Cuidar dos filhos transforma pais em heróis e mães em culpadas

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cuidar dos filhos transforma pais em heróis e mães em culpadas

Cuidar dos filhos transforma pais em heróis e mães em culpadas. Meu marido levou as crianças sozinho para a Copa do Mundo. Passaram uma semana numa verdadeira maratona: três cidades, três jogos. Um pai com duas crianças de 7 e 9 anos. E isso chamou atenção, ele recebeu muitos elogios, e merecidamente. Sabemos que, se fosse uma mãe, no caso eu, fazendo exatamente a mesma coisa, os aplausos provavelmente seriam menores.

Ainda hoje, infelizmente, não é comum ver um homem assumir sozinho os cuidados dos filhos por vários dias, sem a retaguarda de outra mulher. Ao mesmo tempo, há algo de muito bonito nisso. Num mundo ainda tão machista, faz bem para os meninos verem homens ocupando esse lugar de cuidado. É um modelo importante.

O patriarcado não apenas sobrecarrega as mulheres. Ele também priva os homens da possibilidade de construir uma intimidade profunda com os filhos. Amputa deles a chance de descobrir que sabem cuidar e de experimentar como é acompanhar de perto uma criança em suas dificuldades, descobertas e conquistas.

Mas essa viagem me levou a uma reflexão ainda maior. Toda vez que me afasto para cuidar de mim, trabalhar, viajar ou simplesmente viver algo sem as crianças, sinto uma culpa enorme. Meu marido, quando faz o mesmo, vai leve. Desfruta do momento, se entrega à experiência e sente que merece estar ali.

Eu, como tantas mulheres, vivo com a sensação de estar sempre devendo alguma coisa. Quando olho para a história da minha mãe e das minhas avós, penso no quanto sou privilegiada. Minha vida é muito mais livre do que foi a delas. Tenho mais possibilidades, mais autonomia, mais espaço. E, paradoxalmente, isso às vezes produz em mim uma sensação de dívida, como se eu nunca estivesse fazendo o suficiente.

Já os homens que dividem os cuidados da casa e dos filhos, como o meu marido, têm, com certa razão, a sensação de estarem arrasando! Comparados aos seus pais e avôs, realmente estão. Por isso, onde muitas mulheres sentem culpa, muitos homens sentem orgulho.

Talvez exista aí uma assimetria curiosa da transformação social. Como as coisas começaram, enfim, a ficar um pouco mais justas, nós, mulheres, continuamos medindo a nós mesmas por um ideal impossível de dedicação total. Os homens, por outro lado, ainda se medem pelo passado. Basta fazerem mais do que as gerações anteriores para sentirem que chegaram longe.

Espero que as próximas gerações não precisem carregar nenhuma dessas heranças. Que os homens possam cuidar dos filhos sem serem tratados como heróis. E que as mulheres possam cuidar de si sem se sentirem em falta.

Quando isso acontecer, talvez possamos dizer que a igualdade deixou de ser exceção para se tornar simplesmente a vida.

Por Rafaela Degani, psicanalista e escritora, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre e do Centro de estudos psicanalíticos de Porto Alegre.

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