A acusação não acaba com a vida de um homem

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A acusação não acaba com a vida de um homem

Sempre que uma mulher denuncia um homem por estupro, agressão ou violência, uma frase aparece quase automaticamente: “Mas isso vai acabar com a vida dele”.

A frase vem antes da escuta, antes da apuração e antes da pergunta mais importante: o que já aconteceu com a vida dela?

Existe uma ideia repetida de que uma acusação de violência sexual ou de violência contra a mulher destrói reputação, carreira e futuro. Mas basta olhar para nomes conhecidos para perceber que essa premissa não se sustenta.

Chris Brown foi condenado pela agressão contra Rihanna e continuou fazendo turnês. Cristiano Ronaldo foi acusado de violência sexual, negou o crime e seguiu como um dos maiores jogadores do mundo. Brad Pitt foi acusado pela ex-mulher, Angelina Jolie, de violência física, a mídia falou um tempo sobre o assunto e ele continua fazendo grandes filmes e sendo indicado a prêmios, como o Oscar. Mike Tyson foi condenado por estupro e voltou à cultura pop. Robinho foi condenado por estupro coletivo e só anos depois começou a cumprir pena no Brasil. Dado Dolabella foi condenado no caso de agressão contra Luana Piovani e a camareira Esmê. Mesmo com esse histórico, ele seguiu aparecendo na televisão, em reality show, na imprensa e na vida pública. Goleiro Bruno foi condenado pelo assassinato de Eliza Samudio e, mesmo assim, voltou a ser contratado por clubes depois da prisão, inclusive com notícia recente de atuação no futebol em 2026. 

São casos diferentes: condenação criminal, responsabilização civil, arquivamento ou ausência de denúncia. Não se trata de dizer que todos são iguais. Trata-se de perguntar por que a sociedade se preocupa primeiro com o futuro do homem e só depois com a história da mulher.

O medo da “vida destruída do homem” é seletivo. Ele aparece rápido quando há uma acusação. Mas raramente aparece com a mesma força quando uma mulher perde a saúde mental, a reputação, a liberdade de circular, a confiança no corpo, a autoestima e, muitas vezes, a própria vida.

Violência contra mulher não começa nem termina no tapa. Ela pode ser física, sexual, psicológica, moral e patrimonial. Um homem que não paga pensão para os filhos também pratica violência, porque transfere para a mulher o peso material, emocional e cotidiano da sobrevivência de uma criança. A violência mais brutal nem sempre vem com grito. Às vezes vem em silêncio. Às vezes vem no boleto que vence.

A violência é sutil, insidiosa e cotidiana. Aparece no feminicídio, no estupro e na agressão física, mas também no abandono financeiro, na humilhação, no controle e na corrosão lenta da autoestima.

Autoestima não nasce sozinha. Quando uma mulher cresce ouvindo que incomoda, que fala demais, que precisa ser dócil e silenciosa, sua autoestima não é apenas um problema individual. É uma construção social.

A pergunta não deveria ser: “E se a acusação acabar com a vida dele?” A pergunta deveria ser: quantas mulheres tiveram suas vidas diminuídas, desacreditadas ou destruídas antes que alguém acreditasse nelas?

Muitos homens acusados ou até condenados continuaram ricos, contratados, votados e ouvidos. A vida deles, na maioria das vezes, não acaba. A vida das mulheres é que costuma ser obrigada a recomeçar do zero.

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