Em 1987, uma reportagem da revista Exame anunciava uma transformação que já parecia irreversível: as mulheres estavam entrando de maneira definitiva no mercado de trabalho brasileiro. Quase quatro décadas depois, as mulheres conquistaram direitos, escolaridade e espaço profissional. Mas ainda recebem menos, ocupam poucos postos de poder e continuam pagando um preço alto pela maternidade e pelo trabalho de cuidado.
A matéria chamava esse movimento de “maré feminina”. Naquele momento, cerca de 17 milhões de brasileiras trabalhavam fora de casa e representavam aproximadamente 34% da força de trabalho do país. As empresas começavam a perceber que aquela presença não poderia mais ser tratada como provisória, secundária ou complementar à renda masculina.
As mulheres estavam nas fábricas, nos escritórios, no comércio, nos hospitais, nas escolas, na agricultura e no serviço público. Ainda eram poucas nos espaços de comando, mas já pressionavam empresas, sindicatos e a Assembleia Nacional Constituinte por igualdade salarial, estabilidade durante a gestação, creches e melhores condições de trabalho.
Quase 40 anos depois, é possível afirmar que a maré avançou. As mulheres estudam mais, ampliaram sua presença em praticamente todos os setores, tornaram-se maioria nas universidades e conquistaram direitos fundamentais.
Mas não chegaram à igualdade.
Mais mulheres trabalhando, mas ainda concentradas em determinadas funções:
Na década de 1980, quase 6 milhões de brasileiras estavam no setor de prestação de serviços, principalmente como empregadas domésticas, enfermeiras, professoras e serventes de limpeza.
Entre 1980 e 1985, a quantidade de mulheres na prestação de serviços passou de 3,975 milhões para 5,711 milhões. Nas chamadas atividades sociais, subiu de 2,121 milhões para 3,436 milhões. Na agricultura, de 1,610 milhão para 3,276 milhões. Na indústria, de 1,783 milhão para 2,208 milhões. No comércio, de 1,110 milhão para 1,855 milhão.
A administração pública empregava 592 mil mulheres em 1985, enquanto os setores de transporte e comunicação reuniam apenas 149 mil trabalhadoras.
Hoje, embora as classificações econômicas e os métodos estatísticos tenham mudado, as estimativas reunidas para esta comparação indicam entre 25 milhões e 27 milhões de mulheres na prestação de serviços, aproximadamente 9,6 milhões nas atividades sociais, 10 milhões no comércio, 6 milhões na agricultura, cerca de 4,1 milhões na administração pública, entre 2,5 milhões e 3 milhões na indústria e aproximadamente 1 milhão nos setores de transporte e comunicação.
O crescimento é expressivo. Entretanto, a distribuição continua reproduzindo antigas divisões de gênero. A força de trabalho feminina permanece concentrada no setor terciário, especialmente em educação, saúde, assistência social, comércio, cuidados e serviços domésticos.
Em outras palavras, as mulheres ampliaram sua participação econômica, mas continuam ocupando majoritariamente áreas relacionadas às tarefas que historicamente lhes foram atribuídas dentro de casa: educar, alimentar, cuidar, limpar e acolher.
Na indústria, a divisão sexual do trabalho resiste:
A reportagem de 1987 já mostrava que a entrada das mulheres nas fábricas não significava igualdade de oportunidades.
Elas eram maioria nas linhas de montagem de componentes eletrônicos, em trabalhos repetitivos, cansativos e de baixa remuneração. Em contrapartida, representavam apenas 1,1% dos ferramenteiros e modeladores de metais e não chegavam a 0,2% na manutenção de máquinas.
Em uma fábrica na qual 60% dos funcionários eram mulheres, por exemplo, não havia nenhuma supervisora. Em outra empresa, as trabalhadoras eram maioria, mas tinham o tempo de uso do banheiro controlado, uma exigência que não era aplicada aos homens.
A presença feminina na indústria continua desigual. Em recortes atuais reunidos para esta análise, elas representam aproximadamente 69% das pessoas empregadas na confecção de vestuário, 51% no setor farmoquímico e farmacêutico e 33% na produção de alimentos e bebidas. Já em minerais não metálicos e metalurgia, a participação varia entre apenas 11% e 14%.
Dependendo do segmento e da metodologia adotada, as mulheres recebem entre 13% e 14% menos do que os homens na atividade industrial. Nos cargos de gerência da indústria, porém, a diferença pode ser ainda maior: dados do IBGE mostram que a remuneração feminina equivalia a aproximadamente 79,1% da masculina. As mulheres ocupavam somente 31% das posições gerenciais industriais analisadas.
A forma da desigualdade mudou, mas a estrutura permanece reconhecível. As mulheres continuam mais presentes nos setores associados à delicadeza, à habilidade manual e ao cuidado e muito menos representadas nas áreas técnicas, operacionais e industriais de maior remuneração.
Da quase inexistência na chefia aos 39% dos cargos gerenciais:
Em 1987, a participação feminina nos cargos de liderança era tão pequena que praticamente não existiam índices nacionais capazes de medi-lá adequadamente.
A reportagem mostrava empresas iniciando seus primeiros programas de desenvolvimento profissional para mulheres. O Metrô de São Paulo havia acabado de contratar suas três primeiras operadoras de trem. Na IBM, apenas 39 mulheres ocupavam cargos de gerência. Em levantamentos realizados com consultorias de recrutamento, a proporção de mulheres contratadas para as vagas solicitadas pelas empresas não ultrapassava 10%.
Hoje, diferentes levantamentos situam a presença feminina na liderança entre aproximadamente 32% e 43%, dependendo do porte das empresas, do setor e do nível hierárquico considerado.
No levantamento do IBGE com dados de 2022, as mulheres ocupavam 39,3% dos cargos gerenciais do país. Em áreas como educação, saúde e serviços sociais, chegavam perto de 70%. Na indústria, contudo, representavam apenas 31%.
O avanço é inegável. O problema está na velocidade. Quanto mais alto o cargo, menor costuma ser a presença feminina. As mulheres chegam às coordenações e às gerências intermediárias, mas sua participação diminui nas diretorias, nos conselhos de administração e nas presidências.
O chamado teto de vidro não impede completamente a subida. Ele a torna mais lenta, mais solitária e mais difícil.
O salário mudou. A desigualdade salarial, não:
Segundo a PNAD de 1985, o rendimento mensal médio das mulheres brasileiras ficava abaixo de um salário mínimo. O dos homens chegava a 2,8 salários mínimos.
Na faixa de rendimentos superiores a 20 salários mínimos, havia 758 mil homens e somente 66 mil mulheres. Em algumas empresas do setor eletrônico, eles recebiam quase o dobro delas. Também existiam denúncias de empresas que registravam funcionárias em cargos inferiores aos que efetivamente exerciam para justificar salários menores.
Hoje, os valores absolutos são maiores, mas a distância permanece. Em um dos recortes atuais reunidos para esta comparação, a renda média mensal feminina aparece em torno de R$ 3.966, enquanto a masculina chega a aproximadamente R$ 5.040.
Os valores variam conforme a pesquisa, o universo de trabalhadores e o tipo de vínculo analisado. A proporção, entretanto, é semelhante em diferentes levantamentos: as mulheres costumam receber entre 78% e 82% do rendimento masculino.
Nos cargos gerenciais analisados pelo IBGE, os homens recebiam, em média, R$ 8.378, enquanto as mulheres ganhavam R$ 6.600. Isso significa que a remuneração feminina correspondia a 78,8% da masculina.
Em empresas com cem ou mais funcionários, o Ministério do Trabalho e Emprego informou, em 2025, que as mulheres ainda recebiam cerca de 21% menos do que os homens.
Quatro décadas depois, a diferença salarial já não pode ser atribuída à ausência feminina no mercado ou à falta de formação. Ela está ligada à concentração das mulheres em áreas menos valorizadas, às interrupções provocadas pelo cuidado, às dificuldades de promoção e à discriminação direta ou indireta.
As mulheres estudam mais, mas isso não garante igualdade:
Na década de 1980, entre 700 mil e 800 mil brasileiras frequentavam a universidade. Elas já representavam perto da metade dos estudantes matriculados, entre 48% e 50%.
Hoje, as mulheres são maioria no ensino superior, correspondendo a quase 60% das matrículas e somando aproximadamente 5,9 milhões de estudantes em cursos de graduação.
A presença feminina é especialmente elevada em educação, saúde, ciências sociais, comunicação, administração e direito. Em contraste, continua reduzida em áreas como tecnologia da informação, computação e parte das engenharias. Nos dados do Censo da Educação Superior de 2024, por exemplo, as mulheres eram 76,7% das concluintes na área de educação, mas apenas 16,7% em tecnologia da informação e comunicação.
Outro avanço importante ocorreu na alfabetização. Em 1987, aproximadamente 21,9% das brasileiras com 15 anos ou mais eram analfabetas. Atualmente, o índice está em torno de 4,6%.
A escolaridade feminina avançou de maneira extraordinária. Mesmo assim, o diploma não eliminou a desigualdade de salário, de promoção ou de poder. As mulheres estudam mais, mas continuam recebendo menos.
A maternidade ainda afasta mulheres do trabalho:
Em 1987, as empresas começavam a enfrentar reivindicações pela criação de creches nos locais de trabalho e pela garantia de estabilidade às gestantes. A licença-maternidade era de 84 dias.
A dificuldade de conciliar filhos e trabalho já aparecia claramente nos dados. Na Grande São Paulo, cerca de 70% das mulheres entre 18 e 24 anos trabalhavam fora. Entre 26 e 39 anos, faixa marcada pelo casamento e pela chegada dos filhos, a proporção caía para aproximadamente 55%.
A legislação previa atendimento às crianças, mas as creches empresariais eram praticamente inexistentes. Entre cerca de 60 mil empresas consultadas no estado de São Paulo, apenas 38 possuíam creche ou berçário.
A Constituição de 1988 ampliou a licença-maternidade para 120 dias, reconheceu a igualdade de direitos e obrigações entre mulheres e homens e garantiu estabilidade à gestante desde a confirmação da gravidez até cinco meses após o parto.
Essas conquistas foram fundamentais, mas não resolveram a questão do cuidado.
Dados divulgados pela FGV IBRE mostram que 53,8% das mães com filhos de zero a um ano que não frequentam creche estão fora da força de trabalho. Entre as mães de crianças de dois a três anos sem acesso à creche, o percentual é de 50,7%.
Isso significa que a ausência de creches continua funcionando como uma barreira profissional. A maternidade não reduz a capacidade da mulher para o trabalho. O que reduz suas oportunidades é uma organização social que ainda considera o cuidado uma responsabilidade quase exclusivamente feminina.
De 26 deputadas ao ainda insuficiente espaço político:
Em 1987, a Câmara dos Deputados era composta por 487 parlamentares. Apenas 26 eram mulheres.
Elas ficaram conhecidas como a bancada feminina da Constituinte e protagonizaram o chamado Lobby do Batom, uma articulação decisiva para a inclusão de direitos civis, sociais e trabalhistas das mulheres na Constituição de 1988.
No Senado que participou da Assembleia Constituinte, não havia nenhuma mulher em exercício. A primeira brasileira a assumir uma cadeira como senadora havia sido Eunice Michiles, em 1979.
Hoje, as mulheres representam cerca de 18% da Câmara dos Deputados. No Senado, ocupam 16 das 81 cadeiras, o equivalente a 19,8%.
A distância entre esses números e os mais de 50% de mulheres na população brasileira ajuda a compreender por que tantas questões que afetam diretamente suas vidas ainda encontram dificuldade para avançar.
A participação política cresceu, mas continua muito abaixo da participação feminina na sociedade, no mercado de trabalho e no eleitorado.
Direitos que não existiam em 1987:
A comparação entre os dois períodos não pode ser feita apenas por meio de salários e empregos. Desde 1987, o Brasil construiu uma legislação que mudou profundamente o reconhecimento jurídico das mulheres.
Em 1988, a Constituição estabeleceu que mulheres e homens são iguais em direitos e obrigações. Em 2002, o novo Código Civil eliminou dispositivos discriminatórios presentes na legislação anterior, incluindo a possibilidade de anulação do casamento por desconhecimento da chamada “não virgindade” da mulher.
Em 2006, foi sancionada a Lei Maria da Penha. Em 2015, o feminicídio passou a ser reconhecido na legislação penal. Em 2018, a importunação sexual tornou-se crime. Em 2021, entrou em vigor uma legislação específica para prevenir, reprimir e combater a violência política contra as mulheres.Em 2026, se discute se a misoginia deve virar crime.
Essas leis representam conquistas fundamentais. Ao mesmo tempo, a necessidade de criá-las revela a dimensão das desigualdades e violências que permaneceram mesmo após a entrada massiva das mulheres no trabalho, nas universidades e na vida pública.
Da violência invisível à produção de dados:
Na década de 1980, o Brasil não possuía uma série nacional consolidada sobre violência contra as mulheres. O próprio reconhecimento do problema ainda estava sendo construído.
Os movimentos feministas tiveram papel central ao retirar a violência doméstica da esfera do “assunto privado” e transformá-la em uma questão de direitos humanos e de segurança pública.
Em 1987, foi criada no Pará a primeira Delegacia de Crimes Contra a Integridade da Mulher, a DCCIM. Iniciativas como essa passaram a encorajar as denúncias, embora ainda não existisse um sistema capaz de reunir os casos em escala nacional.
Estudos retrospectivos estimam que, nos anos 1980, a mortalidade feminina por homicídio girava em torno de 4,4 mortes para cada 100 mil mulheres. Não é correto, porém, afirmar que essa taxa tenha aumentado de maneira contínua desde então. Dados oficiais mostram oscilações: entre 2017 e 2021, por exemplo, a taxa caiu de 4,7 para 3,5 mortes por 100 mil mulheres.
A queda em determinados períodos não diminui a gravidade da violência de gênero. Além disso, as estatísticas atuais distinguem homicídios de mulheres, feminicídios, violência doméstica, violência sexual e outras formas de agressão — categorias que não eram registradas ou reconhecidas da mesma maneira em 1987.
A diferença mais evidente entre os dois períodos está na visibilidade. O que antes não era contado, nomeado ou denunciado passou a fazer parte da agenda pública.
Donas de seus negócios, mas ainda com menos recursos:
Hoje, as mulheres representam aproximadamente 34,3% das pessoas que possuem um negócio no Brasil.
O empreendedorismo se tornou uma importante porta de entrada para a autonomia financeira, especialmente para mulheres que precisam conciliar trabalho, maternidade e cuidado familiar. Entretanto, muitas empreendem por necessidade, com menos capital, menor acesso a crédito e negócios de menor porte.
Embora representem mais da metade da população em idade de trabalhar, a taxa de empreendedorismo entre as mulheres ainda é inferior à observada entre os homens.
Ser dona do próprio negócio pode significar liberdade, mas também pode representar a busca de uma saída diante de um mercado formal que não oferece flexibilidade, creche, promoção ou remuneração justa.
A maré avançou, mas ainda não ocupou todos os espaços:
A mulher de 1987 precisava provar que era capaz de trabalhar fora de casa.
A mulher de 2026 já provou isso incontáveis vezes. Ela trabalha, estuda, empreende, sustenta famílias, ocupa cargos de liderança, participa da política e movimenta a economia.
Mas ainda precisa provar que merece receber o mesmo salário. Que pode comandar uma fábrica, uma empresa ou um país. Que a maternidade não deve interromper sua carreira. Que o cuidado com os filhos, os idosos e a casa precisa ser dividido. Que sua presença nos espaços de decisão não pode ser tratada como concessão.
Em 1987, as mulheres pediam para entrar. Em 2026, elas já estão dentro. A questão agora é saber em quais condições, com qual salário, acumulando quantas jornadas e encontrando quantas barreiras até chegar ao topo.
A maré feminina não recuou. Mas, para que ela se transforme em igualdade real, não basta contar quantas mulheres trabalham.
É preciso observar onde elas estão, quanto recebem, quem cuida de seus filhos, quanto poder possuem e qual preço continuam pagando para permanecer.