Dizemos há décadas que é preciso uma aldeia para criar uma criança. O que nunca se diz é que é preciso, antes, uma aldeia para salvar uma mãe.
Maternar é bonito, constitutivo, fortalece e alegra, mas é trabalhoso. Exige tempo, presença, compromisso emocional e físico. Exige noites mal dormidas, decisões difíceis, disposição constante.
Mas o “debate” que desejo propor aqui não é sobre o cuidado intensivo com os filhos, a rotina interminável de uma casa ou as tarefas que a maternidade “naturalmente traz”. O que quero levantar é que o adoecimento das mulheres mães é decorrente da soma de tudo isso com a ausência de suporte, é o acúmulo. É o fato de que tudo, absolutamente tudo, recai sobre elas, sem descanso, sem revezamento, sem trégua ou pausa. O que deveria ser dividido, vira obrigação exclusiva, o que deveria ser apoio, vira cobrança e o que deveria ser rede, vira isolamento.
As instituições públicas falham sistematicamente e na esfera privada, a responsabilidade também. Não chega, nunca. Companheiros se afastam, famílias delegam, amigos desaparecem. O entorno inteiro age como se a exaustão fosse escolha, como se a sobrecarga fosse consequência de desorganização pessoal, de fraqueza, de falta de preparo. E quando o adoecimento chega, porque chega, a narrativa ainda recai sobre ela: exagerada, descontrolada, histérica, incapaz.
Esse ciclo não é novo. Não é casual. Não é individual. É uma estrutura social inteira funcionando para manter as mulheres caladas, cansadas e culpadas. O que está em jogo, me parece, não é só o bem-estar de cada mãe, é a saúde psíquica de gerações inteiras de mulheres.
Se a “aldeia” não assumir sua parte, o preço continuará alto: projetos abandonados, desejos suspensos, vínculos rompidos, vidas interrompidas. Salvar mães é uma responsabilidade coletiva, e é urgente.
Por Debora Saueressig.