A mulher sempre tem que provar algo, mesmo quando é vítima

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Karen Sica

Há algo profundamente adoecido na forma como a sociedade olha para as mulheres.

O caso recente da Renatha Garcia é um exemplo doloroso e revoltante. Ela foi agredida, teve o carro queimado, expôs o agressor. Ainda assim, mesmo diante da violência explícita, surgiram vozes questionando seu comportamento, suas escolhas, sua postura. Como se, em algum ponto, ela tivesse “provocado”, “exagerado” ou “feito algo errado”.

Esse movimento é cruel. E, infelizmente, não é exceção, é padrão.

A mulher precisa provar o tempo todo que é competente, que é ética, que é forte, que é correta, que é vítima “legítima”. Precisa provar que merece respeito antes mesmo de existir. E, muitas vezes, mesmo provando tudo isso, ainda é colocada sob julgamento.

Isso não acontece por acaso. A raiz desse comportamento está em uma cultura que normalizou a desconfiança sobre a palavra feminina. Uma cultura que ensina mulheres a se explicarem demais e homens a serem pouco questionados. Uma cultura que transforma a violência sofrida em debate moral sobre a conduta de quem apanha, e não de quem agride.

Quando paramos para pensar de onde vem o nosso medo constante de julgamento, a resposta é dura: ele vem de um ambiente social que nos ensinou que errar custa caro, especialmente para mulheres. Errar pode significar perder credibilidade, respeito, oportunidades. Pode significar ser silenciada.

Esse medo atravessa tudo: a forma como nos posicionamos no trabalho, como nos expressamos nas redes sociais, como empreendemos, como nos defendemos, como denunciamos… E é por isso que tantos silêncios ainda existem.

O mais grave é perceber que esse julgamento não vem apenas de estruturas institucionais ou de discursos explícitos de ódio. Ele também aparece em comentários aparentemente “neutros”, em perguntas disfarçadas de preocupação, em análises que sempre encontram uma forma de deslocar a responsabilidade: “Mas será que precisava expor?” “Mas será que não foi impulsiva?” “Mas será que não poderia ter lidado diferente?”.

Essas perguntas não são inocentes, elas mantêm o sistema funcionando.

Quando uma mulher denuncia uma violência e ainda assim precisa se defender, algo está muito errado. Quando a sociedade exige compostura da vítima e relativiza o agressor, ela não está buscando justiça — está protegendo a desigualdade.

Falar sobre isso não é exagero, é urgência.

Porque uma sociedade que desconfia sistematicamente das mulheres não está apenas falhando com elas — está falhando consigo mesma. Está doente. E enquanto não encararmos esse padrão de julgamento, continuaremos criando ambientes onde mulheres pensam duas vezes antes de falar, agir, denunciar ou simplesmente existir.

A pergunta que fica é: até quando vamos aceitar isso como normal?

Por Karen Sica.

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