Por que resolvi escrever sobre o alcoolismo

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um pé no alcoolismo

Por que resolvi escrever sobre o alcoolismo? Talvez seja precipitado afirmar, mas tenho lá minhas teorias de que foi a terapia precoce – iniciada aos 19 anos – que me blindou quando eu estava com um pé no alcoolismo.Minha fobia social, vontade de ser aceita e afobação pelo sucesso imediato me jogavam para a bebida como uma catapulta, que não demorava a me lançar ao alto para, em seguida, me espatifar no chão. Precisei de motivos muito fortes e tangíveis para entender que deveria maneirar na bebida, como o medo de perder um emprego importante e a vontade de engravidar. Me tornei uma bebedora de álcool social – e grande fã da Heineken 0.0 – há pouco tempo. Pouquíssimo tempo. Coisa de cinco anos para cá. E preciso reconhecer que olhar para a minha falta de controle frente à bebida também foi um processo de influência.

“A bebida deixou marcas muito tristes na minha vida”, foi a fala que peguei no ar da atriz Carolina Dieckmann em um vídeo destes curtos de Instagram. Lembro de parar o que eu estava fazendo e repetir algumas vezes aquele minuto em que a atriz relacionava o álcool à tristeza. Na época, tentei buscar mais daquele material e não encontrei. Mas me agarrei àquela frase. Acho que era isso que justificava meu afastamento do álcool: a tristeza que a bebida havia me proporcionado em diferentes âmbitos e em diversas formas. Em outra situação, enquanto lia um dos famosos títulos da especialista em vulnerabilidade Brené Brown, destaquei o momento em que ela revelava que se deu conta de que precisava de ajuda e parou de beber. Devorei aquele texto. Também procurei por mais. Eu catava, urgentemente, identificação.

Nessa semana, participei da gravação do podcast Fala Feminina, da maravilhosa Fátima Torri, que logo irá ao ar. Uma das primeiras perguntas que a jornalista me fez foi: por que tu decidiu escrever sobre a relação com o álcool? E aí está a resposta: identificação. Aceitação. Deixar o tabu de lado. Ligar o alerta. Parar para pensar. Para mim, na jornada de frequentes porres nas festas em que, inicialmente parecia ousado, engraçado, quase uma identidade, talvez, tenha faltado perceber que ficar bêbado não era bom. Não era divertido. Talvez, tenha faltado referência, pessoas que eu admirasse e que pudessem bater no peito como Carol Dieckmann e Brené: eu não bebo porque não tenho uma relação positiva com a bebida.

Em “Mana, me ajuda!”, meu livro que acaba de chegar às livrarias pela L&PM e terá seu lançamento no dia 30/09, em Porto Alegre, na PocketStore (espero vocês), narro a história de uma mulher que precisa lidar com o diagnóstico de alcoolismo do irmão. Em algum momento, quando achei que o livro não seria publicado, lamentei em terapia: é uma pena, porque seria tão bom poder abrir essa conversa com as pessoas. Agora, o livro já está por aí, já recebo alguns relatos de leitores e me emociono ao notar que a pauta está na mesa. Não é sobre catequizar pela sobriedade ou te afastar do teu drinque, se você administra bem a situação – eu também tomo minha tacinha vez que outra. É apenas a torcida para que o livro seja útil para quem precisa que lhe seja útil.

Por Fernanda Pandolfi, jornalista, escritora e empresária. Livro “Mana, me ajuda” disponível para compra.

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