O que significa ser homem? Essa é a pergunta que atravessa o livro Coisa de menino? Uma conversa sobre masculinidade, sexualidade, misoginia e paternidade, dos psicanalistas Maria Homem e Contardo Calligaris. Mais do que buscar uma definição pronta, os autores investigam como a masculinidade é construída desde a infância, dentro das famílias, das relações afetivas e de uma sociedade ainda profundamente marcada pelo patriarcado.
Em um dos trechos mais provocadores da conversa, Calligaris observa que a expectativa materna costuma ser maior sobre o menino do que sobre a menina. Não necessariamente porque as mães amem mais os filhos homens, mas porque o menino pode ocupar um lugar simbólico muito particular. Ele nasce do corpo da mulher, mas não é percebido como uma continuação dela.
A filha, de alguma maneira, apresenta-se como semelhante. A mãe pode reconhecer naquela menina algo de sua própria história, de suas experiências, de suas possibilidades e também de seus limites. O menino, ao contrário, é visto como um outro. Ele saiu dela, mas poderá circular pelo mundo com as liberdades e as oportunidades que, durante muito tempo, foram negadas às mulheres.
O filho homem pode se transformar, então, naquele que realizará tudo aquilo que a mãe não conseguiu realizar. Aquele que terá reconhecimento, poder, dinheiro, autoridade, autonomia e espaço. Aquele que será tudo o que ela não foi, não pôde ser ou talvez nem tenha tido permissão para desejar.
Essa projeção, porém, tem um preço. O menino cresce convivendo com a sensação de que algo extraordinário é esperado dele. Não basta existir, experimentar, errar e encontrar o próprio caminho. Ele precisa corresponder a uma promessa. Precisa vencer, destacar-se, proteger, sustentar, demonstrar força e provar que merece o lugar especial que recebeu. É assim que uma expectativa aparentemente amorosa pode se transformar em uma prisão.
Desde cedo, muitos meninos aprendem que não podem decepcionar. Que precisam esconder o medo, controlar o choro e resolver os problemas sozinhos. A fragilidade passa a ser percebida como fracasso. A dependência vira vergonha. Pedir ajuda parece incompatível com aquilo que se espera de um homem.
Não se trata de responsabilizar individualmente as mães. Elas também foram formadas por uma sociedade que colocou os homens no centro das decisões, do poder e das oportunidades. Durante gerações, muitas mulheres viram nos filhos a possibilidade indireta de participar de um mundo ao qual não tinham acesso. O problema não está no amor nem no desejo de que um filho tenha uma vida melhor. Está na transformação desse filho em um projeto de compensação.
Quando o menino precisa carregar os sonhos interrompidos da mãe, os desejos do pai, a honra da família e todas as exigências da masculinidade, sobra pouco espaço para que ele descubra quem realmente é.
E o que acontece com a menina nessa história? Receber menos expectativas pode parecer uma espécie de liberdade, como sugere Calligaris. Mas essa aparente sorte também revela uma desigualdade. Durante muito tempo, não se esperava que as meninas conquistassem o mundo porque o mundo não lhes era oferecido. Delas se esperava adaptação, cuidado, casamento, maternidade e obediência.
Meninos e meninas, portanto, recebem pesos diferentes. Sobre os meninos, coloca-se frequentemente a obrigação de serem grandiosos. Sobre as meninas, a exigência de não ocuparem espaço demais. Uns aprendem que precisam dominar. Outras aprendem que devem ceder.
É dentro dessa estrutura que a masculinidade pode se relacionar com a misoginia, com a dificuldade de lidar com a rejeição e com a necessidade de controlar as mulheres. Um menino educado para acreditar que nasceu destinado a algo extraordinário poderá ter dificuldades para aceitar frustrações, limites e relações em que não seja o centro.
Por isso, discutir masculinidade não é atacar os homens. É libertá-los de um modelo que lhes promete poder, mas lhes nega humanidade. Talvez seja necessário dizer aos meninos que eles não precisam ser extraordinários. Que podem ser comuns, inseguros, sensíveis e imperfeitos. Que não nasceram para realizar os sonhos interrompidos de ninguém. Que não precisam salvar a mãe, representar o pai ou provar constantemente o próprio valor.
Criar um menino deveria significar oferecer a ele a liberdade de se tornar uma pessoa inteira. Alguém capaz de reconhecer os próprios sentimentos, cuidar de si, respeitar as mulheres e construir relações sem precisar dominar ou ser dominado. Quando deixamos de perguntar apenas o que um homem deve ser e começamos a perguntar quem aquele menino deseja ser, abrimos espaço para uma masculinidade menos rígida, menos violenta e mais humana.
Porque um filho não deve nascer para ser tudo aquilo que a mãe não pôde ser. Ele deve poder descobrir, com liberdade, quem é.