Há mulheres que chegam para contar uma trajetória. E há mulheres que chegam para ampliar o modo como a gente enxerga o mundo. Aline Fuhrmeister faz as duas coisas. Arquiteta, inquieta, intensa, iniciadora de projetos e apaixonada por pessoas, ela construiu uma vida profissional a partir de uma pergunta que parece simples, mas muda tudo: quem está sendo deixado de fora quando um espaço é pensado? Essa pergunta atravessa a casa, a rua, a praça, o banheiro público, a escola, a empresa, o abrigo, a cidade. E atravessa, principalmente, a vida das mulheres.
Aline é fundadora do DU99, projeto que nasce de uma ideia radical e profundamente humana: levar arquitetura para os 99% da população que não têm acesso a um arquiteto. O nome carrega o propósito. “Du”, segundo ela explica, vem do alemão e significa “tu”, “o outro”. Já o 99 representa justamente essa imensa maioria da população que, por questões econômicas, não consegue contratar um profissional de arquitetura. O DU99 existe para olhar para esse outro. Para escutar antes de projetar. Para compreender que um espaço não é apenas parede, piso, luz e mobiliário. Um espaço é também acolhimento, segurança, pertencimento, dignidade e possibilidade de vida.
Aline costuma dizer que a arquitetura aparece, muitas vezes, no fim da fila das necessidades. Primeiro vêm a saúde, a alimentação, a urgência do cotidiano. E, por isso mesmo, muita gente nem sabe exatamente o que um arquiteto faz. Mas o trabalho dela mostra que arquitetura não é luxo. Arquitetura também é cuidado.
No DU99, esse cuidado se materializa em reformas sociais feitas em um único dia. A equipe chega a instituições sociais, escolas, asilos, centros comunitários, ONGs e espaços degradados, sempre com planejamento prévio, doações e voluntários. Em oito horas, o ambiente é transformado. Pintura, iluminação, mobiliário, consertos, reaproveitamento de materiais, afeto e trabalho coletivo entram em cena. Ao final do dia, o espaço é entregue renovado para quem vive, trabalha ou é atendido ali. Não se trata apenas de deixar um lugar mais bonito. Trata-se de mudar a forma como as pessoas se sentem dentro dele.
Aline também leva esse trabalho para fora do Brasil. Apaixonada pela Ásia, já realizou ações voluntárias na Índia, na Tailândia e no Vietnã. Na Índia, reformou um orfanato para meninas com HIV. Na Tailândia, uma escola para crianças pequenas. No Vietnã, um abrigo para 72 meninos. Ela conta que se sente profundamente conectada com o senso de comunidade, espiritualidade e respeito que encontra nesses lugares. Viajar, para ela, não é fuga, é uma forma de deixar marca, aprender e voltar transformada.
Mas talvez a parte mais potente da fala de Aline esteja na maneira como ela aproxima arquitetura de vida cotidiana. Ela nos lembra que os espaços não são neutros. Uma rua escura não é apenas uma rua escura. Uma praça com vegetação fechada e pouca visibilidade não é apenas uma praça mal cuidada. Um condomínio labiríntico não é apenas um projeto complexo. Um banheiro público pequeno demais não é apenas desconfortável. Para uma mulher, tudo isso pode significar medo, limitação, risco, exclusão. É aí que entram os conceitos de arquitetura feminista e design justice.
Arquitetura feminista não significa fazer uma arquitetura “para mulheres” como se todas as mulheres fossem iguais. Também não é uma disputa entre homens e mulheres. É uma forma de projetar considerando experiências que historicamente foram ignoradas. A experiência de quem anda pela cidade com medo. De quem precisa trocar um absorvente em um banheiro sem espaço, sem gancho, sem higiene e sem privacidade. De quem amamenta ou precisa retirar leite no trabalho e só encontra como opção um banheiro ou um quartinho improvisado. De quem cuida de crianças, idosos, pessoas com deficiência. De quem depende de iluminação, mobilidade, acessibilidade e segurança para simplesmente viver.
Aline é muito clara quando diz que homens e mulheres usam os espaços de maneiras diferentes. E que reconhecer essa diferença não é exagero, é projeto, inteligência, humanidade. A cidade, nesse sentido, entra no corpo, ela determina caminhos, horários, roupas, escolhas e medos.
É nesse ponto que o design justice aparece como conceito central do seu trabalho. Design justice, na visão de Aline, é pensar o espaço a partir da escuta. É perguntar como o outro vai se sentir, trazer para a conversa quem realmente ocupa aquele lugar, entender que não se projeta para uma comunidade a partir do gosto de quem vive em outro contexto. Não basta chegar com uma solução pronta, bonita e bem-intencionada, é preciso escutar. Aline resume isso de forma muito simples: se ela vai projetar a casa de alguém, não importa o que é bonito para ela, importa o que faz sentido para quem vai morar ali. O mesmo vale para uma escola, uma praça, um abrigo, uma ONG ou uma cidade inteira.
No caso das mulheres, isso é ainda mais urgente. A cidade foi, durante muito tempo, pensada por homens, para deslocamentos masculinos, para corpos masculinos, para rotinas que não consideravam cuidado, medo, maternidade, menstruação, sobrecarga e insegurança. A arquitetura feminista vem justamente para dizer que essas experiências importam. Que elas devem entrar no desenho dos espaços, que uma cidade boa para mulheres tende a ser melhor para todos: crianças, idosos, pessoas com deficiência, pedestres, trabalhadores, moradores.
Aline fala de segurança urbana com muita precisão. Ruas iluminadas, com movimento, amplitude e visibilidade, tornam a circulação mais segura, espaços estreitos, escuros, escondidos e sem fluxo criam medo e vulnerabilidade. E ela lembra que, para uma mulher, o medo na rua não é abstrato. Ele molda o trajeto, o horário, o comportamento e a liberdade.
Ela não projeta apenas lugares, ela projeta possibilidades. Possibilidades para que uma criança entre em uma sala e sinta orgulho. Para que uma mulher caminhe sem medo. Para que uma mãe retire leite sem humilhação. Para que uma comunidade se reconheça em um espaço renovado. Para que a arquitetura deixe de ser privilégio e se torne ferramenta de cuidado.
Aline inspira porque transforma. Mas inspira, sobretudo, porque escuta antes de transformar. E num mundo em que tanta gente ainda projeta sem perguntar, a escuta talvez seja a forma mais urgente de arquitetura.
Assista a entrevista completa aqui: https://youtu.be/ELDxHjXpz-s