Disseram que não era para mim, eu decidi escrever a minha própria história.
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Para chegar à minha sala de aula, eu precisava descer uma escadaria. E, normalmente, havia meninos dos dois lados fazendo sons de macaco. Chegava à sala e, ouvia: “Eu te vi na rua conversando com aquela mulher lixeira!”.
Aquela mulher era minha mãe e eu era, a filha da Lixeira.
Dirlene com a mãe e as duas irmãs.
Minha mãe, Vera, é uma mulher negra que antes de se tornar gari, trabalhou como empregada doméstica e diarista para criar suas filhas. A conquista daquele emprego representava um salário melhor e sustento para nossa família. Para alguns, porém, tornou-se mais um motivo para tentar me diminuir.
Cresci ouvindo, de diferentes maneiras: “Isso não é para ti”. Quando criança, meu sonho era poder brincar com as outras crianças. Eu as via brincando e pedia para brincar também, diziam que eu não podia brincar porque era preta e tinha o “cabelo duro”.
Ainda na pré-adolescência, assistindo à televisão, me apaixonei por economia. Eu não conhecia as teorias, mas percebia que aqueles assuntos afetavam diretamente o pouco dinheiro que tínhamos.
No ensino médio, descobri que existia uma profissão para o tema que tanto me fascinava. Então, decidi que seria economista. Me tornei motivo de piadas e a pergunta: “Como a filha da Lixeira vai estudar e ser economista?”
Então, veio o entendimento: se acreditasse em tudo o que diziam sobre mim, passaria a vida inteira no lugar que haviam escolhido para mim. E, eu queria escolher o meu caminho!
Dirlene na sua formatura de economia.
Escolhi o estudo, o trabalho e o esperançar. Não a esperança de esperar sentada, mas aquela que nos coloca em movimento: insistir, persistir e não desistir.
Ser uma mulher negra e pobre tornou muitos caminhos mais longos. Houve lugares em que precisei provar mais vezes que era capaz. Não romantizo essas barreiras, elas não deveriam ter existido, mas me recusei a permitir que definissem meu destino.
Tornei-me economista e executiva, realizei meu sonho. Anos depois, já maior que meus sonhos, cheguei a Paris. Diante da Torre Eiffel, olhei para aquele lugar que um dia pareceu tão distante da menina que eu fui e disse para mim mesma: “A filha da Lixeira chegou a Paris.”
Naquele instante, o apelido usado para me diminuir já não me envergonhava, ao contrário, me dava muito orgulho, e, pela primeira vez, pensei que precisava deixar registrada esta história. Assim começou a nascer o livro “Do lixo a Paris: minha jornada de filha da Lixeira a referência em Educação Financeira”.
Primeiro, pensei em escrevê-lo para minha filha. Não quero deixar para ela apenas coisas, quero deixar possibilidades. Quero que ela conheça a história da avó Vera, saiba de onde viemos e cresça entendendo que pode sonhar, escolher e construir. Depois percebi que esse legado poderia ir além de minha filha.
Afinal, ainda hoje, infelizmente existem pessoas ouvindo que determinados sonhos não são para elas. Quero que minha história chegue até essas pessoas e mostre o que eu aprendi na prática: Origem é ponto de partida, não destino.
Planejamento previdenciário, para as mulheres, pensar também em autonomia, segurança e liberdade para fazer escolhas no futuro. E essa construção (...)