O que as eleições de 2026 dizem sobre a presença feminina na política brasileira? As mulheres que perdemos…
Há derrotas eleitorais que representam muito mais do que a perda de um mandato. Há derrotas que nos fazem pensar sobre o país que estamos construindo, sobre as vozes que escolhemos ouvir e sobre aquelas que estamos deixando de ouvir.
Este artigo olha para seis mulheres que marcaram a política brasileira: Manuela d’Ávila, Benedita da Silva, Soraya Thronicke, Simone Tebet, Marina Silva e Gleisi Hoffmann. Para o trabalho que realizaram e para o que significa não contar com essas vozes no Senado.
São mulheres de diferentes origens, gerações, experiências e posições políticas. Não concordam em tudo. Não percorreram os mesmos caminhos. Algumas estiveram em lados opostos de disputas importantes. Mas ocuparam espaços de poder historicamente reservados aos homens e, em diferentes momentos, ajudaram a colocar necessidades das mulheres na agenda pública. É justamente por isso que suas ausências precisam ser discutidas.
Manuela d’Ávila conhece de perto a violência que tenta silenciar uma mulher quando ela ocupa espaços de poder. Mentiras, ameaças e humilhações atingem sua reputação, sua família e sua possibilidade de participar da vida pública. Foi vereadora, deputada federal e deputada estadual. Na Câmara, foi relatora do Estatuto da Juventude, ajudando a construir um marco de direitos relacionados à educação, ao trabalho, à cultura e à participação dos jovens. Para uma mãe que acompanha a filha procurando uma oportunidade de estudo ou o primeiro emprego, essas questões têm endereço, rosto e urgência. Manuela também levou ao debate público a violência política de gênero. Sua contribuição nos lembra que nenhuma mulher deveria precisar escolher entre participar da política e preservar a segurança da própria família.
Benedita da Silva levou para as instituições uma experiência que o Brasil passou muito tempo deixando do lado de fora. Mulher negra, criada na favela e ex-trabalhadora doméstica, conheceu as barreiras que depois enfrentaria na vida pública. Foi constituinte, senadora, governadora e ministra. Na Câmara, foi relatora da PEC das Domésticas, uma conquista construída por muitas mãos, que ampliou os direitos de uma categoria formada majoritariamente por mulheres. É possível medir parte dessa mudança nas horas de trabalho. No reconhecimento de que a jornada precisa ter limite. No direito de receber pelo tempo trabalhado além dela. Para quem passou a vida cuidando da casa e dos filhos de outras pessoas, isso também significa ter mais condições de cuidar de si e da própria família.
Marina Silva levou a experiência da floresta para o centro das decisões nacionais. Filha de seringueiros, alfabetizada na adolescência, tornou-se uma referência na defesa do meio ambiente. Como ministra, participou da construção e da implementação de políticas de combate ao desmatamento. Um trabalho coletivo que contribuiu para reduzir a destruição da Amazônia. Essa defesa chega à vida das mulheres de maneiras muito concretas: na água que abastece a casa, no alimento que encarece com os extremos do clima, na saúde da criança que respira fumaça, na tentativa de reconstruir a vida depois de uma enchente. No Rio Grande do Sul, sabemos o que significa perder a casa e precisar recomeçar. A ausência de uma voz com essa experiência importa quando o país decide como proteger seu território e sua população.
Simone Tebet construiu sua trajetória em um ambiente político tradicionalmente masculino. Foi prefeita, senadora e ministra, presidiu a Comissão de Constituição e Justiça e liderou a bancada feminina do Senado. Entre suas atuações, apoiou a aprovação de mudanças para facilitar a proteção de mulheres em situação de violência doméstica. Para quem acompanha esse debate de longe, pode parecer apenas uma alteração na lei. Para uma mulher ameaçada, pode significar conseguir ajuda antes que o agressor volte. Sua experiência de negociação também importa. Direitos precisam de votos, recursos e capacidade de construir acordos para chegar à vida de quem necessita deles.
Gleisi Hoffmann levou ao debate legislativo a proteção previdenciária das donas de casa de baixa renda. Apresentou uma proposta para modificar a carência exigida para a aposentadoria dessas mulheres. Uma proposta não pode ser confundida com um benefício já assegurado. Mas apresentá-la é reconhecer um problema que atravessa gerações. Há mulheres que passaram décadas preparando comida, lavando roupa, acompanhando consultas e cuidando de crianças, idosos e pessoas doentes. Sustentaram a rotina de uma família sem receber salário. Quando envelhecem, descobrem que todo esse trabalho não lhes garantiu autonomia financeira. Quem cuida também precisa de proteção. Levar essa questão ao Congresso é disputar o reconhecimento de uma vida inteira de trabalho.
Soraya Thronicke relatou o projeto de inclusão da misoginia entre os crimes de preconceito ou discriminação, aprovado pelo Senado e encaminhado à Câmara. Sua atuação ajudou a fazer avançar uma resposta institucional ao ódio contra as mulheres. Esse ódio aparece na ameaça enviada pelo celular, na humilhação pública, na tentativa de destruir a mulher que denuncia ou simplesmente se recusa a obedecer. Enfrentá-lo exige reconhecer que a violência pode começar muito antes da agressão física. E que nenhuma mulher deveria aceitar a intimidação como preço por ter voz.
O que essas ausências têm a nos dizer? A ampliação da presença feminina no Senado é uma conquista. Mas a contagem de cadeiras precisa vir acompanhada de outras perguntas. O que essas representantes defendem? Como votam? Que projetos apoiam? Que lugar reservam às mulheres em suas propostas de sociedade. Ter mais mulheres na política não significa, automaticamente, ter mais políticas para as mulheres. Uma representante pode apoiar propostas que ampliem a autonomia feminina. Pode também defender medidas que a restrinjam ou reforçar a ideia de que o cuidado é uma obrigação exclusivamente nossa. Isso não diminui sua legitimidade eleitoral. Exige de nós atenção ao conteúdo de sua atuação.
As mulheres têm experiências e opiniões diferentes. Não precisamos concordar em tudo para reconhecer que segurança, trabalho digno, proteção social e participação nas decisões públicas dizem respeito à nossa vida.
Também precisamos olhar para as condições em que se disputa uma eleição. Para o financiamento das campanhas, o apoio das estruturas partidárias, a violência política de gênero e os critérios com que a sociedade avalia homens e mulheres. Não podemos atribuir todas as derrotas a uma única causa. Tampouco podemos ignorar as barreiras que continuam afastando mulheres dos espaços de decisão.
Nenhuma das conquistas citadas aqui pertence a uma pessoa só. Foram construídas com movimentos sociais, trabalhadoras, organizações e outras lideranças. Reconhecer a contribuição dessas seis mulheres também é reconhecer essa construção coletiva. Suas ausências não apagam o que foi realizado nem fazem desaparecer, por si mesmas, os direitos conquistados. Mas nos levam a perguntar quem terá disposição e força para defendê-los, colocá-los em prática e fazê-los avançar.
As mulheres que perdemos continuam tendo história, experiência e capacidade de atuar na vida pública. Nós precisamos continuar acompanhando quem decide sobre a nossa vida. Uma votação pode parecer distante até se transformar na jornada de uma trabalhadora, na proteção de uma mulher ameaçada ou na renda com que alguém vai atravessar a velhice. É nesses lugares que a política nos encontra. E é por essas mulheres que ela precisa responder.