Carta aberta a deputada Eduarda Campopiano

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Carta aberta a Eduarda Compopiano

Querida Eduarda, essa é uma carta aberta.

Meu nome é Laísa, eu tenho 24 anos. Temos pouco mais de 1 ano de diferença, você de 2003, eu de 2002.

Enfrentamos todas as fases do crescimento de uma mulher ao mesmo tempo. Infância, puberdade, adolescência. Hoje somos jovens adultas entrando em uma vida de trabalho. Você em Campinas, eu no interior do Rio Grande do Sul.

Confesso que pesquisei muito sobre sua história antes de começar a escrever esse texto. Não consegui encontrar muita coisa pela falta de registros. Mas supondo que você cresceu num lar conservador e cristão, posso me identificar muito com a sua trajetória. Mas também, li coisas muito curiosas a seu respeito. Como você foi de feminista radical a mulher anti-feminista? Adoraria entender melhor…

Sou filha de pais católicos fervorosos. Meu pai, foi aquilo que um pai deve ser: presente, ativo, carinhoso e educador, sempre me levou a igreja e sempre buscou ajuda espiritual. Minha mãe é uma devota ferrenha de nossa senhora Aparecida, foi ela quem me colocou em contato com catequese, grupo de jovens e até ao serviço de coroinha do padre.

Eu cresci dentro de escola pública, onde minha mãe trabalhava e foi por anos diretora. Apesar de ser uma cidade muito pequena, eu tive contato com pessoas muito diferentes lá dentro. Crescendo, conheci pessoas trans, gays, negras, indígenas, muito pobres ou muito ricas. Confesso que uma vez vi um menino usando máscara de cílios na escola e achei engraçado, por que como assim um homem usava maquiagem?

Como que eu, uma menina branca, católica, do interior do estado fui disso, uma menina que ria do rímel alheio, para uma mulher feminista e militante?
Eu me pergunto como você, uma mulher, branca do interior de estado foi de uma menina para uma mulher que se denomina anti-feminista… E essa é uma dúvida genuína.

Como eu disse, pesquisei sua história, mas não encontrei muita coisa para conseguir entender seu passado. Infelizmente terei que presumir muito. Terei que presumir que você teve pais super conservadores. Terei que presumir que você teve uma vida com muitos privilégios. Acredito que uma pessoa que conheça a realidade do outro, não ousaria se denominar contra a existência de alguém.

Eu não sei quais foram as suas lutas crescendo, uma adolescente feminista que se tornou uma adulta muito raivosa com mulheres? No mínimo curioso. Mas ao lhe ver, eu sinto que você talvez tenha passado coisas que eu também passei enquanto crescia. Eu fui uma mulher gorda a vida inteira, nunca tive o padrão de beleza esperado. E nós duas sabemos que você também passa por isso. Mas uma coisa que eu aprendi crescendo e evoluindo foi que o machismo construído na cultura social nos fez passar por isso.

Eu vejo, Eduarda, que você se incomoda com os comentários misóginos sobre a sua aparência, e eu lhe encorajo chamar isso pelo nome que deve ser chamado: machismo.

O feminismo não se resume a mulheres com pelos na axila, cabelos rebeldes e uma língua afiada. O feminismo é o que fez com que eu e você crescêssemos com liberdade de escolha.

Eu escolhi ser feminista, escolhi lutar e defender os direitos das mulheres. Você escolheu o contrário, mas você entende que, mesmo assim, foram as feministas que lhe deram este direito?

Nós passamos a votar apenas em 1932, durante o governo de Getúlio Vargas. Muitas pessoas atribuem esse direito a ele, da mesma maneira que atribuem à princesa Isabel a abolição da escravatura. Mas como todos os negros que lutaram, morreram e deram sangue pela revolução, antes de 32 existiram mulheres que lutaram, morreram e deram sangue pelo direito ao voto.

A Bíblia não reconhece feminicídio, é verdade. Mas a Bíblia reconhece que devemos honrar aqueles que estão ao nosso lado pelo matrimônio, isso é mandamento de Deus. Honrar está no ato de cuidado, escuta, dignidade, liberdade e direito à vida.

Sim, em pleno 2026 temos que discutir direito a vida. É ridículo, concorda?

Talvez você nunca tenha passado por um momento como esse, ainda bem. Mas eu quero lhe contar uma história. Eduarda, em 2018, quando nós tínhamos 15 e 16 anos, aconteceu um episódio muito trágico que tive o desprazer de acompanhar de perto. A mãe da minha melhor amiga foi morta. Foi aí que eu aprendi o que era feminicídio. Foi aí que eu aprendi o que era a dor de três meninas perderem a mãe. Hoje, essa minha melhor amiga está grávida, acredita? Vem um menino aí, e eu sei que ele vai crescer ouvindo quem foi a avó dele! A vó que foi tirada de casa abruptamente por um homem controlador. A vó que teve que deixar sua mãe e suas tias sozinhas, pois arrancaram suas meninas dos seus braços. O nome dela é Sandra, foi uma mulher boa, católica, mãe honrada e uma profissional ímpar!

Ah, está aí outro ponto que queria comentar contigo, a liberdade de sermos profissionais ímpares! Lembro de ver um corte de podcast onde você disse que seu sonho era ficar em casa fazendo bolo pro seu marido. Honestamente, o meu também é. Poder ter um marido digno ao meu lado, ter filhos e poder depositar todo o amor e carinho a eles. É o sonho de toda mãe, não? Ou de toda mulher? Aí está o ponto: toda mulher deve ter a liberdade de sonhar com o que quiser.

Eu não sei porque tu estás na política, mas acredito que um dia você sonhou com isso, você teve a liberdade de sonhar. Você frequentou a escola, através da liberdade que te foi dada de estudar. Você vota por causa da liberdade que te foi dada. Bonito isso, não é? A teoria é linda, a prática foi demorada, lenta e muito difícil.

“Honrar”, tá aí uma palavra muito bíblica. A gente honra pai e mãe, o marido, os filhos, Deus, Jesus, Maria… Eu acredito que o amor de Jesus nos diria que devemos honrar as mulheres que tanto fizeram por mim e por você.

Se hoje você pode escolher ser deputada, esposa troféu, dona de casa… seja lá o que for, uma mulher lhe deu esse direito, através de muita luta.

Então, Eduarda, não se deixe levar contra as mulheres só para ter aprovações de homens. Eles nunca farão nada por você ou por nenhuma de nós. Nós mulheres somos as únicas protetores umas das outras, e adoraríamos ter você como parte dessa rede de proteção.

Estou aberta a conversa sempre, quando quiser, só chamar!

Atenciosamente, Laísa Rinaldi, jornalista, Porto Alegre, RS.

P.S: recomendo você ouvir o depoimento da Cíntia Chagas que relata ter sido acolhida pelas feministas, mesmo depois de tantas falas infelizes contra ela. Você pode ser a próxima!!

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