As conquistas e perdas do envelhecer: a construção de novos sentidos

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envelhecer

Nossa percepção de mundo está irrevogavelmente imersa nas políticas que atravessam o campo de produção dos saberes em nossa cultura, entendido como campo de forças no qual o que está em cena não se restringe a um sujeito, mas a um processo em que, através da história, se reordenam sem cessar as lutas travadas entre o existir singular e as forças de dominação exercidas pelos saberes e poderes. Assim, em seu exercício, os poderes determinam as formas de existência através de práticas como a produção de cuidados para a manutenção da vida e de normas que criam o discurso dos sujeitos sobre si mesmos.

A partir de questões atualíssimas, como o sofrimento oriundo de uma estetização que se reduz a essa visão de mundo capitalística, testemunhamos como a construção do belo, como fim último do desejo hedonista de nossos tempos, é modelada em uma prática em que o corpo passa a ser o sustentáculo dos investimentos, sendo visto como o equipamento que permite o sucesso.

O corpo deixa, portanto, de ser o lugar que nos abre para as afetações das forças do mundo e passa a ser o lócus privilegiado para legitimar práticas de si, visando a um ideal estético. Tais práticas, na atualidade, vêm-se manifestando a partir das propostas da tecnociência, no corpo-máquina da robótica, ou ainda, nas cirurgias/reconstruções do corpo visando à eterna juventude.

Certas metamorfoses do corpo e suas implicações na saúde em geral e, principalmente, na Vida, ao transformarem a tecnologia e escravizarem o homem, desencadeiam sérios riscos, anunciando que, no planeta, a vida pode não ter futuro.

Estamos mergulhados em um momento histórico no qual as forças exercidas através dos saberes e poderes da ciência, do Estado, do capital e da mídia incidem sobre a vida, colonizando o corpo, os afetos, a inteligência, a imaginação. Tomam nossas vidas de assalto na sua condição de concretude maior, seus espaços mais privados e inconscientes vão sendo invadidos, produzindo, como efeito, um esvaziamento da capacidade humana crítica, inventiva, intuitiva.

O corpo já não é excluído por ser pecador, mas por ser impuro. Esse conceito de impureza é associado à ideia de perecível, imperfeito, obsoleto, justificando o que a própria tecnociência se propõe: a consertá-lo, recriá-lo, transcendê-lo através das metáforas dos centros de pesquisa do mundo contemporâneo.

A biologia segue transformada, então, em um instrumento do poder político, buscando, na ocupação do interior do corpo, cada vez mais minuciosa, otimizar populações ou indivíduos, a fim de torná-los consumidores que favoreçam o projeto de expansão das forças do capital. Nesse processo, se realiza um amortecimento do corpo como fonte de receptividade e captação do mundo; produz-se um sujeito que habita uma zona intermediária entre o humano e oinumano.

Na culpa, que se presentificava no discurso freudiano no começo do século XX, encontramos a vergonha como modus operandi das relações de amor e submissão. A vergonha que se expressa não só pelo resultado das tentativas frustradas de atingir um ideal de saúde, que nos dias atuais se associa à ideia de belo, mas, principalmente, em decorrência de tal frustração fazer parte de um grupo julgado inferior em relação a um ideal que é associado ao corpo tido como saudável, jovem, sarado etc.

O sujeito e a sujeição guardam proximidade entre constituição e submissão – a sujeição é o processo de tornar-se subordinado a um poder e, também, de constituir um sujeito que escapa à dominação. Desta forma, a subordinação não é privação da ação. A ação afirmativa se encontra na capacidade de internalizar a norma e poder transformá-la. As ações afirmativas são singulares.

No envelhecer, é pela prática de um trabalho dar voz à potência do existir que afloram possibilidades de recusa ao instituído, às modelagens impressas no corpo, modelagens que se dão a partir de vetores normalizantes. Desse modo, para sermos reconhecidos como humanos, passamos por um protocolo linguístico-conceitual, segundo o qual caem sobre o corpo imagens-gestos-palavras plenos de significantes, comprometidos com o projeto de tornar-se humano. E é essa forma/fôrma que interdita e dificulta a multiplicidade dos trajetos existenciais.

Só recusamos quando fazemos de outro modo; a tarefa, desde tal perspectiva, atende ao movimento necessário para a abertura ao fazer de outro modo: criar novas imagens, novos pensamentos, novas possibilidades de ação no mundo em que nos encontramos inseridos. Recusar: entendido como exercício de metamorfose, por redespertar possíveis ao inventarmos novas formas de viver e agir no mundo.

No envelhecimento, as mudanças que fazem parte da vida têm peso maior, na medida em que essas são vividas de formas especialmente diferenciais, apresentando a urgência, a necessidade de uma revisão radical de aspectos da própria vida – como o trabalho, a partida dos filhos para  novos caminhos, a perda de pessoas muito próximas, familiares e amigos, e a consciência da finitude que insiste em se colocar à espreita. Esses fatos, associados às fragilizações que se impõem a partir do corpo físico, solicitam um voltar-se a si que concorre para lembramos que novos modos de apreensão do corpo se fazem necessários.

No texto “Sobre o narcisismo: uma introdução” (1914/1969), Freud nos diz que o homem enfermo retira sua libido dos objetos, voltando-a para o ego. Usando a metáfora do poeta, Freud nos diz que, na dor de dentes, a alma se encontra concentrada “no estreito orifício molar” (p. 98). Num movimento contrário a uma retirada do mundo como impossibilidade, aqui o envelhecer se configura como um novo vetor: as forças do desejo se voltam para o eu, pela urgência necessária imposta pelo processo de transformação, pela metamorfose que convoca um olhar refinado para as necessidades vitais que se instalam a partir das limitações impostas pela velhice. Aí se daria a chance de se reconstruir, de se ressignificar a partir de um cuidado mais acurado com as necessidades que passam a existir, de modo a fortalecer o sentir-se vivo.

Sem nos apropriarmos dos cuidados singulares que cada corpo na sua desconstrução solicita, envelhecer se torna uma agonia e um desenrolar de sucessivos adoecimentos, enfraquecendo a força vital que nos mantém vivos. É essa força da existência, o desejo de nos mantermos vivos, que vem em nosso auxílio, o que nos capacita a lidar com as fragilizações características – seja a emergência da morte enquanto um fato, as perdas já referidas, a diminuição da força e da agilidade, o reposicionamento da sexualidade e as mudanças funcionais do corpo em geral.

No entanto, esse processo de apropriação de si – visando identificar os cuidados necessários que possibilitem acionar a vitalidade característica do corpo que envelhece – fica prejudicado naqueles que se tornam prisioneiros da lógica do mercado. Lógica que aposta todas as fichas no corpo jovem, criando a percepção senso comum de que o envelhecimento, muitas vezes visto pela sociedade contemporânea como um fracasso, seja só um processo de decadência e perda.

Do nascimento até a morte, não nos construímos sozinhos; vivemos em um meio social, e é a partir dele que nos desenvolvemos. No entanto, em uma sociedade marcada pela pressão para seguir normas e expectativas, muitas vezes nos afastamos do nosso modo particular de existir. Vivemos em um mundo no qual a produtividade e a eficiência são essenciais e, como resultado, esquecemos nossas necessidades mais íntimas e os sentidos que nos conectam conosco mesmos.

Esse distanciamento de nós mesmos se refletirá no corpo, que começa a responder com o abandono de si mesmo à própria sorte, levando-nos a cuidar de modo paliativo das dores e doenças que surgem, não nos capacitando a perceber que existem formas mais acuradas de vitalizar nossa existência.

Para as mulheres, a situação é ainda mais intensa. Desde cedo, o destino marcado de ser mulher-objeto, secundarizada, cuja condição é se ocupar da família e do homem provedor e, simultaneamente, manter a beleza e o comportamento adequado. Esse modelo rígido de ser nos impede de viver de forma que realmente faça sentido, e as consequências disso atingem tanto a saúde física como a mental e, consequentemente, a capacidade de envelhecer de forma plena e saudável.

O idoso, sobretudo o idoso mulher, é frequentemente visto como alguém que está “fora do lugar”, já que o envelhecimento está associado à decadência, sendo conduzido à ideia de que, ao envelhecer, o destino inevitável é o asilo, a dependência e a invisibilidade. A imagem de um rosto envelhecido dificilmente é considerada, e somos impedidos de ver a beleza que nele possa residir, pois a velhice é percebida como uma incapacidade de continuar contribuindo para o mundo de forma produtiva. Essa visão de envelhecimento como perda de valor ignora a riqueza de experiências, saberes e histórias que os idosos carregam consigo.

O processo de envelhecimento deveria ser encarado não como um fracasso, mas como uma oportunidade de reconfiguração e autoconhecimento. Artistas e pensadores – como a bailarina Angel Vianna, que dançou até mais de 90 anos – nos revelam que o corpo é um espaço dinâmico de expressão. O corpo envelhece, mas continua vivo, com a capacidade de sentir, de mover-se e de criar. A arte, a dança, assim como outras expressões vitais, podem oferecer caminhos poderosos para restaurar a energia de vida nesse corpo que envelhece, permitindo nos conectar com nossa existência de maneira visceral.

A arte, como experiência estética, matéria expressiva, ao buscar no corpo a marca do tempo, desvela o fato de que a eternidade, como matéria em movimento, e não como vazio transcendente, aponta para a vida como obra de arte, massa sensorial produto de experimentação, em que memória e desejo compõem as atualizações existenciais.

Neste sentido, podemos apontar aqui a condição fundamental de poder se abrir para o outro, de ser atravessado pelo mundo, o que permite conquistar a possibilidade de sustentar a vulnerabilidade, que é a condição necessária para ser receptivo à diferença. A condição humana estaria aí, nesta capacitação para a vida a partir de um processo de existência que nos coloca em um campo comum, descentralizando a lógica narcísica constituída pelo pensamento individualista, fomentado por idealizações ausentes da concretude. Propomos, então, pensar a natureza humana como aberta a um feixe de relações, um processo no qual só se pode existir sendo outro que nós mesmos – assim, reconhecemos a condição humana como paradoxal pelo fato de que é só a partir da perda que nos tornamos.

Na direção da condição sensível do corpo em sua abertura para o mundo, abordamos o deslocamento incessante da existência enquanto campo de criação, apontando sempre para a vida em uma interminável variação, intensa germinação de mundos, dentro de uma lógica de continuidade. É, portanto, atributo de que cada ser existente é um aprendiz de seu próprio plasma germinativo. No entanto, frente aos processos de subjetivação a que estamos expostos, tornar-se sujeito implica repetir sem cessar os mandatos instaurados pelo processo hegemônico que sustenta os interesses do mercado neocapitalista contemporâneo.

Vivemos em uma sociedade que insiste na idealização de um corpo jovem e saudável. A mídia, a publicidade e até mesmo as políticas de saúde promovem constantemente a busca pela juventude eterna. Isso, entretanto, tem um preço. O envelhecimento é tratado como algo a ser combatido, e a indústria da beleza e saúde lucra com o desejo incessante de manter a aparência jovem, muitas vezes à custa do bem-estar real.

Para as mulheres, essa pressão é ainda mais opressiva. A constante busca pela aprovação do olhar do outro e o desejo de se encaixar nos padrões sociais estabelecidos fazem com que muitas se esqueçam de conectar-se consigo mesmas. O processo de envelhecimento, então, se torna um jogo de esconder a finitude, de negar o corpo que envelhece e, com isso, perder a conexão com a própria vida.

Tais medidas desembocam em ações preventivas e de suporte, na tentativa de restaurar a juventude perdida, que, entre outras consequências, nos remete aos padecimentos atuais decorrentes do modo como a sociedade contemporânea se constitui frente à implacável condição que a velhice comporta, visando responder em que medida e a que preço poderiam ser amenizados os sofrimentos e dificuldades.

Ser potente na velhice significa, primeiro, abandonar as narrativas sociais que nos dizem que devemos ser jovens e produtivos para sermos válidos. Ao invés de temer a finitude, precisamos aprender a abraçá-la e a viver com ela. O envelhecimento pode ser um momento de ressignificação, de reconectar-se com os próprios desejos e necessidades, de encontrar novas formas de ser e de viver. Em vez de nos fixarmos na busca pela juventude eterna, podemos escolher ser presentes celebrando a vida com sua imperfeição e transitoriedade.

Restaurar a capacidade de afirmar a vida é fazer valer a pena a exisência que temos: criar sentido para nós mesmos pode fazer com que a vida valha a pena ser vivida. A vida precisa ser criada e recriada incessantemente, tarefa a ser realizada por toda a vida até a morte – e isso é o que nos torna vivos, nos torna reais.

 

Hélia Borges é doutora pelo IMS/UERJ; Pós-Doutora em Psicologia Clínica PUC-SP. Psicanalista, membro do Grupo de Pesquisas Sándor Ferenczi. Professora do Programa de Pós-Graduação stricto sensu – Mestrado Profissional em Dança na Contemporaneidade da Faculdade Angel Vianna – PPGPDAN, onde coordena a linha de Pesquisa Arte, Corpo e Subjetivação.

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