Este texto é formado pela apresentação e prólogo do livro “Coragem de ser: Entre a Índia, o yoga e as ausências que nos transformam” por Lia Luz
APRESENTAÇÃO:
Há caminhos que nos atravessam antes mesmo que possamos escolhê-los. Neste livro, uma travessia se desenha entre ausências e buscas, entre um passado que pesa e um futuro que quer se refazer. Na Índia, onde o tempo parece dobrar-se sobre si mesmo, uma mulher encontra no yoga não apenas um refúgio, mas uma forma de ressignificar suas dores e seguir adiante.
Com uma escrita sensível e envolvente, esta é uma história sobre a vida — sobre perdas que transformam, silêncios que ecoam e a potência de quem descobre que o vazio deixado pelo que se foi pode ser um impulso para nos transformar e nos fazer voar mais alto.
É uma história sobre a força de olhar para si, de acolher a própria vulnerabilidade e, sobretudo, a coragem de ser.
PRÓLOGO:
Por que escrever este livro? Falar de algo tão íntimo? Uma história tão e quase só minha, sobre um tema extremamente complexo, polêmico e delicado, e que toca no mais profundo da nossa existência: a vida (sagrada).
Foi só depois de encontrar respostas que realmente fizessem sentido que tive coragem para compartilhar minha experiência com um aborto voluntário. Não foi da noite para o dia – longe disso –, mas uma hora elas chegaram e tudo ficou mais claro para mim.
Em primeiro lugar, me dei conta de que o simples fato de eu ter passado por essa experiência, e num país onde a interrupção da gravidez é legalizada e amparada pelo serviço público de saúde, me permitia falar abertamente sobre ela, e a partir do ponto de vista e da vivência de alguém que a atravessou.
Quando compartilhamos relatos pessoais, servimos de espelho para que quem passou (ou conhece alguém que passou) por situações semelhantes possa refletir (sobre) suas próprias experiências, ressignificando-as a partir de outro olhar.
Sem contar que, ao darmos voz a temas pouco falados, seja por medo, vergonha, tabu ou mesmo questões legais, como é o caso aqui, abrimos um canal para que eles possam ser vistos, escutados e, mais importante, trazidos à luz da consciência, individual e coletiva.
Por fim, percebi que, embora aquela tenha sido uma decisão/história basicamente só minha, ela também já foi e segue sendo a de tantas outras mulheres, o que me habilita, de certa forma, a falar de nós quando falo de mim. Ou melhor, através de mim. Da experiência desta alma encarnada que vos escreve e que neste plano físico descobriu-se um dia grávida e decidiu interromper a gravidez. Alguém que, naquele momento, avaliou ser o melhor a ser feito e que hoje, passados oito anos, pode já falar sobre a perda a partir da superação; e da ferida a partir da cura.
Sobre como nós, seres humanos, podemos aprender com as experiências, buscando sentido e nos superando para além do que imaginávamos ser possível. Sobre como podemos soltar, entregar e seguir mais leves adiante.
Esta é a história do rastro que a Wayna deixou por não chegar. É a nossa história. Mas também é a história de todas nós, que já perdemos, choramos e tivemos de atravessar a tempestade e a tormenta até ver o sol voltar a brilhar. De sementes que, se não floresceram conforme esperado, deram nascimento a narrativas de superação e transformação.
Você, que já passou por um aborto, agora sabe que também já chorei suas lágrimas. Que não sei exatamente a cor, nem o formato de sua experiência, mas me reconheço em você. E sinto muito que tenhamos passado por isso. Não sei se, no seu caso, foi involuntário, e veio para interromper o sonho de se tornar mãe pela primeira vez, de dar um irmão para seu filho único ou de aumentar ainda mais a prole, ou se, ao contrário, foi voluntariamente buscado para por fim a um susto, uma impossibilidade, um pesadelo. Mas imagino que tenha marcado sua vida. Tenha sido doloroso. E que, por isso mesmo, talvez seja difícil se relacionar com esse evento sem certo pesar.
Afinal, são tantas emoções envolvidas a nos fragilizar. Culpa, seja por termos tomado a decisão, ou por acreditarmos que não nos cuidamos o suficiente, que fizemos algo de errado. Vergonha por termos passado por isso. Sensação de sermos incapazes. Quiçá até merecedoras num sentido pejorativo.
Mas quero te dizer que está tudo bem. Que ninguém é perfeito. Que não existe uma vida sem percalços. Sem perdas. Sem golpes do destino. Sem decisões difíceis. E que, assim como eu, muitas de nós também já viveram essa experiência. Muitas mesmo. E, para sarar nossas feridas, precisamos olhá-las, reconhecê-las e cuidá-las com amor e carinho. No lugar de excluir, esconder, fazer de conta não ter acontecido, precisamos criar espaço para integrar e acolher toda nossa trajetória.
É preciso tirar das sombras, do escuro e encontrar formas de incluir. De honrar aquela vida que pulsou dentro de nós. Identificar seu potencial transformador, as mudanças e os ensinamentos que trouxe. Porque, não, nunca saímos igual depois de uma situação dessas.
E, se você quiser falar, estou aqui, para, em silêncio e no silêncio, te ouvir, te ajudar a incluir, aceitar. Você pode sempre fechar seus olhos, se conectar com sua respiração e simplesmente criar espaço para observar e acolher, sem qualquer crítica ou julgamento. Tenho certeza que, como eu, você fez o que precisava ser feito naquele momento. Por isso mesmo, está tudo bem. Você não é menos por isso. Pelo contrário, quero que você seja capaz de se olhar com doçura. Eu a vejo assim. E, mais uma vez, me reconheço em você. E sinto muito. Por você. E por todas nós.
Lia Luz é jornalista de formação e caminhante da vida por vocação. Foi repórter no jornal Zero Hora, atuou como assessora de imprensa e professora na Unisinos. Mais tarde, mergulhou nas águas profundas das Ciências Sociais, onde concluiu doutorado e pós-doutorado entre Natal e Coimbra. Até que escutou o chamado do yoga — e se entregou. Desde 2014, encontrou no Ashtanga sua prática diária, espiritual e o caminho de volta para casa. Hoje, vive com suas duas filhas em Pipa, no Rio Grande do Norte, onde cultiva, ao lado de seu companheiro, o espaço Ashtanga Yoga Pipa. Ali, transmite o método com presença, amor e a leveza de quem aprendeu que viver também é atravessar, desapegar e recomeçar.