre. Publicou os romances A Condição Indestrutível de Ter Sido (Editora Dublinense, 2013), Bonequinha de Lixo (Editora Diadorim, 2021) e Os dias de sempre (Editora Besouros Abstêmios, 2023). Organizou, com o escritor Luiz Ruffato, a antologia Uns e Outros (TAG Livros, 2017). É coautora na novela Bem que Eu Gostaria de Saber O Que é O Amor (Editora Bestiário, 2020, com o ator e escritor Heitor Schmidt). É jornalista e editora na Editora Peripécia e na Editora Besouros Abstêmios. É também conselheira e vice-presidente da Associação Literatura Livre, no Rio de Janeiro.

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