O que uma menina de 12 anos enxergou? Há uma imagem da Expointer que não consigo tirar da cabeça. Um cavalo assustado corre pela pista, a cavaleira caiu. O animal dispara, derruba grades, passa perigosamente perto das pessoas. Homens correm atrás dele, tentam segurá-lo, se movimentam de um lado para o outro. E então aparece uma menina de 12 anos: Kaila Jardim Boettcher segura as rédeas e consegue conter o animal.
Não quero transformar Kaila em heroína porque ela é uma criança que se colocou diante de um animal assustado, uma situação que, evidentemente, envolvia riscos. O que me interessa naquela cena é outra coisa, o que ela viu. Enquanto todos corriam atrás do cavalo, ela parece ter entendido uma coisa elementar: havia ali um animal apavorado, aquele cavalo estava com medo.
“Ele estava muito nervoso”, contou ela depois. Talvez seja justamente essa a questão, estamos tão acostumados a ver animais como parte de provas, exposições, negócios, competições, premiações e entretenimento que, às vezes, esquecemos de enxergar o animal. O cavalo deixa de ser um ser vivo assustado e passa a ser “o cavalo que fugiu”, o boi deixa de ser um animal submetido a um ambiente estranho e passa a ser “o campeão”. O animal vira espetáculo.
E não estou dizendo que todo animal que participa da Expointer seja maltratado, seria simplista e injusto afirmar isso. A feira tem fiscalização sanitária, regras e equipes responsáveis pelo acompanhamento dos animais. Em 2026, por exemplo, milhares de animais foram inscritos em julgamentos, leilões e provas, e o Estado informa a atuação de equipes veterinárias e técnicas na fiscalização, segundo o (Portal do Estado do Rio Grande do Sul). Mas uma coisa não elimina a outra.
Podemos reconhecer a importância econômica e cultural da Expointer e, ao mesmo tempo, perguntar sobre o bem-estar dos animais que são transportados, confinados, expostos, submetidos a barulho, circulação de pessoas, mudanças de ambiente e, em determinados casos, utilizados em provas e competições. Perguntar não é demonizar o campo, perguntar é cuidar.
E aquela cena me fez lembrar de uma história antiga, conhecida no mundo inteiro: a do menino que teria colocado o dedo em um pequeno buraco de um dique na Holanda para impedir que a água avançasse e provocasse uma inundação. A história é bonita justamente porque fala de uma criança diante de uma emergência. Um pequeno gesto, aparentemente insignificante, segurando por algum tempo uma força muito maior, até que os adultos chegassem e resolvessem o problema.
Só que há uma diferença importante: essa história nunca aconteceu de verdade. O menino é personagem de uma narrativa literária, a história foi popularizada por Mary Mapes Dodge e acabou se transformando em símbolo da luta holandesa contra as águas. (Flevolands geheugen). Na Expointer, porém, a menina existiu, ela estava lá, e segurou um cavalo de verdade. Talvez seja por isso que as duas histórias se encontrem tão bem.
Em uma, uma criança tapa com o dedo o pequeno vazamento antes que ele se transforme em desastre. Na outra, uma criança segura as rédeas antes que o pânico de um animal possa se transformar em tragédia. Nas duas, há algo de profundamente humano: perceber o perigo antes que ele se torne irreversível. Mas há também uma pergunta incômoda. Quantos “pequenos buracos” nós deixamos abertos quando o assunto é o tratamento que damos aos animais?
Quantas vezes esperamos que algo dê errado? Um cavalo que dispara, um animal que entra em pânico, um acidente, para então correr atrás do problema? Talvez a verdadeira lição daquela menina de 12 anos não seja que ela foi corajosa o suficiente para segurar um cavalo. Talvez seja que ela conseguiu enxergar, no meio do tumulto, aquilo que todos deveriam estar vendo: um animal com medo. E um animal com medo não precisa de espetáculo, precisa de cuidado.
Por Fátima Torri.