“Não basta ter suprimento constante de personagens. É preciso ter talento literário de Andréa para transformá-los. Recomendo este livro com grande admiração. E inveja.”
A frase de Luis Fernando Verissimo, escrita para Velhos São os Outros, resume a força da obra de Andréa Pachá: observar a vida real, especialmente nos momentos de maior fragilidade, e transformá-la em literatura sem reduzir ninguém ao pior instante de sua história.
Nascida em Petrópolis, em 1964, Andréa Maciel Pachá é escritora, juíza, desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e Ouvidora do Poder Judiciário fluminense. Com longa atuação nas áreas de Família e Sucessões, também integrou a Secretaria-Geral da Presidência do TSE. Antes da magistratura, trabalhou com cinema, roteiro, teatro, produção cultural e literatura. Essa formação aparece no olhar compassivo com que narra separações, disputas familiares, envelhecimento, abandono, violência e finitude.
Na entrevista ao Fala Feminina, Andréa falou sobre uma “velhice inédita”. Pela primeira vez, cinco gerações coexistem, muitas vezes com mulheres idosas cuidando de pessoas ainda mais velhas. A longevidade é uma conquista, mas também expõe desigualdades. Viver mais com dignidade depende de acesso à saúde, informação, renda, apoio e, sobretudo, autonomia.
Foi acompanhando processos de curatela que Andréa percebeu como pessoas antes independentes podiam perder, de uma hora para outra, o direito de decidir sobre a própria vida. Filhos e familiares, mesmo acreditando estar protegendo, muitas vezes escolhem onde a mãe vai morar, como usará o dinheiro e quem administrará sua rotina.
“Eu não quero envelhecer sem que a minha voz seja ouvida”, afirmou.
A conversa também atravessou a violência contra as mulheres. Para Andréa, ela não começa no feminicídio. Começa na desqualificação, na piada, no controle, na ameaça, na destruição de objetos, na violência psicológica tratada como exagero ou mau humor. Identificar esses sinais no início pode salvar vidas. Ela também defende que a vergonha mude de lado: o constrangimento deve recair sobre o agressor, não sobre a vítima.
Andréa chamou atenção ainda para as violências que acompanham o envelhecimento: filhos que se apropriam da aposentadoria das mães, cartões bancários, empréstimos consignados e até da casa onde elas vivem. A mulher, que passou a vida cuidando, continua sendo a vítima prioritária também na velhice.
Ao falar de feminismo, Andréa criticou o ideal da mulher perfeita e multifuncional. “Eu não quero ser multifuncional, eu quero fazer o que eu quero.” Para ela, o feminismo precisa continuar denunciando a desigualdade, mas também encontrar uma linguagem de afeto, humor e potência.
Talvez seja esse o ponto central de sua obra e de sua fala: compreender sem julgar, denunciar sem aprisionar e afirmar a vida mesmo quando ela se apresenta injusta, contraditória e dolorosa.
A entrevista completa com Andréa está disponível no nosso canal do YouTube ou clicando no link a seguir: