Nos mil dias do bebê se cria uma aldeia

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Os mil dias do bebê

Quando um bebê nasce, não nasce apenas uma criança: nasce uma mãe, nasce um pai, avós, tios, primos e uma família inteira que, de alguma maneira, também precisa aprender a ocupar um novo lugar. É a partir dessa compreensão que o obstetra Gustavo Steibel trabalha com o conceito dos primeiros mil dias do bebê e desenvolve, junto ao Nasce Saúde, um projeto que pretende ampliar o olhar sobre gravidez, nascimento e primeira infância.

Os chamados primeiros mil dias compreendem, aproximadamente, o período que vai da gestação até os dois primeiros anos de vida da criança. É uma fase considerada decisiva porque nela acontecem transformações intensas no desenvolvimento físico, cerebral, emocional e afetivo do bebê. O conceito ganhou força inicialmente a partir de estudos sobre nutrição durante a gravidez e os primeiros anos de vida, relacionando esse período à saúde futura da criança. Com o avanço das pesquisas, porém, o olhar se ampliou, a alimentação continuou sendo fundamental, mas passaram a ganhar importância também o ambiente, o vínculo afetivo, os estímulos, a proteção e, principalmente, a qualidade do cuidado recebido pela criança.

Para Gustavo Steibel, é impossível falar sobre os primeiros mil dias olhando somente para o bebê, é preciso olhar para quem cuida dele.

Essa é uma das ideias centrais do projeto desenvolvido por sua equipe. Afinal, um recém-nascido depende integralmente de outras pessoas para sobreviver, se desenvolver e descobrir o mundo. Portanto, proteger a criança significa também criar condições para que sua mãe e seus demais cuidadores estejam protegidos, amparados e emocionalmente disponíveis.

É justamente nesse ponto que o projeto propõe uma mudança importante na maneira tradicional de enxergar a maternidade. A mãe continua ocupando um lugar central, especialmente nos primeiros momentos da vida do bebê, mas ela não deveria ocupar esse lugar sozinha. Steibel defende que a gravidez seja compreendida como uma experiência do casal e que o pai seja chamado para dentro desse processo desde o início. Ele costuma dizer aos homens que, se eles não sabem “fazer o bebê”, devem cuidar de quem está fazendo. Em outras palavras, durante a gestação, participar não significa tentar ocupar o lugar da mulher, mas compreender suas necessidades, acompanhar consultas, conhecer o desenvolvimento da criança, cuidar da casa, compartilhar decisões e criar as condições para que a mãe possa viver aquele período com mais segurança e menos sobrecarga.

Depois do nascimento, essa participação ganha ainda mais importância. O bebê precisa de alimentação, colo, sono, acompanhamento médico, vacinação, estímulo, atenção e proteção. Ao mesmo tempo, existe uma mulher se recuperando do parto, enfrentando profundas mudanças físicas e emocionais e aprendendo a cuidar de um ser absolutamente dependente dela. Se todo esse trabalho recair sobre uma única pessoa, a sobrecarga é praticamente inevitável.

Para o médico, criar uma criança é necessariamente um trabalho coletivo. A velha frase de que “é preciso uma aldeia para criar uma criança” está no centro do projeto. O problema é que, para muitas famílias contemporâneas, essa aldeia se fragmentou. Avós moram longe, famílias são menores, jornadas de trabalho são intensas e o cuidado foi sendo tratado como uma responsabilidade individual, especialmente da mulher.

O projeto dos mil dias tenta reconstruir essa aldeia. E uma das ferramentas criadas para isso é um aplicativo pensado para aproximar justamente as pessoas que podem participar da chegada daquela criança. Gustavo descreve o aplicativo “1000 dias” como uma espécie de aldeia digital. Ele funciona, inicialmente, como uma carteira de acompanhamento da gestação, mas com uma diferença fundamental: não foi criado para ser usado apenas pela gestante. A mãe pode convidar o pai e, depois, ampliar esse círculo para avós, avôs, tios, tias, primos e outras pessoas próximas. Assim, aquela gravidez deixa de existir somente dentro do corpo da mulher e passa, simbolicamente, a acontecer também dentro daquela comunidade.

O pai, por exemplo, pode acompanhar pelo celular o desenvolvimento do bebê semana após semana. Ele recebe informações sobre o que está acontecendo naquele momento da gestação, quais partes do corpo estão se formando, como a criança está crescendo e, mais tarde, continua acompanhando os diferentes marcos do desenvolvimento até aproximadamente os dois anos de idade. Pode parecer uma ferramenta simples, mas existe uma intenção importante por trás dela: criar vínculo.

A mulher percebe as transformações da gravidez no próprio corpo, já o homem, não. Por isso, segundo o doutor, é preciso encontrar outras maneiras de trazê-lo para perto. Quando ele recebe informações, acompanha a evolução da criança e entende o que está acontecendo, aquela gravidez começa a ganhar uma dimensão mais concreta também para ele.

E o aplicativo não pretende parar no pai. A ideia é que avós e outros integrantes da família também sejam convidados. Quando uma avó passa a acompanhar o crescimento daquele bebê desde as primeiras semanas da gestação, por exemplo, ela começa a fazer parte da história daquela criança antes mesmo do nascimento.

“Quando nasce um bebê, nasce uma mãe, nasce um pai, nasce uma avó, nasce um avô”, explica Steibel durante a conversa. É esse movimento que ele chama de “engravidar a sociedade”.

O aplicativo também traz uma proposta de gamificação: os participantes da família recebem estímulos relacionados a hábitos saudáveis, como atividade física, sono e alimentação. A lógica é simples: se existe uma mulher modificando toda a sua rotina em função daquela criança, por que as pessoas ao redor dela não poderiam aproveitar o mesmo momento para rever seus próprios hábitos?

Durante muito tempo, cuidar dos filhos foi tratado como alguma coisa que simplesmente acontecia dentro das casas. Um trabalho invisível, quase sempre realizado pelas mulheres. Enquanto o trabalho remunerado ganhou horários, salários, metas e reconhecimento, o trabalho de cuidar permaneceu sendo entendido como obrigação materna. Steibel propõe inverter essa lógica. Para ele, uma mulher grávida já está realizando um trabalho gigantesco. Seu organismo está formando um novo ser humano. Depois do nascimento, esse trabalho continua através do cuidado, da alimentação, do vínculo e da presença necessários para que aquele bebê se desenvolva.

Isso não significa defender que mulheres devam abandonar suas profissões durante dois anos. O próprio médico faz questão de esclarecer essa questão. Cada mulher deve ter liberdade para decidir como organizar sua vida profissional, sua maternidade e sua rotina. Algumas desejarão voltar rapidamente ao trabalho; outras preferirão permanecer mais tempo exclusivamente com a criança.

A questão central não é determinar o que uma mãe deve fazer, é permitir que ela tenha condições reais para escolher. E, para isso, é preciso que o cuidado deixe de ser exclusivamente dela.

Steibel conta que já percebe mudanças entre os homens que acompanha. Muitos chegam ao consultório querendo participar e perguntando o que podem fazer. Para ele, existe uma diferença significativa em relação às gerações anteriores. Se há algumas décadas era comum mulheres comparecerem sozinhas às consultas obstétricas, hoje muitos parceiros querem estar presentes, o desafio é transformar presença em participação.

Participar significa saber o que está acontecendo com o bebê, acompanhar consultas, entender as necessidades da mulher, dividir responsabilidades e assumir tarefas sem esperar que a mãe precise administrar também o trabalho do pai.

O aplicativo criado por Gustavo Steibel tenta transformar essa ideia em algo concreto: colocar a aldeia dentro do celular para que, pouco a pouco, ela volte a existir também fora dele. Porque talvez os primeiros mil dias de um bebê sejam justamente isso: mil dias nos quais uma criança está aprendendo a viver e, ao mesmo tempo, uma família inteira está aprendendo a cuidar.

 

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